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Esquizofrenia torna alguém perigoso? Minha experiência no manicômio

Dan Josua

26/09/2019 04h00

Crédito: Istock

Eu tinha 20 e poucos anos e me sentia muito maduro e adulto. Exceto quando estava caminho do meu primeiro dia de estágio no manicômio judiciário. Minha boca era um deserto implorando pela ajuda de um adulto. As palavras tranquilizadoras da minha professora  "nunca um psicanalista foi agredido por um paciente psicótico"  não me acalmavam. Mesmo hoje, sua hipérbole me deixa mais inquieto do que tranquilo. Sério mesmo, de onde ela tirou essa estatística?!

Mas lá fui eu, meio perdido enquanto tentava seguir folhas impressas do Google Maps. O luxo de ter um GPS no celular ainda não tinha me alcançado, o que deixou o trajeto mais tensoÉ estranho lembrar que era assim que eu dirigia para um local desconhecido: apenas com noções gerais de por onde seguir. 

Com alíviodesgrudei os olhos do mapa e olhei pela janela na direçãda primeira placa indicando o presídio: vi um campo de futebol, com grama de verdade. "A experiência  será melhor do que imaginei"pensei. 

É…, teria sido um ótimo se eu estivesse no lugar certo. O manicômio judiciário, segundo o homem na guarita, era um pouco mais à frente, virando à direita em pequena estrada de terra. Muros sem charme me esperavam quando, finalmente, cheguei.  

Eu me apresentei com voz engasgada para o funcionário que me indicou o edifício onde uma pessoacom um sorriso no rosto, me esperava para um tour pelo local.  ótimo receber os alunos da PUC", ela me disse, enquanto me mostrava as instalações. Conheci uma realidade distante do campo de futebol do caminho, mas que também era menos aterrorizante do que a que o filme "Bicho de Sete Cabeças" tinha me feito imaginar. Depois eu descobriria muitas realidades tristes nesse lugar endurecido, coisas que o filme, de certa forma, até suavizou. Mas, nesse dia, eu só conseguia me apavorar com passo seguinte que precisaria dar  eu começaria a atender dois detentosem sessões individuais, sozinho em uma sala com cada um deles.

É difícil explicar o quão eu não estava preparado para esse trabalho. Mesmo hoje eu não estaria. A leitura atenta do prontuário e dos diversos laudos judiciários ajudaram pouco.  Aquela situação toda estava cutucando um preconceito que eu não queria admitir que tinha. Por trás de toda a minha bravata de jovem, a verdade é que eu morria de medo da loucura.

Mesmo assim, passei um ano atendendo semanalmente esses dois pacientes. Para desespero da minha professora, nunca acreditei que as interpretações elaboradas que ela me sugeria faziam muita diferença. Se tive qualquer impacto positivo, foi simplesmente porque eu era alguém disposto a escutá-los em um mundo marcado por indiferença e muros. 

Talvez, ao final de um ano, o meu receio frente a essa loucura tenha diminuído. Mas não tanto quanto eu gostaria. E até hoje ainda me pego me repreendendo pelo receio que senti diante da minha experiência aliSerá que eu deveria me sentir diferente? Na faculdade, era tabu falar abertamente sobre essas coisas, mas agora, dez anos depois, posso fazer minha própria pesquisa. Será que, em alguma medida, os dados científicos corroboram meu receio e há perigoso associado à esquizofrenia? 

Confesso que pesquisei para escrever este texto com uma ideia clara de que o único problema da loucura (no que diz respeito à violência) são os nossos próprios preconceitos. Por isso, a princípio fiquei um pouco assustado com o que descobri: existe, sim, uma relação entre esquizofrenia e crimesainda que ela seja pequena. 

Essa é, com frequência, a "manchete" de artigos científicos sobre o assunto. No entanto, quando vamos um pouco mais a fundo, vemos que essa associação nãé tão importante. Primeiro, porque o maior problema em transtornos psicóticos graves parece ser a sua associação com a dependência de substâncias (incluindo o álcool) e com a pobreza. Em boa medida, não se trata simplesmente de uma associação entre transtornos psicóticos e violência, mas desses transtornos com pobreza e isolamento social, que por sua vez tornam o encarceramento mais provável. Como é de se esperar, pessoas sem famílias e morando na rua têmaior risco de terminarem presas por infrações que levariam gente como eu, por exemplo, a uma clínica de reabilitação.

Além disso, o que fica evidente, especialmente em um país como o Brasil, é que a violência preocupante não tem muita relação com saúde mental, mas com a realidade social. Os mais de 20 mil assassinatos no país nos primeiros seis meses de 2019 não são explicados olhando-se para a esquizofrenia. Esses números são entendidos quando  reparamos na própria organização dessa sociedade  o poder de facções criminosas, por exemplo.

Assim, se existe alguma relação entre surto psicótico e violência, essa conexãé pequena. Há uma relações muito mais importantes entre má distribuição de renda e criminalidade, por exemplo. Ora, a taxa de pacientes esquizofrênicos no Brasil e na Suécia são próximas  mas as taxas de violência urbana comparando os dois países são completamente diferentes.

O triste é se dar conta de que o problema muito mais frequente é o inverso. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), violência contra pessoas com diagnóstico de esquizofrenia é um fenômeno comum. Além disso, a morte precoce é de duas a trêvezes mais provável nessa população; os esquizofrênicos frequentemente não conseguem procurar por tratamentos médicos

O meu medo na função de estagiário no manicômio judiciário, me fazia acreditar que eu precisava fazer algo para me proteger. Uma pergunta muito mais acertada seria o que precisamos fazer para proteger esses homens e mulheres. De acordo com a mesma OMS, o tratamento do transtorno é eficaz, só é preciso garantir que o atendimento seja encontrado por quem precisa.

Agora, terminando este texto, eu percebo o que tinha de verdadeiramente assustador no manicômio judiciário. Não era, apenas, a loucura  por mais amedrontador que possa ser me deparar com pessoas que funcionam por regras (aparentemente) tão diferentes das minhas. Mais do que a insanidade, o que tinha de temeroso ali era a violência institucionalizada. Era o cheiro constantemente azedo do ar de um lugar que parecia ter acumulado anos de vômitos de remédios em suas paredes. 

O mais assustador era que ninguétinha me falado que o principal trabalho não precisaria ser  feito apenas dentro daqueles muros. Além de preparar o paciente para o mundo do lado de fora, é necessário preparar o mundo para esses pacientes. Começando, talvez, por um assustado aluno de psicologia.

 

PARA SABER MAIS:

 

Teixeira, E. H., Pereira, M. C., Rigacci, R., & Dalgalarrondo, P. (2007). Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão das evidências empíricas. J Bras Psiquiatr, 56(2), 127-133.

 

Markowitz, F. E. (2011). Mental illness, crime, and violence: Risk, context, and social control. Aggression and violent behavior, 16(1), 36-44.

 

SITE DA OMS (em inglês): https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/schizophrenia

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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