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Blog do Dan Josua

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Amanhã eu faço: entenda como funciona a procrastinação

Dan Josua

19/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Imagine que um aparelho de dar choques foi instalado na sua cadeira ou poltrona. Alguém vai contar até cinco e, então, te dar um choque. A procrastinação é a arte de esperar até o "quatro" para se levantar.

Gosto dessa metáfora porque exemplifica bem o tipo de atividade que costumamos procrastinar: tarefas um pouco  entediantes, que nos tiram de nosso conforto (precisamos nos levantar) e cuja motivação advém de evitar uma punição. Em outras palavras, procrastinamos as tarefas chatas de nosso dia a dia, aquelas que fazemos apenas porque deixar de executá-las traria  problemas. Com isso, postergamos a entrega do imposto de renda, o trabalho maçante ordenado pelo chefe, iniciar um regime, fazer um check-up no médico, escrever um trabalho acadêmico…

Mas, veja só: raramente procrastinamos atividades prazerosas. Mais raro ainda é adiar  coisas que aumentam o nosso conforto no curto prazo. É difícil imagina, naquele mesmo exemplo do início, alguém esperar até ouvir o "quatro" caso a atitude que desligaria o choque fosse a de se sentar, em vez de se levantar,

Outro lado importante dessa metáfora é que ela permite que a gente lembre o que estamos sentindo ao procrastinar. Não é desconforto o suficiente para produzir movimento, mas a situação de quem espera o "quatro" é bem mais desagradável do que estar sentado tranquilamente. 

Na vida real, esse é um dos maiores problemas dos procrastinadores profissionais: estão sempre vagamente desconfortáveis. Esperando que a coisa fique apertada o bastante para que valha a pena se mexer. E, no meio dessa espera, acabam perdendo tanto o tempo para deixar tarefa bem-feita quanto a possibilidade de conseguir relaxar de fato. 

Lembra aquela sensação dos tempos de escola? Quando tínhamos que ler um livro enorme para a prova de segunda-feira e só iniciávamos a leitura após o fim do "Fantástico", no domingo? Queríamos ter passado o final de semana apenas relaxando, mas na verdade ficamos esses dois dias um pouco tensos, com uma pequena nuvem negra nos acompanhando.

No meio de tanto atraso, as tarefas se acumulam e a capacidade de fazer tudo com calma se perde. A  angústia vai aumentando. A bola de neve cresce e tentamos empurrá-la mais um pouco para frente. Só que, a cada empurrada, deixamos a carga sobre os nossos ombros mais pesada, relutando cada vez mais em nos mexer.

Lembrar-se disso talvez seja o começo para resolver problemas dessa natureza. Tente não esquecer que a paz não virá enquanto o problema for sendo empurrado com a barriga. Que, frequentemente, o difícil é dar a partida – depois que estamos em movimento, tudo fica mais fácil. Muito frequentemente, aliás, nos sentimos aliviados depois de dar início à tarefa da qual temos nos esquivado.

Como sair disso?

Um  dos exercícios mais interessantes para os procrastinadores de plantão é o de planejar se engajar na atividade temida por um período curto — 10 minutos no máximo, por exemplo. Quando esse tempo passar, o procrastinador deve se perguntar se prefere continuar trabalhando ou parar. A maioria, após ter iniciado a tarefa, tende a querer continuá-la até o fim.

No final das contas, se diminuímos a cobrança, conseguimos dar o pontapé inicial e, depois disso, frequentemente as coisas vão se ajustando. Assim que nos levantamos, percebemos que ficar em pé é menos desconfortável do que imaginávamos. E bem mais confortável do que ficar ansioso, preso em uma poltrona que está prestes a nos dar um choque.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.