Blog do Dan Josua http://danjosua.blogosfera.uol.com.br Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Thu, 23 Jan 2020 07:00:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Será que é mesmo a nossa mente quem nos impede de alcançar o impossível? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/23/sera-que-e-mesmo-a-nossa-mente-quem-nos-impede-de-alcancar-o-impossivel/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/23/sera-que-e-mesmo-a-nossa-mente-quem-nos-impede-de-alcancar-o-impossivel/#respond Thu, 23 Jan 2020 07:00:47 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=863

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Os especialistas em corrida concordavam: o corpo humano não podia correr uma milha, ou cerca de 1.600 metros, em menos de 4 minutos. Há mais de cem anos, atletas tentavam contradizer o argumento dos céticos e se desafiavam a quebrar essa barreira que, no entanto, permanecia intransponível. Até que, em uma tarde nublada em Oxford, no Reino Unido, no dia 6 de maio de 1954, o corredor inglês Roger Bannister realizou o impossível. Cumpriu esse percurso em 3 minutos e 59 segundos.

Ou seja, depois de mais um século em que a meta dos 4 minutos parecia ludibriar os melhores corredores do mundo, um ser humano mostrava que era possível quebrar essa barreira. E, menos de dois meses depois, o corredor australiano John Landy também quebrava essa marca — de lambuja, ainda abaixava um pouco o tempo de Bannister.

A meta se mostrou impossível durante um século para então, em um mesmo ano, ser superada mais três vezes. Isso sem contar os mais de 1.400 atletas que a ultrapassaram até os dias de hoje — alguns deles adolescentes ainda no colegial.

Seria, portanto, como se a mente humana —a própria noção de que essa marca seria insuperável — estivesse segurando os atletas até Bannister romper a barreira. A partir desse momento singular em que se provava que a meta podia ser batida, os corredores deixaram de acreditar nos limites impostos pelos seus cérebros e passaram, um depois do outro, a superá-la. A lição por trás do feito de Bannister é iluminadora e profunda: podemos muito mais quando deixamos de acreditar nos limites que nossa própria mente nos impõe.

Ou, pelo menos, é isso o que palestrantes de autoajuda e autores de livros para ter sucesso nos negócios repetem em vídeos inspiradores por aí. Eu mesmo me vi animado assistindo a uma dessas palestras no meu celular esses dias. Fiquei agitado porque a ideia é, de fato, sedutora —a única coisa que nos afastaria dos nossos sonhos seria o nosso pessimismo. Quem mexer, de alguma forma mágica, em sua mentalidade derrotista poderá alcançar tudo o que desejar. Acho que todos nós queremos comprar essa linda história de pensamento positivo.

Mas essa não é a lição contida na história de Bannister, quando a gente se dá ao trabalho de investigá-la um pouco mais a fundo. A conversa motivadora sobre o poder da mente humana pode trazer ânimo, mas, como Bruce Dorey aponta em seu livro Lift: The Nature & Craft of Expert Coaching (ainda sem tradução para o português), não faz justiça à história do esporte. Dorey demonstra como os resultados dos corredores da época vinham melhorando em um ritmo mais ou menos constante havia anos, a ponto de a superação da marca parecer algo inevitável. O próprio Bannister, em entrevista concedida 20 anos após sua conquista, afirmou que a marca iria ser quebrada. Sua dúvida era quem a quebraria e quando, mas não se a marca dos 4 minutos seria superada.

Mais ainda, jogar tudo para uma faculdade mental imensurável é injusto com os esforços e o gênio dos atletas que quebraram a marca. Bannister, por exemplo, revolucionou a modalidade da corrida ao deixar que seus colegas ditassem o ritmo de sua passada e ao insistir na importância de estabelecer um ritmo constante, tanto para suas passadas quanto para a sua respiração. Já John Landy, o corredor australiano que superou a marca de Bannister nem dois meses depois de ela ter sido estabelecida, vinha praticando uma recomendação revolucionária proposta por seu novo técnico — os então inovadores treinos intervalados.

