Blog do Dan Josua http://danjosua.blogosfera.uol.com.br Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Thu, 21 Nov 2019 07:00:03 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 No amor, a resposta costuma ser mais simples do que a gente gostaria http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/no-amor-a-resposta-costuma-ser-mais-simples-do-que-a-gente-gostaria/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/no-amor-a-resposta-costuma-ser-mais-simples-do-que-a-gente-gostaria/#respond Thu, 21 Nov 2019 07:00:03 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=815

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Faz muito tempo que estou casado, então confesso que falarei isso como alguém que está vendo de fora, mas… De verdade, às vezes parece que muitos solteiros (e solteiras) estão jogando um elaborado jogo de detetive. Quase como se a vida fora de um relacionamento fosse um livro da Agatha Christie no qual é necessário atentar a cada um dos detalhes para se chegar a qualquer resposta.

Não importa se vem de homens ou mulheres, hétero ou homossexuais, com frequência escuto algo assim:

“Sim, sim, é verdade, ele disse que não quer nada sério… Maaaas… (!), então por que está curtindo 37% das minhas fotos no Instagram? Todas as vezes que ele sai a sério com alguém, ele coloca um coraçãozinho nos comentários dos seus posts. E ele fez isso comigo em três das minhas últimas doze postagens… Com explicar isso?”. A resposta encontrada pelo detetive amador lhe parece óbvia: essa pessoa só pode estar atrás de algo sério.

Observando esse jogo dos solteiros, eu só tenho vontade de dizer várias vezes: navalha de Occam, navalha de Occam, navalha de Occam! Imagino os olhares confusos na minha direção. Muito por alto, o princípio da navalha de Occam, importante na Filosofia, diz o seguinte: se duas hipóteses explicam igualmente um fenômeno, devemos sempre adotar a mais simples. Portanto, aqui também, a tal navalha de Occam é apenas um lembrete para procurarmos pela resposta mais simples. Nessa caso: talvez a pessoa que diz que não quer nada sério, simplesmente não quer nada sério.

Sim, a pessoa incrível, que é super carinhosa com você quando está ao seu lado, talvez esteja falando a verdade quando afirma não querer nada sério contigo. Apesar do coração no Instagram e dos milhares de gestos gentis. Muitas vezes, simplesmente, o outro lado não está a fim –e acreditar em suas palavras pode lhe poupar muito sofrimento.

“Mas por que os milhares de gestos carinhosos, se a pessoa não quer nada?”, você talvez gostaria de me perguntar. É claro que existem tantas respostas para essa pergunta quanto pessoas no mundo, mas, em linhas gerais, é importante entender que o nosso comportamento não é motivado apenas pela nossa consciência. Pode ser que, mesmo não querendo nada a sério, a única maneira que esse ser conhece para  aproximar de um par seja romântica. E, nesse cenário, acaba sendo romântico a despeito de suas intenções verdadeiras (e não por conta delas). Pode ser que, mesmo sem saber, faça esses pequenos gestos porque se sentir amado e desejado é importante pra caramba –ainda que  não esteja disposto a amar de volta.

É claro que todo mundo já ouviu esse conselho, esse chamado para a simplificação. Também é óbvio que a maior parte de nós acaba ignorando essa dica. Afinal, a mente de quem está apaixonado tem asas próprias e adora contar histórias. De preferência, histórias que se encaixem com os sentimentos. A mente detetive ganha asas e procura, nos pequenos detalhes, as provas de que essa história vai terminar em romance –e não ajuda muito as milhares de comédias românticas nos ensinando que o verdadeiro amor só vem depois de muita confusão.

A mente apaixonada conta histórias elaboradas que deixariam qualquer escritor ruborizado com um objetivo simples: fugir da dor. Escapar da difícil realização de que o outro lado não quer nada mesmo, que ele (ou ela) simplesmente não está interessado(a). Que será preciso transformar o luto de uma paixão que nunca chegou a se desenvolver em algo maior. Que, por enquanto, será preciso esperar até que a pessoa certa chegue –sozinho, até lá.

Ao mesmo tempo, ainda que triste, costuma haver uma grande paz na aceitação verdadeira. Se esse rolo que não vai a lugar algum puder acabar, talvez seja possível algo novo nascer.

PS: é claro que é possível que a a mente apaixonada tenha razão. É possível que as teorias elaboradas sejam, de fato, verdadeiras. A pergunta talvez não devesse ser sobre possibilidades, mas sobre probabilidades. Onde vale a pena investir a nossa energia e o nosso tempo?

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Pessoas ricas parecem mais insensíveis? Psicologia estuda essa relação http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/e-se-o-dinheiro-nos-deixar-mais-insensiveis/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/e-se-o-dinheiro-nos-deixar-mais-insensiveis/#respond Thu, 14 Nov 2019 07:00:52 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=806

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Hoje foi uma Land Rover verde que me ultrapassou em uma pequena ruazinha residencial – seu motor a mais de 60 km/h e sua mão impaciente castigando a buzina. Recuperado do susto e encontrando o carro no próximo sinal, não me aguentei e perguntei se os dez segundos que ela economizou para chegar até o sinal valiam a minha vida.

A resposta veio do auto-falante do carro –a impossibilidade de poder conversar com a janela abaixada já comunica horrores da ilha onde essa pessoa vive — e foi bastante decepcionante. Fui, essencialmente, xingado. Até de baiano, que por algum motivo estranho esse tipo de gente acha que é um xingamento, fui chamado… Sei lá, admito que não fico surpreso que quem acha que o estado de origem de alguém possa ser uma ofensa seja a exata mesma pessoa que topa colocar um ciclista em risco para ventilar a própria raiva. (para não dar margem a dúvidas: ser chamado de baiano não é e nem deveria ser uma ofensa, mesmo que alguns ignorantes repitam esse tipo de gesto). 

Um carro de mais de duzentos mil reais, blindado ainda por cima. Um símbolo de poder aquisitivo que deveria, se as propagandas falassem a verdade, estar diretamente atrelado a felicidade e satisfação. Mesmo assim, por detrás do volante uma irritação que parece gritar insatisfação com o mundo. E, pelo menos na minha experiência pedalando pelas ruas de São Paulo, essa parece ser a regra: quanto mais caro o carro, maior a chance do motorista se sentir no direito de me colocar em risco para ganhar alguns centímetros de asfalto. 

Será simples coincidência? A minha experiência apenas uma anedota da zona oeste paulista que não representa nenhuma relação verdadeira entre preço do carro e educação no trânsito? Ou será que existe, de fato uma relação entre a gentileza do condutor e o preço de seu carro?

