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Blog do Dan Josua

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Histórico

Anitta fala sobre depressão em série: por que artistas têm o problema?

Dan Josua

22/11/2018 04h00

Crédito: David Becker / Getty Images

Qual é essa relação entre artistas e transtornos mentais? A cada ano, uma nova de história de um músico com cicatrizes de doenças mentais parece surgir. Esse ano, um filme e um comentário me chamaram a atenção. Falo do filme retratando a vida de Freddy Mercury (Bohemian Rhapsody) e o documentário do Netflix que acompanhou um pouco a vida de Anitta (Vai, Anitta) –isso sem falar do filme, de ficção, estrelado por Lady Gaga: Nasce uma Estrela. Em todos esses casos, o sofrimento está lá, apontado sem ser explicado.

O que leva essas pessoas talentosas, criativas e bem sucedidas a sofrerem desse jeito? É claro que a resposta não é só uma; existem tantas depressões quanto pessoas deprimidas. Mas talvez seja possível aproximar o que esses dois artistas –imãs de olhos e audiências – passaram.

A primeira hipótese possível é que é a da natureza de pessoas criativas sofrer desse jeito. A mesma característica que permite que eles construam canções e encantem desse jeito deixa sua alma cortada. É possível que isso seja verdade. Sabemos que, para todos os transtornos mentais, existe uma parte genética, fisiológica que deixa alguns indivíduos mais vulneráveis a esses tipos de sofrimentos.

Ao mesmo tempo, também é fundamental reconhecer o papel que a vida de um artista tem na gênese desse sofrimento. É fundamental olhar para vida desses artistas para terminar de construir o retrato de seus transtornos mentais. 

Em determinado momento de Bohemian Rhapsody, Freddy Mercury é perguntado por que usava tantas drogas e se afundava em sofrimento daquele jeito. "Os silêncios entre eventos são insuportáveis", o cantor responde (ou algo próximo a isso). E, de fato, a sua vida parecia vazia para além do sucesso. Seus amigos e parceiros de banda seguiam suas vidas enquanto ele se via solitário, frente a um piano silencioso e um mar de desconhecidos. Parecia faltar a conexão profunda que daria sentido para todas as conquistas do artista. O filme, mesmo que não tenha entrado muito nos detalhes desse sofrimento, mostra como a história de sua dor é paralela a história da substituição de suas relações significativas por multidões não familiares em festas sem significado para além da fuga da realidade.

É difícil saber se Anitta também sofre o peso e a solidão do sucesso. Ela não fala nessas palavras, e eu odiaria dar um diagnóstico desses assim, a distância. Ao mesmo tempo é marcante que Anitta passe boa parte do de seu documentário com o celular na mão. A necessidade de agradar o tempo inteiro; estar sujeita a críticas e elogios a cada segundo e o fardo de precisar agradar parecem pesar em seus ombros. Se as poucas críticas que recebo nesse blog já machucam, eu mal posso imaginar o que significa a exposição a que uma artista como ela está sujeita.

Mais ainda, fico me perguntando o quanto que os milhões de seguidores não retiram a sua atenção das dez pessoas que realmente lhe importam. Me pergunto o quanto essa pressão de agradar a todos não a afasta de aproveitar as pessoas com quem ela parece de fato (e profundamente) amar. Mas, sendo honesto, posso perguntar a mesma coisa a mim mesmo frente às minhas obrigações do dia a dia –e talvez a todos os meus leitores. No fundo, não é preciso fama para ser afogado por exigências infinitas de trabalho –mas a celebridade parece deixar mais difícil fugir desse ciclo.

Acredito que a depressão ou o vício em drogas é, em última instância, uma doença da desconexão. Um sintoma de nosso afastamento de nossos irmãos –de relações verdadeiras que preencham nosso dia a dia. Ou um afastamento de nossos valores e de uma vida em uma comunidade que nos faça sentido. Artistas, mesmo que sejam pessoas capazes das mais profundas relações, pela pressão de suas carreiras, acabam se afastando desses contatos. De repente, é fácil ver como uma artista como Anitta deixou de sentir a mensagem de empoderamento que está tentando transmitir e passou a sentir as milhares de exigências de figurino, performance, etc. Exigências sem fim –cuja infinitude aumentam ainda mais o sofrimento. 

Viver nesse mundo de cobrança traz feridas. É impossível viver em rotinas onde sono é um privilégio raro sem sair marcado. É insuportável viver sobre a pressão de sempre precisar se superar um pouco mais –onde nada nunca parece ser o bastante. 

A minha pergunta não é como essas pessoas adoecem, mas como elas têm força o bastante para melhorar e se reaproximar dessas conexões importantes.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.