Assim, se há um aprendizado fundamental na história de superação desses atletas, ele não está no poder de libertar nossas mentes do impossível. Infelizmente, nada tão simples é possível. A grande superação vem de trabalho, esforço e repetição, associados ao gênio de repensar a maneira de se preparar para uma prova.

A má notícia é que não é o momento de insight assistindo a uma palestra —ou lendo um texto — que vai aproximá-lo dos seus sonhos. Ninguém nunca encontrou um atalho. E quem fica lhe dizendo isso está, sinto avisar, vendendo uma promessa feita de vento. O caminho continua sendo o mesmo de sempre: suor e talento.

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Problemas e dilemas da ética em um mundo complicado demais http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/16/problemas-e-dilemas-da-etica-em-um-mundo-complicado-demais/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/16/problemas-e-dilemas-da-etica-em-um-mundo-complicado-demais/#respond Thu, 16 Jan 2020 07:00:40 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=864

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Você está em um casamento no campo. Está vestido na sua melhor roupa para a ocasião especial quando decide dar uma volta e conhecer o espaço onde vai ser o evento. Um pouco afastado dos outros convidados, você vê uma criança de dois anos se afogando em uma rasa poça de lama. O que você faz? Destrói a sua roupa de mais de mil reais (a mais especial que você tem) ou deixa a criança se afogar?

Não acredito que nenhum leitor simplesmente observaria imóvel a criança morrendo. O custo da roupa é absolutamente irrelevante frente à morte de uma criança. No entanto, muitos dos leitores, eu incluído nesse grupo, têm mais do que o dinheiro suficiente para salvar uma criança. E dormimos bem com isso.

Talvez parte do problema seja o fato do Brasil ser um país de muitas incertezas. Precisamos nos preparar para o pior cenário possível. Pode ser, no final das contas, que sem uma poupança suficiente a gente acabe por se tornar a criança se afogando. Racionalizamos e guardamos o que podemos sabendo que nossa segurança (e das pessoas que amamos) é mais importante do que a vida de qualquer desconhecido.

É claro que esse argumento não justifica o celular trocado anualmente ou o carro novo antes do velho ter se tornado sucata. Mas jogamos essas verdades desconfortáveis para debaixo do tapete –e eu prometo que não vou entrar nessa seara. Gastamos e temos todo o direito de gastar o que ganhamos honestamente da maneira que quisermos. Podemos ter quantos ternos Armani quisermos. E, com frequência, no frigir dos ovos da vida prática, o pequeno ou grande luxo é mais importante do que um desconhecido pedindo comida.

E é bastante interessante que seja assim, que tenhamos nos acostumado a escolher naturalmente, muitas vezes, a roupa no lugar da doação. Especialmente dado como respondemos à primeira questão proposta nesse texto. Quando nos vemos frente a criança se afogando, imediatamente vestimos a carapuça de herói e mandamos a roupa às favas. No dia-a-dia, entretanto, para muitos, o contrário é verdade.

Mas o que mudou de um cenário para o outro?

A saliência da emergência da situação isto é, o quanto a sentimos emocionalmente. Ver uma criança se afogando traz uma urgência que aciona mecanismos intuitivos de nosso comportamento moral. Ora, seres humanos são constituídos em torno de sua capacidade de viver socialmente: a sobrevivência de cada indivíduo da espécie está ligado ao sucesso do coletivo em que ele está inserido. É pouco provável que nossa espécie tivesse sobrevivido à savana sem esse impulso de cuidar dos mais indefesos do grupo. Dependemos, naturalmente, um dos outros. Assim, ver a criança lutando pela própria vida nos empurra instintivamente para a ação. Não paramos para fazer, nesse caso, a conta e estabelecer o valor de uma vida. Nenhuma pessoa em sã consciência (espero) vê uma criança se afogando na lama e se pergunta se essa vida vale mais ou menos do que mil reais.