Os psicólogos americanos Dacher Keltner e Paul Piff fizeram uma série de pesquisas para avaliar isso. Primeiro, analisaram o comportamento de motoristas em um cruzamento movimentado e observaram que carros chiques tinham quatro vezes mais chances de não respeitar a preferência de passagem quando comparados a carros mais modestos. Quando os pesquisadores de suas equipes foram atravessar a mesma rua em uma investigação posterior, todos os carros simples deram passagem, mas os mais sofisticados continuaram andando em 46,2% das vezes (mesmo em vezes que fizeram contato visual com o pedestre). Ou seja, parece que de fato o preço de um carro é um preditor de sua disposição a respeitar as leis de trânsito. Quem ainda duvida disso, eu convido a prestar atenção nos preços dos carros que estiverem te ultrapassando pelo acostamento no trânsito desse feriado…

A insensibilidade de quem tem mais privilégios não para na maneira como essas pessoas dirigem. Pesquisas dos mesmos autores mostram que pessoas com muito dinheiro no banco tem mais chance de trapacear em uma série de tarefas e jogos. Em uma das mais interessantes pesquisas de Keltner e Piff, participantes foram convidados para jogar uma versão um pouco modificada do jogo “banco imobiliário”. Nesse jogo, um dos dois participantes ganhava uma série de benefícios que tornava o seu sucesso muito mais provável —eles podiam jogar os dados duas vezes e começaram com o dobro de dinheiro, por exemplo. Mesmo sabendo das vantagens que receberam, as pessoas que enriqueceram no jogo fizeram muito mais desses atos típicos do rico insensível. Bateram com as peças no tabuleiro, comemoraram efusivamente seus talentos e até mesmo pegaram mais biscoitinhos do pote a sua frente do que o jogador menos privilegiado. 

Depois de 15 minutos desse “banco imobiliário” viciado, os participantes foram convidados a falar um pouco sobre a sua experiência jogando. E, acredite, aqueles que enriqueceram tendiam a falar sobre as suas geniais estratégias para ter vencido –mesmo sabendo que o jogo foi construído para favorecê-los enormemente. Foram raros os participantes que simplesmente admitiram: “eu enriqueci porque o jogo foi feito para eu ganhar”. 

Talvez seja mais do que o preço do carro que deixa um motorista insensível à segurança das pessoas a sua volta. Possivelmente, o próprio processo de enriquecer seja um problema. Ao se tornar milionária, a pessoa acaba se isolando e se afastando da pessoa comum. Vai, especialmente, acreditando que o dinheiro que ela acumulou a torna especial de alguma maneira. Se o dinheiro dá valor ao homem, o homem que tem quinhentos mil reais para gastar em um carro deveria ter muito valor –essa parece ser a racional distorcida.

É triste admitir, mas é difícil não cair nessa lógica. Confesso que já disse que não tinha tempo para comprar um prato de comida para alguém com fome simplesmente porque queria chegar cinco minutos mais cedo em casa. De maneira mais suave, cometia a mesma insensibilidade da motorista do Land Rover que me incomodou tanto. 

Acabamos vivendo em um país como o Brasil, nos isolando dos problemas dos outros e sendo, mesmo quando nos consideramos ótimas pessoas, o rico insensível que abominamos no trânsito. Infelizmente, morar tão rodeado de pobreza às vezes nos faz criar calos que nos deixam insensíveis à realidade desse sofrimento a nossa volta.

É louco que o que passamos tanto de nosso tempo indo atrás —o dinheiro que vai trazer nossa paz e tranquilidade — acaba nos afastando de quem está a nossa volta. Vai nos deixando menos sensíveis ao sofrimento de nossos compatriotas e mais focados em nossas próprias necessidades. É triste que eu já tenha escolhido mais de uma vez o meu conforto de cinco minutos frente a uma criança com o estômago vazio. Tento ao máximo evitar cair nessa armadilha de minha fantasia de auto-importância (e me envolver em trabalho voluntário e doações), mas de tempos em tempos vacilo e volto a olhar só para o meu umbigo.

Mas, o pior desse movimento todo, é que o que a bile cuspida e racista do Land Rover parece dizer é que mesmo a capacidade de comprar um carro de no mínimo duzentos mil reais não parece trazer lá muita felicidade. Parece trazer raiva de um ciclista qualquer. E a angústia de continuar acreditando que, apesar de todos os privilégios, o mundo ainda te deve um monte. 

Curiosamente, algumas pesquisas, lideradas por Jonas Miller, com crianças parecem apontar a simples solução para essa raiva toda: doe seu dinheiro e tempo. Crianças que gastaram suas moedas com outras crianças doentes, em comparação com as que gastaram consigo mesmas, mostraram mais facilidade em se acalmar –mesmo suas respostas neurológicas, mostravam essa tranquilidade. O ser humano fica mais em paz em um mundo de trocas do que em um de isolamento. Por mais que a primeira doação seja sofrida, o caminho para a felicidade talvez esteja em dividir mais as nossas sortes.

 

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Ser psicólogo não é fácil, afinal: quem está cuidando de quem cuida? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/ser-psicologo-nao-e-facil-afinal-quem-esta-cuidando-de-quem-cuida/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/ser-psicologo-nao-e-facil-afinal-quem-esta-cuidando-de-quem-cuida/#respond Thu, 07 Nov 2019 07:00:16 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=800

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A verdade é que ser psicólogo é mais difícil do que aparenta, mas pouca gente parece perceber isso. Por exemplo, toda vez que eu vou cortar o cabelo é a mesma coisa:

“O que você faz?” 

“Sou psicólogo.”

“Que bacana!” 

“Super. Eu amo o que eu faço”. 

E, de fato, amo. Só que raramente a gente fala do lado pesado de ser um psicólogo. Segundo uma revisão feita na Universidade de Antioch, em Seattle, nos Estados Unidos,  81% dos psicólogos tiveram algum transtorno psiquiátrico diagnosticado. Ainda que muitos desses casos sejam de transtornos mais leves, a prevalência é assustadora.

Por que será que psicólogos sofrem dessa maneira?

Em primeiro lugar, acredito, porque existe uma grande carga emocional na convivência diária com o sofrimento alheio. Em especial, quando a ferramenta que temos para lidar com esse sofrimento é tão sutil e subjetiva quanto a da Psicologia  —que, afinal, está munida simplesmente de palavras. É claro que também existe uma grata compensação quando vemos todas as pessoas que melhoram e reconstroem suas vidas. Ainda assim, é difícil testemunhar dores psíquicas, tão nuas, todos os dias.