O conflito com a pobreza no nosso dia-a-dia, pelo outro lado, não é tão simples. Em geral, acabamos lidando com o sofrimento de forma abstrata ou tentamos nos isolar dele. Podemos, por exemplo, receber pedidos de doação e de ajuda vendo fotos ou textos na internet e o pedido fica distante, sem o apelo gutural. Ou, pelo outro lado, nos perdemos na enormidade do problema, especialmente em um país como o nosso, e tentamos nos afastar.  São os momentos em que fechamos o vidro do carro, andamos sem dinheiro na carteira e paramos de olhar nos olhos dos pedintes que cruzam nosso caminho.

O mundo atual se tornou tão complexo que a intuição moral escrita nos nossos genes não serve mais como uma bússola infalível. Em um experimento mental, podemos ver a dificuldade da questão. Para quem não sabe, experimentos mentais são comuns em discussões filosóficas, pois permitem que a gente se aproxime do cerne de algumas questões. Imaginar nossa reação ao menino se afogando no começo do texto é uma espécie de experimento mental.

Mas voltando à dificuldade da questão, imagine a seguinte situação. Você está frente a duas portas em um prédio pegando fogo. Em uma das portas está uma pintura do Picasso (que seria sua) avaliada em centenas de milhões de dólares. Na outra, um bebê de colo. Só há tempo para salvar um dos dois. Qual porta você abre/ quem você decide salvar? Nossa intuição moral, em geral, nos empurra para salvar a criança. E, de fato, é difícil confiar nas intenções e inclinações da pessoa que escolheria o quadro.

No entanto, se olharmos para a questão de uma perspectiva lógica ou utilitária (isto é, olhando qual decisão aumenta a felicidade do maior número de pessoas), o correto talvez seja salvar o quadro. Afinal, com ele poderíamos salvar dezenas de milhares de crianças em situações tão graves quanto a do menino no prédio pegando fogo. É extremamente difícil fazer isso porque não estamos vendo essas crianças sofrendo. Mas a verdade de um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas é que essas crianças existem, ainda que estejam escondidas longe dos nossos olhos. O quadro, nesse cenário, é a ferramenta para salvar o máximo de vidas.

Do ponto de vista de nossa intuição, é difícil engolir a ideia de que pegar o quadro seja a resposta ética. Mas tente imaginar uma pequena modificação no cenário. Você continua frente a duas portas, mas uma delas está trancada. Entre as salas está a mesma pintura do Picasso. Dessa vez, entretanto, atrás da porta trancada estão milhares de crianças. Você pode usar o quadro para arrombar o cadeado dessa porta ou simplesmente salvar o bebê da outra sala. O que você faz? Salva milhares de crianças usando o quadro como instrumento ou vai para o caminho mais direto de salvar apenas uma vida sem usar o quadro?

Quando a situação é descrita desse jeito, parece mais difícil escolher a porta destrancada. O que exige uma questão final: qual a diferença entre usar o quadro para arrombar uma porta e usar o dinheiro da venda do quadro para comprar comida para as milhões de crianças que passam fome todos os dias? Confesso que, retirada a resposta emocional e gutural que nos impede de deixar uma criança sofrendo, fica difícil acusar alguém de pegar o quadro (e usar esse dinheiro para melhorar o mundo).

Se você é como eu, está tentando procurar alguma exceção ao cenário, alguma maneira de não precisar tomar uma decisão. Infelizmente, não há saída milagrosa. O experimento mental serve, justamente, para nos colocar (desconfortavelmente) em uma situação de escolha.

Esse tipo de procedimento serve para tentar trazer a complexidade do mundo em que vivemos para as decisões que ainda estamos tentando resolver de forma intuitiva. Mesmo quando a nossa intuição não parece mais ser adequada para responder a esse mundo que se tornou complexo demais.