Uma das coisas que mais pesam na vida de um psicoterapeuta é a responsabilidade extrema a que às vezes somos submetidos. Uma ligação de madrugada com a pessoa do outro lado da linha prestes a se matar, por exemplo, é muito menos raro do que as pessoas que vêem a profissão de fora imaginam. Podemos ter bons argumentos e excelentes estratégias para lidar com a situação. Às vezes, convocamos família ou até mesmo bombeiros para nos ajudar. Mas ouvir as palavras de desespero pelo telefone é sempre extremamente angustiante. Porque, no final das contas, o psicólogo carrega um peso enorme nas costas –ter a vida de alguém do outro lado da linha e apenas palavras para evitar uma tragédia.

Mesmo quando tudo termina bem, é difícil para o terapeuta fechar os olhos e dormir. As milhares de possibilidades do que ainda pode dar errado misturadas com outras milhões de coisas talvez saiam dos trilhos com aquele paciente permeiam a noite do profissional que fica se virando na cama. Sinceramente, quando isso acontece, fico com pena da minha esposa ao lado. 

A responsabilidade é tão grande que uma das maiores suicidólogas do mundo, a americana Marsha Linehan (já contei um pouco sobre ela), exige que todos os psicólogos de sua abordagem participem de uma espécie de grupo de suporte para terapeutas. Essa atividade com os pares, segundo ela, é mais importante do que qualquer aprendizado técnico para um terapeuta de suicidas.

Os grupos de consultoria, como são chamados, têm duas grandes funções. Em primeiro lugar, ajudar o terapeuta a manter sua competência técnica. Isto é, ajudá-lo a manter sua capacidade de agir corretamente mesmo diante de situações extremas, como a que descrevi. Em segundo lugar, já disse, cria-se uma rede de suporte —e confesso que estive nesse lugar algumas vezes. Nela, é permitido que terapeutas chorem, se desesperem e se recomponham. Veja, apenas assim ele voltará a estar apto para ajudar da melhor forma possível o seu paciente. Nesses grupos, os terapeutas praticam uns com os outros as mesmas técnicas que incentivam seus pacientes a usarem.

A triste realidade é que há um sofrimento silencioso de quem cuida do sofrimento dos outros. Falei de psicólogos, ou seja, da minha experiência particular, mas argumentos semelhantes poderiam ser dados a médicos, a enfermeiros e a mais tantos outros profissionais da saúde, bem como a cuidadores. Não é a toa que as taxas de sofrimento mental dessas populações costumam ser elevadas. A prevalência de transtornos mentais em enfermeiros em um certo hospital da Bahia, por exemplo, é de 35%. 

Talvez não exista nada que possa ser feito para prevenir completamente essa dor –ela é parte do trabalho de cuidar da vida de alguém. Mas podemos pensar em como cuidar de quem cuida. Uma profissão pode ser incrível e apaixonante e, ao mesmo tempo, muito difícil e cheia de dores. 

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Natureza tem efeito impressionante no cérebro, e tem explicação http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/natureza-tem-efeito-impressionante-no-cerebro-e-tem-explicacao/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/natureza-tem-efeito-impressionante-no-cerebro-e-tem-explicacao/#respond Thu, 31 Oct 2019 07:00:42 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=794

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O efeito da natureza no nosso cérebro é poderoso. E conhecido há muito tempo. Aristóteles, que viveu em Atenas de 384 a.C.a 322 a.C., acreditava que caminhadas ao ar livre clareavam a mente. Einstein e Darwin usavam de caminhadas em jardins como parte importante de seu processo criativo. E cada um de nós que já mergulhou sozinho no mar sabe disso: existe uma mudança quando nos vemos rodeados por algo que é maior do que nós mesmos.

Mas o que acontece na natureza que faria a gente se sentir assim? Segundo a hipótese biofílica, popularizada pelo biólogo americano Edward O. Wilson, os seres humanos evoluíram para viver do lado de fora. Nossos corpos e mentes se desenvolveram para se harmonizar com rios e montanhas e não com prédios e ruas de asfalto. Somos, em última instância, animais conectados de alguma forma ao ambiente que nos criou. Mas que fique claro: isso não é um argumento contra a civilização moderna. Esgoto e antibióticos foram conquistas incríveis para superarmos nossas limitações.

Ainda assim, é preciso compreender as condições às quais o nosso corpo se adaptou para sobreviver — e os efeitos dessa adaptação são verdadeiramente notáveis. Por exemplo: há quem argumente que as altas taxas de miopia em alguns países do leste asiático, que chegam a 90%, se devem ao fato de que os jovens das grandes cidades da região com frequência não entram em contato suficiente com luz do sol. Aparentemente, a vitamina D produzida graças ao banho de luz natural ajudaria a moldar o formato dos olhos e, na ausência desse nutriente, a chance de óculos serem necessários se tornaria maior. 

No entanto, e mais importante, existe alguma paz no som de grilos que não é reproduzida pelo barulho constante de carros das grandes cidades. Segundo os proponentes da hipótese biofílica, o nosso corpo usa simultaneamente todos os seus cinco sentidos, desenvolvidos  ao longo de sua evolução, apenas quando está próximo de seu habitat. Assim, a paz encontrada no contato com a natureza é diferente da encontrada nas grandes cidades. Mesmo quando a mesma atividade está sendo executada.

Cientistas da universidade de Chiba, no Japão, compararam as respostas fisiológicas de centenas de pessoas fazendo caminhadas na floresta e no meio da cidade. E os resultados são impressionantes. A diminuição do nível de cortisol de quem caminhou no mato foi 12% maior do que a redução  em quem caminhou na cidade. Houve também uma queda significativamente maior na diminuição dos batimentos cardíacos e na pressão sanguínea. Além disso, os resultados registrados em testes de psicologia foram consideravelmente melhores nas pessoas que caminharam na natureza. Ou seja, em todas as avaliações — fisiológicas e psicológicas — o estresse parece diminuir mais na caminhada na terra em comparação àquela feita no asfalto.

Se é comum falarmos da importância do exercício físico para a saúde mental, é interessante notar esse aspecto. O exercício feito na natureza parece produzir efeitos mais fortes do que aqueles realizados em ambientes construídos pelo homem. De novo, não é preciso tanto teste: quem nada em piscina e no mar sabe a diferença entre um mergulho e o outro. 

Os efeitos da natureza em nosso cérebro não se limitam ao bem-estar, no entanto. Pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, descobriram que apenas quatro dias fazendo trilhas já aumentam a capacidade cognitiva significativamente. Em um teste de associações criativas, as pessoas que fizeram o teste após o contato com o deserto de Utah tiveram notas 50% maiores do que aqueles que fizeram o mesmo testes, só que antes de iniciar o passeio.

Segundo os autores, é possível que o contato com a natureza reajuste algumas funções mediadas pelo nosso córtex pré-frontal, que podem estar prejudicadas por um excesso de contato com aparelhos eletrônicos, por exemplo. Simplificando um pouco, podemos dizer que os autores acreditam que estar na natureza pode ser um antídoto para um mal-estar ligado ao nosso excesso de conectividade virtual.

O estudo ainda é preliminar e precisa ser desenvolvido para se chegar a conclusões mais precisas sobre o efeito da natureza em nossa capacidade cognitiva. O que fica de marcante é um interesse crescente em considerar como nossa mente muda quando colocamos nossa cabeça próxima do ambiente natural em que ela se desenvolveu.

Muitas outras experiências preliminares poderiam ser citadas. Um programa de rafting e caminhada para veteranos do exercício americano ou um programa de trilhas nas montanhas do Colorado para mulheres vítimas de abuso são apenas dois exemplos. É verdade que o poder dessas experiências como adendos aos tratamentos profissionais ainda está sendo estudado (não temos evidência científicas sólidas, ainda). Mas os testemunhos dos envolvidos são impressionantes: cada um deles se diz transformado após três dias, em média, de contato profundo com a natureza. 

É preciso esperar a área se desenvolver antes de recomendar esses passeios como forma de tratamento para transtornos mentais. Não estamos, de modo algum, em um momento em que esse tipo de iniciativa poderia substituir tratamentos psicológicos ou psiquiátricos tradicionais. Mas é animador pensar que mais uma arma pode estar surgindo no combate a esses problemas.

Seja como for, eu posso, com confiança, dizer da minha experiência: há algo transformador na massagem gelada de uma cachoeira – e que não se compara a uma ducha em casa.

Para saber mais: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0051474

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E se o seu terapeuta fosse o seu vizinho? O caso dos ‘terapeutas leigos’ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/e-se-o-seu-terapeuta-fosse-o-seu-vizinho-o-caso-dos-terapeutas-leigos/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/e-se-o-seu-terapeuta-fosse-o-seu-vizinho-o-caso-dos-terapeutas-leigos/#respond Thu, 24 Oct 2019 07:00:55 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=787

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A imagem que me vem à cabeça quando eu penso em um bom psicoterapeuta é um grande clichê: uma mulher ou um homem mais velho, com elegantes roupas  de inverno e um vago ar de superioridade intelectual. Nesse contexto imaginário, o que trataria o sofrimento psíquico seria a sabedoria transmitida por essa figura ao paciente.

É estranho pensar nessa imagem porque ela é bem diferente da minha – de certa maneira jovem e com os cabelos cronicamente despenteados. Mais ainda porque esse clichê traz consigo uma noção bastante elitista de psicoterapia, como se ela fosse apenas para quem pudesse pagar por profissionais experientes em bairros chiques de grandes cidades. Infelizmente, a psicologia no Brasil ainda tem essa cara – profissionais ótimos e caros para uma parcela muito pequena da população.

O preço das sessões desses profissionais altamente qualificados provavelmente é alto até por que formá-los é custoso. São necessários anos de estudos para se chegar a esse ponto – algo que faz com que seja impossível que um país como o Brasil produza terapeutas o suficiente.

Nesse Brasil e nesse modelo em que é necessário um grande expert, muita gente que precisa de tratamento acaba ficando sem terapia. Ou seja, existem muito mais pessoas sofrendo do que profissionais capacitados para cuidar desse sofrimento. É chato admitir isso, mas os psicólogos com esse treinamento todo não vão dar conta do recado, portanto outras modalidades de atendimento em psicoterapia são necessárias para tapar esse buraco. 

E aí vale perguntar: será que não existiria uma maneira mais simples de fazer uma psicoterapia efetiva?

Para responder isso, primeiro é preciso pensar se há tratamentos psicológicos que envolvam habilidades mais simples e concretas do que esse misticismo sábio frequentemente associado à terapia. Ou seja, será que existem tratamentos psicológicos que não dependam desse profissional experiente e tão bem formado? Depois, podemos perguntar: será possível treinar leigos para oferecerem esse serviço? Será que, após algumas semanas de treinamento, uma pessoa que tenha apenas o colegial completo poderia tratar um caso moderado ou severo de depressão, por exemplo? Em outras palavras, será que é possível aumentar significativamente o número de profissionais capacitados de maneira pouco custosa?

A resposta para todas essas perguntas é um esperançoso SIM. 

Um dos tratamentos psicológicos com maior número de evidências científicas de eficácia para a depressão, chamado ativação comportamental (ou BA, do inglês behavioral activation), é um dessas respostas mais simples. Para a BA, por trás da depressão há um afastamento de atividades prazerosas ou valorosas. E, se ela pode fazer com que uma pessoa se feche por dias em um quarto escuro, permanecer trancafiada nessa caixa sem sol, por sua vez, é o que mantém a depressão viva. Assim, a tarefa da terapia seria, em essência, encontrar uma estratégia para ajudar o deprimido a reencontrar os “sóis” de sua existência. De acordo com essa concepção, que conta com muitos estudos para a apoiar, não são necessárias análises profundas do passado, mas tão somente a reestruturação da vida atual em algo que produza sentido para a pessoa.

Simplificada, talvez seja viável reproduzir essa intervenção por meio de alguém que nunca estudou psicologia. Mais do que isso, quando pensamos que a depressão pode ser sustentada pelo modo como uma pessoa está tocando a sua vida, o conhecimento pessoal desse mundo onde o deprimido vive pode ser tão importante quanto uma compreensão aprofundada da mente humana.

E foi exatamente isso que uma série de pesquisas com os chamados “terapeutas leigos” descobriu. Uma delas, feita em Goa, na Índia, por exemplo, revelou que, quando inseridos em um serviço de saúde pública, pessoas com pelo menos ensino médio completo (e sem treinamento específico em saúde mental), ao passarem por um treinamento de apenas três semanas se tornaram terapeutas eficazes no tratamento de depressões moderadas ou severas. É isso mesmo: pessoas sem nenhuma experiência clínica, após míseras três semanas de treinamento, podem ajudar muito no tratamento da depressão.

Às vezes é difícil de aceitar isso porque ainda gostamos de pensar na terapia a partir do estereótipo do tal terapeuta sábio e cheio de insights. 