É preciso, pois, pensar em uma nova ética para os tempos modernos. Alguma que inclua nossas intuições, mas que não se limite a elas. Depois, feito isso, será trabalho de psicólogos, filósofos e sociólogos descobrir como empurramos as pessoas para agir eticamente para além de suas intuições inatas.

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Conselhos que daríamos para os “eus do passado” podem servir no presente http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/09/conselhos-que-dariamos-para-os-eus-do-passado-podem-servir-no-presente/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/09/conselhos-que-dariamos-para-os-eus-do-passado-podem-servir-no-presente/#respond Thu, 09 Jan 2020 07:00:23 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=858

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Olhar para trás dá clareza ao passado. Uma transparência que, enquanto nós o estávamos vivendo, simplesmente não era possível. No dia a dia, é como se observássemos o mundo passar através da janela de um carro em uma estrada de barro. Milhares de contornos balançando.

Mas, quando olhamos para o passado, tendemos a simplificá-lo e a pintá-lo com uma cor apenas —com frequência, a cor da emoção que estamos sentido no momento em que lembramos dele. Idealizamos os bons e velhos tempos com os olhares rosados da nostalgia ou o demonizamos com um cinza ressentido. Minha adolescência foi terrível ou minha infância foi fantástica —raramente nos lembramos da vida na moderação do meio termo. Escolhemos um pincel e o imprimimos em tudo o que encontramos na memória.

Em outras palavras, nosso cérebro está no exercício constante de aparar as arestas de nossas lembranças. Por isso é que parece tão fácil dar conselhos para o nosso eu do passado. “Você deveria ter se arriscado mais”, “deveria ter se dedicado mais aos estudos” ou até mesmo palavras arrependidas como “você não sabia o quão bonito, inteligente, legal você era” são lugares comuns.

É fácil falar assim pois não precisamos lidar com nenhuma daquelas dificuldades que nos impediriam, na época, de seguir nossos próprios conselhos. Ao pensar que deveríamos ter estudado mais, não somos obrigados a aguentar a dor nas costas ou o tédio de repetir 37 vezes o mesmo exercício de álgebra. Quando nos lamentamos por não termos valorizado a beleza da nossa juventude, esquecemos da dificuldade que é praticar autocompaixão. Olhamos para trás com generosidade sem nos darmos conta de quão difícil é trazer essa mesma bondade para quem somos hoje.

A verdade é que os conselhos que reservamos aos nossos eus do passado raras vezes deixam de ser pertinentes (em alguma medida) na nossa vida presente. Eu, pelo menos, nunca vi alguém generoso consigo mesmo ruminando como gostaria que a sua versão de 17 anos tivesse sido mais generosa consigo mesma. Não, a regra é o oposto disso: o conselho que daríamos para quem fomos costuma ser o mesmo que ainda precisamos escutar.

Só que é difícil. Ora, ao contrário de olhar para o passado, mirar o presente convoca à ação. E justamente por isso é tão complicado. Perdemos aquela segurança do espectador que pode gritar para a televisão a jogada perfeita e caímos no imenso desafio de jogar no Maracanã lotado. Saímos de comentadores para jogadores —e isso é desconfortável.

Se quisermos melhorar nosso coração, entretanto, é fundamental suar a camisa. Se quisermos que esse ano seja diferente de todos os anos nos quais vimos nossas promessas de réveillon se apagarem, será preciso arriscar algo diferente. E seguir o conselho que temos facilidade de nos dar examinando o que fomos talvez seja o primeiro passo.

Por isso, com frequência, peço que meus pacientes escrevam uma carta para o adolescente ou a criança que foram. É impressionante como é fácil ter compaixão por esse serzinho apagado no tempo. Depois de escrita, peço que eles releiam a carta se perguntando o que daquilo que estão dizendo para esse “eu” do passado ainda precisam escutar. Por fim, a pergunta simples e capciosa: qual é o primeiro passo, na prática, para garantir que esse conselho será levado a sério.