Seja como for, se esses dados são verdadeiros – e várias experiências espalhadas pelo mundo sugerem que eles são -, o exército de combatentes a favor da saúde mental pode se multiplicar em muitas e muitas vezes. Com iniciativas como essa, talvez possamos entregar bons tratamentos a (quase) todos os que precisam. Seja a pessoa com grana em uma cidade como São Paulo – lotada de ótimos psiquiatras e psicólogos – ou quem não tem tantos recursos no interior do Piauí, onde pode ser mais difícil encontrar profissionais qualificados.

Aí, me parece, reside um importante problema para a psicologia. Não basta perguntar qual é um bom tratamento, mas também responder como esse tratamento pode alcançar quem precisa ser alcançado.

[Para saber mais: Weobong, B., Weiss, H. A., McDaid, D., Singla, D. R., Hollon, S. D., Nadkarni, A., … & Dimidjian, S. (2017). Sustained effectiveness and cost-effectiveness of the Healthy Activity Programme, a brief psychological treatment for depression delivered by lay counsellors in primary care: 12-month follow-up of a randomised controlled trial. PLoS medicine, 14(9), e1002385.]

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O que realmente queremos que as crianças aprendam na escola? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/o-que-realmente-queremos-que-as-criancas-aprendam-na-escola/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/17/o-que-realmente-queremos-que-as-criancas-aprendam-na-escola/#respond Thu, 17 Oct 2019 07:00:48 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=775

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O dia dos professores foi celebrado há alguns dias. A data é uma oportunidade de agradecer a esse grupo de profissionais que nos ensinou a imprimir a mão com tinta no papel, depois nos mostrou o significado das letras que formam este texto e, por fim, tentou nos convencer de que fórmulas matemáticas seriam importantes quando saíssemos da escola.

Foi dia de agradecer a esses profissionais que fazem a base de um país rico de verdade. Masa data também serve para refletir se os nossos professores puderam nos ensinar tudo o que a gente deveria ter aprendido. Se, por um lado, o valor de uma boa alfabetização e noções de matemática é indiscutível, por outro, parece que algumas coisas fundamentais ficaram de fora de seus ensinamentos.

Ou seja, sem jogar fora a importância de tudo o que aprendemos em sala de aula, talvez esteja na hora de questionarmos para que serve a educação que passamos tantos anos recebendo. Qual o  seu objetivo final? A resposta padrão nos colégios onde estudei — “formar cidadãos para o mundo” — , cá entre nós, esclarece muito pouco. Afinal, quem são esses tais “cidadãos para o mundo”? O que eles precisariam fazer? E como o que aprendemos em sala de aula prepara esse cidadão?

Com frequência, tenho a sensação de que por trás dessa ideia bonita de cidadania, existe uma dificuldade para descrever com precisão os atos e os conhecimentos que uma pessoa deveria ter ao se formar. Confesso que não tenho nem metade das respostas para essa questão. Ainda assim, acredito que vale a pena se perguntar com sinceridade: o que um adulto deveria saber?

Calcular seus impostos? Entender a ciência por trás do aquecimento global? Saber como produzir energia a partir do lixo? Conhecer as particularidades e sintaxe de sua língua-mãe e ter uma noção básica da linguagem matemática? Ser capaz de elogiar um colega ou  de reconhecer injustiça e saber combatê-la? E quanto a reconhecer suas emoções e ter estratégias para manejá-las?

De novo, preciso admitir que não tenho as respostas. Mas o campo da psicologia vem, nos últimos anos, propondo que diversas habilidades sócio-emocionais também deveriam ser ensinadas na escola. A ideia é que aprender a se comportar de forma saudável precisaria ser matéria obrigatória —  ou seja, tão importante quanto história ou geografia.

Iniciativas fantásticas que buscam ensinar habilidades para a vida para crianças e adolescentes, como as do método FRIENDS e do DBT-STEPS, apenas para citar dois exemplos, já fazem parte de currículos de alguns colégios espalhados pelo mundo. Esses programas sugerem que ao lado de outras matérias o professor seja treinado a ensinar estratégias de manejos de emoções e comunicação saudáveis para crianças.

Mesmo fora desses programas mais estruturados, classes com aulas de meditação já tem se tornado lugar comum em algumas escolas de São Paulo, por exemplo. E faz sentido que seja assim, afinal, a meditação é uma maneira de aprender a focar a atenção, ou seja, de se tornar mais capaz de aprender.

Alguns estudos com universitários têm mostrado que a simples prática meditativa todos os dias é capaz de aumentar suas médias em avaliações, por exemplo. Em outras palavras, parece importante olhar não apenas para o que aprender, mas como podemos cuidar da pessoa que está aprendendo. A meditação, nesse caso, um exemplo de como uma habilidade para a vida, saber focar a atenção em uma coisa tão simples quanto a própria respiração, pode ter efeitos importantes no aprendizado como um todo!

Sei que vivemos em um país onde a simples alfabetização às vezes ainda é um objetivo distante. Nessa realidade, fica difícil sonhar com essa educação para uma vida melhor, focada no bem estar do estudante. Ainda assim, me parece que manter um olho nisso seja importante para garantir a educação de qualidade que o brasileiro tanto precisa. 

Por fim, é preciso deixar claro que a dificuldade para responder essas questões não é falha de qualquer um dos professores que se matam para ensinar em suas salas de aula, frequentemente sem o aporte necessário e fazendo milagres com o que tem. Também não é uma crítica à matemática ou a qualquer uma das matérias do currículo básico. Não, o problema está em uma cultura que ainda não respondeu com clareza o que quer que suas crianças aprendam. E como quer que elas lidem com o aprendizado e com o mundo complexo a sua volta.  Parece, às vezes, que ainda não definimos, enquanto cultura, nossas prioridades.

A minha resposta, como alguém que lida com sofrimento humano todos os dias, é a de que é fundamental começar a olhar para o estudante que está aprendendo. Como ele está se sentindo? O que o faz sofrer? O que brilha seus olhos de interesse? Apenas quando olharmos para as necessidades concretas de nossas crianças e adolescentes, estaremos fazendo jus à educação que eles merecem. 

[PARA SABER MAIS]:

Meditação e retenção de conhecimento

Bamber, M. D., & Schneider, J. K. (2016). Mindfulness-based meditation to decrease stress and anxiety in college students: A narrative synthesis of the research. Educational Research Review18, 1-32.

DBT-STEPS

Mazza, J. J., Dexter-Mazza, E. T., Miller, A. L., Rathus, J. H., & Murphy, H. E. (2016). DBT? Skills in Schools: Skills Training for Emotional Problem Solving for Adolescents Dbt Steps-a. Guilford Publications.

Método FRIENDS no Brasil

http://metodofriends.com/o-metodo-friends/

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Terapia quântica e outras coisas que podem soar científicas, mas não são http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/terapia-quantica-e-outras-coisas-que-podem-soar-cientificas-mas-nao-sao/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/10/terapia-quantica-e-outras-coisas-que-podem-soar-cientificas-mas-nao-sao/#respond Thu, 10 Oct 2019 07:00:54 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=769

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A solução quântica aparece toda vez que um super-herói precisa explicar algo inexplicável. Viagem no tempo? É por conta das partículas quânticas. Mágica? Isso mesmo: enlaçamento quântico. Diminuir o tamanho do corpo humano infinitas vezes? Você adivinhou: mundo quântico. Essa palavrinha mágica aparece para dar um tom científico a um discurso que, se a gente olhasse com um pouco mais de calma, veria que não faz lá muito sentido.

Confesso que, quando estou vendo esses filmes, coloco pipoca para dentro, dou um gole de refrigerante e me deixo levar. Adoro e sempre adorei tudo que tem a ver com super-heróis. Não vejo problema quando um pouco de pseudo-ciência invade as telas de cinema. 

Agora, quando o assunto é saúde mental e educação, a coisa não é tão simples.

E, infelizmente, os tratamentos quânticos –de psicoterapeutas a coachs e educadores — têm pipocado pelo país. Apesar do nome ser derivado da Física, esses tratamentos não estão bem ancorados em princípios científicos. 

É duro ter que dizer isso, mas nenhuma teoria psicológica bem estabelecida pode dar conta dos tais fenômenos quânticos. A complexidade e a estranheza de partículas elementares não puderam ser transportadas para o estudo científico do comportamento humano. Muitas e muitas lacunas precisarão ser preenchidas para que isso ocorra. Ora, a verdade é que o movimento dessas partículas não pode ser exportado nem para a compreensão de grandes massas e velocidades no campo da própria Física –a chamada teoria unificadora que uniria as descrições da Relatividade com as da Física quântica ainda é apenas uma promessa, que dirá para o estudo do ser humano… 

Talvez (um dia, quem sabe) a nossa compreensão da Biologia e da Física será tão completa e unificada que a psicologia será apenas um capítulo desse livro gigantesco. Esse dia, porém, ainda está bem distante. Por enquanto, para entender comportamento humano, não investigamos quarks e nêutrons, mas o cérebro, a genética e as atitudes de homens e de outros animais. Acredite, isso já é difícil o bastante.

E, já que mencionamos a genética, vale deixar claro: tratamento de mudança de DNA, em psicoterapia, também não tem bases estabelecidas na ciência. Sim, termos difíceis da biologia dão um peso para os proponentes desse tipo de terapia. Mas esses nomes complicados são apenas isso: nomes. Porque, se é verdade que algumas experiências de vida podem alterar a expressão do código genético (ressalva, a epigenética, nome do estudo das transformações na expressão do código genético, é de fato importante), isso não quer dizer que um psicólogo, coach ou educador possa atuar de forma proposital sobre esses mecanismos. 

Afinal, como um profissional poderia investigar mudanças nas expressões gênicas de seus pacientes? Fazendo uma avaliação das mudanças das células de cada um de seus clientes? Como? Selecionando todos os grupos celulares, ou apenas de um determinado tipo, como neurônios, por exemplo? 

É pouco provável que o profissional da mudança de DNA, como o da mudança quântica, possa responder essas perguntas. Afinal, não é um estudo meticuloso de ciência que está por trás dessas intervenções… 

Mesmo sem bases sólidas, essas palavras de impacto podem convencer muita gente. Há um charme nelas, já que denominam conceitos complexos da Física quântica ou da epigenética. Por isso, sempre recomendo que, ao procurar por ajuda em saúde mental, o paciente procure por profissionais registrados em seus respectivos conselhos (Conselho Federal de Psicologia ou de Medicina, por exemplo). Se possível, entre eles, ainda procure por quem frequente congressos científicos reconhecidos. 

De resto, tente não se encantar com termos que soem muito bacanas, pois eles com frequência são vazios. E, mais que tudo, lembre-se do clichê: se a promessa é demais, o santo deveria mesmo é desconfiar. 

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A história de duas pontes e do suicídio: dê tempo para a vida http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/a-historia-de-duas-pontes-e-do-suicidio-de-tempo-para-a-vida/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/10/03/a-historia-de-duas-pontes-e-do-suicidio-de-tempo-para-a-vida/#respond Thu, 03 Oct 2019 07:00:32 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=760

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Duas horas se passaram e, quando me dou conta, estou estudando algo bem desconectado do meu tema original. Dessa vez, pelo menos, eu acabei me deparando com algo excelente e importante. Assim, meio que sem querer, conheci a história das duas pontes de Washington, nos Estados Unidos —  as pontes Ellington e Taft. 

Apesar de estarem separadas por apenas algumas centenas de metros, as taxas de suicídios ocorridos na Ponte Ellington sempre foram muito maiores do que as de sua vizinha. Após três pessoas perderem tragicamente suas vidas em um espaço de dez dias, um movimento se iniciou para construir uma cerca de proteção na beirada ali.

As críticas a esse movimento foram as previsíveis. “Não adianta nada construir uma cerca, quem quiser se matar vai simplesmente caminhar até Taft”, argumentavam. 

A grade foi construída em meio a reclamações da oposição. Mas, caso salvasse apenas uma pessoa, a sua construção já teria valido a pena, na mentalidade de seus defensores. Os ferros curvados para dentro tornaram praticamente impossível alguém se jogar dali, de modo que ninguém mais perdeu sua vida se atirando da Ponte Ellington. E, surpreendentemente para os críticos (mas de forma esperada para quem estuda o tema), os suicidas não foram para a Ponte Taft. O número de pessoas que se mataram na região diminuiu e nunca mais retornaram às taxas  anteriores à da criação da cerca.

Vou repetir, porque é importante: as taxas de suicídio rescindiram de forma (aparentemente) permanente após a construção da grade de proteção. Impedir alguém de pular da Ponte Ellington, por alguma razão, não levava a pessoa a fazer a caminhada de alguns metros até Taft .

Por que isso? 

Ninguém sabe a resposta com certeza, mas estudiosos acreditam que existe um forte componente de impulsividade no ato suicida. Assim, se for retirada a oportunidade, se o calor do momento passar, a tentativa também desaparecerá. Muitas vezes, o melhor amigo da vida é o próprio tempo.