A melhor terapia, muitas vezes, nada mais é do difícil processo de dar esse passo.

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Com quem você gostaria de passar o ano que começou? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/com-quem-voce-gostaria-de-passar-o-ano-que-vai-comecar/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/com-quem-voce-gostaria-de-passar-o-ano-que-vai-comecar/#respond Thu, 02 Jan 2020 07:01:29 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=852

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Se você pudesse escolher, com quem você ficaria uma hora conversando? Para a maior parte dos jovens, a resposta costuma ser elaborada: gente famosa e grandes ídolos, o cara ou a menina popular do colégio que é praticamente inacessível. No entanto, pessoas mais velhas, especialmente os superidosos (aqueles com mais de 80 anos), tipicamente respondem a essa pergunta de forma bastante diferente. Quem passou mais viradas de anos na Terra costuma declarar de maneira direta: prefere ficar com familiares e amigos muito próximos.

Ao perceber essa diferença no modo de responder à mesma pergunta, psicólogos e sociólogos inicialmente pensaram que a distinção se devia à experiência que os mais velhos adquiriram. Passar tantos anos por aqui faz com que sejamos mais sensíveis ao que de fato é importante na vida: aqueles que amamos.

Alguns cientistas, no entanto, não se sentiram confiantes com essa explicação e continuaram com as investigações. Fizeram a mesma pergunta para jovens com doenças terminais e compararam suas respostas com a de idosos e a de jovens saudáveis. Em outra pesquisa, pediram aos mais novos que imaginassem que estavam enfrentando alguma enfermidade fatal e aos mais velhos que pensassem em uma pílula mágica capaz de curá-los de todas as suas dores e moléstias.

Com essas interferências, um padrão se tornou claro. Jovens com doenças terminais, assim como quem simplesmente foi convidado a imaginar a sua própria morte, davam mais valor para as pessoas próximas, decidindo que gostariam de ficar a hora seguinte com seus amigos íntimos e familiares. No entanto, sentindo-se magicamente curados, aqueles sujeitos mais velhos e mais experientes começaram a valorizar pessoas mais distantes.

A resposta àquela pergunta sobre quem você escolheria para conversar, no final das contas, não tem relação alguma com a experiência que adquirimos vivendo, mas com uma intuição que ganhamos quando nos deparamos com a nossa morte. Viver não nos aproxima das pessoas à nossa volta. Deparar-se com a morte faz isso.

Qual aprendizado deveríamos tirar dessa conclusão? Será que deveríamos viver pensando na morte? Ou inverter a intuição inicial e acreditar que não são os idosos e os enfermos que sabem responder melhor a essa questão, mas o resto de nós? Ou, simplesmente, devemos aceitar a nossa condição atual e valorizar apenas aquilo a que o nosso contexto presente empresta prestígio?

Não acho que alguém sabe de fato como responder esses questionamentos. Não acredito em gurus que vendem respostas prontas a todos os seres humanos como se pertencêssemos à mesma caixinha. Posso dizer que a ciência conhece a importância de amigos próximos para a nossa saúde física e emocional, mas não posso afirmar com segurança o que isso deveria significar na sua vida.

Portanto, para este início de ano, talvez o mais importante seja retomar a pergunta e decidir, conscientemente, em qual contexto gostaríamos de respondê-la. Em outras palavras, pergunte-se: com quem gostaria de passar o ano que vai começar? Então, se dê alguns momentos para de fato imaginar os rostos a sua volta e notar as emoções que eles trazem.

Enquanto imagina, lembre-se de colocar em evidência o lugar de onde você quer responder a essa questão, isto é, como alguém que vai viver para sempre (como os jovens acreditam) ou como alguém que está destinado a morrer (como os idosos sabem). Ver em qual lado dessa dicotomia você se encaixa pode ser o passo inicial para saber de fato o que é importante para você.