Com isso, temos uma dica até de por que as pessoas não se atiravam com tanta frequência da Taft. Ali,  a mureta de proteção é razoavelmente alta, na altura do peito de um homem de estatura média. Aparentemente, nessa condição um pouco mais “difícil”, o impulso para se matar de quem passasse por essa ponte se tornava menor. A mureta, de alguma forma, diminuía o poder do convite que a ponte fazia para aquelas cabeças que estavam sofrendo demais.

Eu gosto de pensar que o que precisamos é de algum espaço para segundas chances — independentemente do nosso tipo de sofrimento. Às vezes, é necessário apenas um pouco mais de tempo para se dar conta da permanência e da  gravidade de alguns de nossos impulsos. Quinhentos metros de caminhada podem ser o bastante. Pare para pensar em sua própria experiência de vida: quantos dos xingamentos gritados no trânsito seriam proferidos se precisassem esperar o tempo de uma caminhada para sair da sua boca? 

É claro que existem pessoas que vão lutar por anos com a dor de sua própria existência. Para essas, uma grade não será proteção o bastante —  e, para elas,  atendimento médico e psicológico serão essenciais. Mas outras tantas precisam, em primeiro lugar, apenas de tempo para uma segunda oportunidade. Tempo até mesmo para que possam procurar pela ajuda profissional de que necessitam. Muitas vezes o mais importante é, simplesmente, aguardar a tempestade passar e a esperança retornar.

Porque sempre há céu azul além da tempestade. Só precisamos dar o tempo ele aparecer. 

[Pensar em suicídio é uma atitude muito séria, mas tem solução. Se você estiver passando por isso, procure por um profissional de saúde ou entre contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone (188) ou pelo site www.cvv.org.br].

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Esquizofrenia torna alguém perigoso? Minha experiência no manicômio http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/09/26/esquizofrenia-torna-alguem-perigoso-minha-experiencia-no-manicomio/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/09/26/esquizofrenia-torna-alguem-perigoso-minha-experiencia-no-manicomio/#respond Thu, 26 Sep 2019 07:00:35 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=754

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Eu tinha 20 e poucos anos e me sentia muito maduro e adulto. Exceto quando estava caminho do meu primeiro dia de estágio no manicômio judiciário. Minha boca era um deserto implorando pela ajuda de um adulto. As palavras tranquilizadoras da minha professora  nunca um psicanalista foi agredido por um paciente psicótico  não me acalmavam. Mesmo hoje, sua hipérbole me deixa mais inquieto do que tranquilo. Sério mesmo, de onde ela tirou essa estatística?!

Mas lá fui eu, meio perdido enquanto tentava seguir folhas impressas do Google Maps. O luxo de ter um GPS no celular ainda não tinha me alcançado, o que deixou o trajeto mais tensoÉ estranho lembrar que era assim que eu dirigia para um local desconhecido: apenas com noções gerais de por onde seguir. 

Com alíviodesgrudei os olhos do mapa e olhei pela janela na direçãda primeira placa indicando o presídio: vi um campo de futebol, com grama de verdade. A experiência  será melhor do que imagineipensei. 

É…, teria sido um ótimo se eu estivesse no lugar certo. O manicômio judiciário, segundo o homem na guarita, era um pouco mais à frente, virando à direita em pequena estrada de terra. Muros sem charme me esperavam quando, finalmente, cheguei.  

Eu me apresentei com voz engasgada para o funcionário que me indicou o edifício onde uma pessoacom um sorriso no rosto, me esperava para um tour pelo local. “É ótimo receber os alunos da PUC, ela me disse, enquanto me mostrava as instalações. Conheci uma realidade distante do campo de futebol do caminho, mas que também era menos aterrorizante do que a que o filme Bicho de Sete Cabeças tinha me feito imaginar. Depois eu descobriria muitas realidades tristes nesse lugar endurecido, coisas que o filme, de certa forma, até suavizou. Mas, nesse dia, eu só conseguia me apavorar com passo seguinte que precisaria dar  eu começaria a atender dois detentosem sessões individuais, sozinho em uma sala com cada um deles.

É difícil explicar o quão eu não estava preparado para esse trabalho. Mesmo hoje eu não estaria. A leitura atenta do prontuário e dos diversos laudos judiciários ajudaram pouco.  Aquela situação toda estava cutucando um preconceito que eu não queria admitir que tinha. Por trás de toda a minha bravata de jovem, a verdade é que eu morria de medo da loucura.

Mesmo assim, passei um ano atendendo semanalmente esses dois pacientes. Para desespero da minha professora, nunca acreditei que as interpretações elaboradas que ela me sugeria faziam muita diferença. Se tive qualquer impacto positivo, foi simplesmente porque eu era alguém disposto a escutá-los em um mundo marcado por indiferença e muros. 

Talvez, ao final de um ano, o meu receio frente a essa loucura tenha diminuído. Mas não tanto quanto eu gostaria. E até hoje ainda me pego me repreendendo pelo receio que senti diante da minha experiência aliSerá que eu deveria me sentir diferente? Na faculdade, era tabu falar abertamente sobre essas coisas, mas agora, dez anos depois, posso fazer minha própria pesquisa. Será que, em alguma medida, os dados científicos corroboram meu receio e há perigoso associado à esquizofrenia? 

Confesso que pesquisei para escrever este texto com uma ideia clara de que o único problema da loucura (no que diz respeito à violência) são os nossos próprios preconceitos. Por isso, a princípio fiquei um pouco assustado com o que descobri: existe, sim, uma relação entre esquizofrenia e crimesainda que ela seja pequena. 

Essa é, com frequência, a manchete de artigos científicos sobre o assunto. No entanto, quando vamos um pouco mais a fundo, vemos que essa associação nãé tão importante. Primeiro, porque o maior problema em transtornos psicóticos graves parece ser a sua associação com a dependência de substâncias (incluindo o álcool) e com a pobreza. Em boa medida, não se trata simplesmente de uma associação entre transtornos psicóticos e violência, mas desses transtornos com pobreza e isolamento social, que por sua vez tornam o encarceramento mais provável. Como é de se esperar, pessoas sem famílias e morando na rua têmaior risco de terminarem presas por infrações que levariam gente como eu, por exemplo, a uma clínica de reabilitação.

Além disso, o que fica evidente, especialmente em um país como o Brasil, é que a violência preocupante não tem muita relação com saúde mental, mas com a realidade social. Os mais de 20 mil assassinatos no país nos primeiros seis meses de 2019 não são explicados olhando-se para a esquizofrenia. Esses números são entendidos quando  reparamos na própria organização dessa sociedade  o poder de facções criminosas, por exemplo.