Eu garanto que o exercício me traz algumas obviedades à mente. Posso passar menos tempo neurótico com os 2 quilos que engordei em 2019, por exemplo. Com certeza, posso passar menos tempo planejando um futuro idealizado e mais tempo agradecendo uma coisa simples: esse ano que passou. E pulam ondas comigo pessoas que quero ao meu lado no dia em que irei morrer.

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O que a ciência diz sobre o Natal e como ele age no nosso comportamento? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/o-que-a-ciencia-diz-sobre-o-que-o-natal-faz-com-o-nosso-comportamento/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/o-que-a-ciencia-diz-sobre-o-que-o-natal-faz-com-o-nosso-comportamento/#respond Thu, 26 Dec 2019 07:00:34 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=843

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Se você é como eu, deve ficar com um misto de tédio e empolgação no supermercado e no shopping quando o final de novembro se aproxima. Nas prateleiras, por um lado, chocotones e panetones. Por outro, as canções natalinas de sempre tocando sem parar. Toda vez que vou para uma dessas lojas, eu me pergunto: por que repetir essas músicas tantas vezes?
O curioso é que, segundo um estudo realizado há quase 17 anos,  liderado por Eric Spagenberg, da Paul Merage School of Business da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, a música de Natal — especialmente se associada ao que seriam os cheiros de Natal —  é capaz de aumentar a avaliação positiva das lojas. Sim, ficamos mais generosos em nossas críticas a um estabelecimento comercial se Jingle Bells estiver tocando ao fundo.
Além disso, como  um trabalho de 2008 assinado por outros cientistas mostrou, ficamos mais satisfeitos quando usamos o nosso dinheiro comprando presentes para os outros do que  quando gastamos com nós mesmos ou quando pagamos boletos atrasados. Sendo assim, a tradição natalina de dar presentes — mais do que a de receber —  parece  proporcionar um impulso considerável de felicidade em quem celebra essa festividade.
É interessante pensar que, no final das contas, nossa felicidade parece estar mais em nossa natureza altruísta do que na egoísta. Mas talvez ainda mais notável seja o fato de que  pessoas acostumadas a festejar o Natal,  ao terem o seu cérebro examinado, apresentam respostas aumentadas em regiões ligadas à empatia e à espiritualidade quando enxergam imagens relacionadas a essa data. Ou, pelo menos, foi isso que o neurocientista Anders Hougaard e seu time da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca, demostraram.
Até mesmo a saúde mental da população parece melhorar no Natal. Segundo uma revisão publicada em 2011, o número de autolesões e tentativas de suicídios diminuem nos dias que precedem a comemoração da data do nascimento de Cristo. O efeito, no entanto, é curto e, infelizmente, seguido por um aumento nessas estatísticas nas semanas que seguem o feriado. Talvez porque a promessa de amor e de compaixão não se cumpra depois da festa. Ou, talvez, após reencontrar familiares e amigos na ceia, a solidão dos dias posteriores fique ainda mais esmagadora.
É difícil saber ao certo a razão desse aumento de tentativas de se matar quando o Natal passa, mas outros dados tristes são mais facilmente entendidos, como é o caso de aumento de fatalidades relacionadas ao consumo abusivo de álcool. Ou mesmo ao aumento de peso provocado pelas festas de final de ano. Entre peru, vinho, chester, cerveja e cidra fica razoavelmente fácil compreender este último fenômeno.
Em resumo, como qualquer momento culturalmente marcante, o Natal mexe com nossas cabeças. Algumas mudanças ocorrem à nossa revelia – como a música e o cheiro aumentando nossa propensão a comprar. Outras, porém, podemos escolher. Podemos escolher nos aproximar de quem amamos. Podemos escolher comemorar amor e nascimentos, na forma que for. Feliz Natal! (ou Channuká, para meus amigos judeus).
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Como fazer para as pessoas gostarem de mim? Segredo está em saber escutar http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/como-fazer-para-as-pessoas-gostarem-de-mim-segredo-esta-em-saber-escutar/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/como-fazer-para-as-pessoas-gostarem-de-mim-segredo-esta-em-saber-escutar/#respond Thu, 19 Dec 2019 07:00:49 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=838