Assim, se existe alguma relação entre surto psicótico e violência, essa conexãé pequena. Há uma relações muito mais importantes entre má distribuição de renda e criminalidade, por exemplo. Ora, a taxa de pacientes esquizofrênicos no Brasil e na Suécia são próximas  mas as taxas de violência urbana comparando os dois países são completamente diferentes.

O triste é se dar conta de que o problema muito mais frequente é o inverso. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), violência contra pessoas com diagnóstico de esquizofrenia é um fenômeno comum. Além disso, a morte precoce é de duas a trêvezes mais provável nessa população; os esquizofrênicos frequentemente não conseguem procurar por tratamentos médicos

O meu medo na função de estagiário no manicômio judiciário, me fazia acreditar que eu precisava fazer algo para me proteger. Uma pergunta muito mais acertada seria o que precisamos fazer para proteger esses homens e mulheres. De acordo com a mesma OMS, o tratamento do transtorno é eficaz, só é preciso garantir que o atendimento seja encontrado por quem precisa.

Agora, terminando este texto, eu percebo o que tinha de verdadeiramente assustador no manicômio judiciário. Não era, apenas, a loucura  por mais amedrontador que possa ser me deparar com pessoas que funcionam por regras (aparentemente) tão diferentes das minhas. Mais do que a insanidade, o que tinha de temeroso ali era a violência institucionalizada. Era o cheiro constantemente azedo do ar de um lugar que parecia ter acumulado anos de vômitos de remédios em suas paredes. 

O mais assustador era que ninguétinha me falado que o principal trabalho não precisaria ser  feito apenas dentro daqueles muros. Além de preparar o paciente para o mundo do lado de fora, é necessário preparar o mundo para esses pacientes. Começando, talvez, por um assustado aluno de psicologia.

 

PARA SABER MAIS:

 

Teixeira, E. H., Pereira, M. C., Rigacci, R., & Dalgalarrondo, P. (2007). Esquizofrenia, psicopatologia e crime violento: uma revisão das evidências empíricas. J Bras Psiquiatr, 56(2), 127-133.

 

Markowitz, F. E. (2011). Mental illness, crime, and violence: Risk, context, and social control. Aggression and violent behavior, 16(1), 36-44.

 

SITE DA OMS (em inglês): https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/schizophrenia

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Um exercício para “tirar uma foto” da mente tagarela e tentar acalmá-la http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/um-exercicio-para-tirar-uma-foto-da-mente-tagarela-e-tentar-acalma-la/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/um-exercicio-para-tirar-uma-foto-da-mente-tagarela-e-tentar-acalma-la/#respond Thu, 19 Sep 2019 07:00:26 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=747

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A nossa mente está constantemente narrando o mundo à nossa volta. Mal reparamos que fazemos isso, mas o processo de dar nome para as coisas é quase que incessante. Não acredita? Pois eu lhe faço um desafio: na próxima vez em que for pagar algo com cartão, tecle sua senha sem pensar nos números que você está digitando. Viu? Mais difícil do que parecia…

No entanto, mesmo que a gente passe o dia todo ouvindo esse narrador interno, raras vezes paramos para observar de fato o funcionamento dele. Falamos e falamos do poder da mente humana, mas raramente nos debruçamos para ouvir de verdade a nossa própria cabeça. E, quando eu falo em escutar o nosso mundo interno, quero dizer isso mesmo: observar, mas sem entrar no debate que se repete infinitas vezes nas nossas sinapses.

O exercício a seguir ajuda a gente a perceber essa voz interna em plena atuação para conhecê-la melhor. O poder de ver e registrar nossa mente funcionando é muito maior do que simplesmente ouvir falar sobre essas coisas. Por isso, eu lhe chamo para dar uma chance e ir buscar um papel e uma caneta (vá mesmo, que eu espero!)

Pronto, papel e caneta nas mãos, podemos começar.

No topo da página, escreva o tema e a direção na qual você gostaria que a sua cabeça fosse. Por exemplo, “problemas no trabalho” ou “preguiça de estudar”. Escolhida a direção geral, deixe a sua mente fluir e, a cada vez que um pensamento ficar claro o suficiente para você conseguir registrá-lo, escreva-o no papel. Não se preocupe com gramática nem com lógica, simplesmente anote. Faça isso por um minuto (inteiro, cronometrado).

Veja se o meu exemplo, logo abaixo, ajuda a deixar mais claro esse exercício. Decidi pensar sobre a ideia de escrever para o UOL. O que passou então pela minha cabeça:

Não sei o que escrever. Por que você simplesmente não senta e faz o que pensou em fazer? Eu tô cansado. Mas também que desculpa é essa? Porque você tem energia para fazer isso… Enfim, nem sei se vou conseguir fazer direito. Mas você só pode fazer o que você pode fazer. Mas… e se ninguém gostar do que eu tenho para falar? E se o que eu disser não ajudar?

Você provavelmente sentiu o quão repetitivo e circular é esse processo. Um toma-lá-dá-cá imortalizado no desenho animado por um anjinho e um demoninho no ombro do Pica-Pau. Observe agora o seu próprio processo. Quão repetitivo é ele? Quantas horas você talvez tenha passado se entretendo com esses pensamentos que mal ocupam um parágrafo?

Esse é o movimento da cabeça humana quando está ociosa –resolver problemas que não têm lá muita solução.

Ótimo, vamos agora para o segundo round. Olhe para as palavras que você registrou no papel e imagine que é a sua tarefa descobrir se elas descrevem bem a realidade ou não.

De novo, fazer isso é mais difícil do que parece, não é? Repare se essa proposta de racionalidade fez você mergulhar ainda mais nesses pensamentos. Procuramos por argumentos racionais para nos acalmar, mas com frequência o tiro sai pela culatra e só damos mais corda para o nosso debate interno. Sim, muitas vezes esse processo de aprofundamento racional pode ser importante, mas em tantas outras ele é cansativo e infrutífero. Com frequência, ao tentar provar qual lado da discussão está certo, nos afundamos ainda mais na lama da nossa vida mental hipertrofiada.

Terceiro round?

Prometo que é o último. Releia as suas anotações. Agora feche os olhos e imagine que duas crianças de 10 anos estão discutindo usando os seus argumentos. E você é apenas um adulto, observando crianças debatendo. Lembre-se de ficar dois minutos inteiros nessa etapa final do exercício.

Nesse cenário, quão importante parecem esses argumentos? E agora note: quanto eles precisam comandar sua vida?

Muitas vezes, quando conseguimos dar um passo para trás e ver nossos pensamentos de fora –como um adulto observando crianças –, uma paz nos invade. Percebemos que não há nada para ser resolvido em nossa imaginação –é possível voltar a viver a vida. E, quiçá, aproveitá-la.

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