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Todo ano o Google apresenta os principais trends, ou tendências, de buscas no país e no mundo. Assim, é possível saber quais os temas geraram mais dúvidas nas cabeças (ou pelo menos nos teclados) dos brasileiros em 2019. No meio de uma série de perguntas esperadas sobre a Copa América ou sobre por que não comer carne na Sexta-Feira Santa, uma delas chamou a minha atenção: na categoria “como”, a terceira indagação mais feita ao longo de 2019 foi “como fazer para as pessoas gostarem de mim”.

Sentir-se isolado parece ser um tema corrente nos últimos anos. Tanto que o Reino Unido criou um ministério só para cuidar da solidão. Já uma pesquisa com 2 mil americanos deixa claro que 40% dos adultos nos Estados Unidos sentem que não conseguem fazer novos amigos —e a resposta mais comum para “quantos confidentes próximos você tem” foi apenas um. Nesse contexto, talvez o levantamento do Google esteja mostrando que os brasileiros passam por um dilema comum ao mundo ocidental: não sabemos mais como nos aproximar uns dos outros.

O bode expiatório para esse problema costuma ser as redes sociais, mas eu sinceramente já estou cansado de culpá-las por tudo. Talvez, mais do que ser a causa da doença, as redes sociais sejam o remédio errado em que acabamos nos viciando. Sendo assim, o importante é encontrar a medicação correta que, obviamente, está na interação pessoal.

A questão é que interagir pessoalmente é um tanto mais difícil do que uma lista de receitas pode fazer parecer. Quando dou aula sobre treino de habilidades sociais, uso um quadrinho que ilustra bem essa dificuldade. Na parte de cima estão as dicas típicas: sorria, faça contato visual, demonstre abertura física, mostre um pequeno defeito etc. O personagem desenhado, no entanto, faz versões desajeitadas dessas mesmas dicas, ou seja, dá aquele sorriso amarelo e tenso de alguém que não está se sentindo à vontade; encara em vez de olhar, invadindo o espaço da outra pessoa e assim por diante.

Essa figura aponta, o primeiro grande obstáculo das interações sociais: não basta acertar em O QUE fazer, é preciso maestria no COMO. O segundo dificultador é que se faz necessário um ambiente generoso para testar nossas habilidades sociais. É fundamental encontrar refúgios seguros onde nossas emoções não façam com que enfiemos os pés pelas mãos.

Dito tudo isso, há um início de receita —o ponto comum comparando todos os manuais de habilidades sociais com que já me deparei. E é o seguinte: aprenda a escutar. Frequentemente, nos perdemos porque ficamos tão preocupados com o que a outra pessoa está pensando daquilo sobre o que acabamos de falar que esquecemos de levar em conta o que nos foi dito. A verdade é que as pessoas costumam ter mais interesse em suas próprias vidas e gostos do que em qualquer outra coisa. Por isso, é possível que essa seja uma parte importante do combustível que faz tantos consultórios de psicólogos lotados. Bons terapeutas são, acima de tudo, excelentes ouvintes.

O que nem todo mundo percebe, porém, é que escutar pode ser extremamente complicado. Não basta olhar para o vazio e repetir um “aham” de vez em quando. Para escutar de verdade, é preciso saber repetir o que a outra pessoa disse, fazer perguntas relevantes e validar o ponto de vista alheio. Conselhos e sugestões até podem surgir, mas com a mesma parcimônia com que temperamos uma comida com pimenta malagueta — ora, ela pode melhorar o prato, mas basta um pouco a mais e a receita vai por água abaixo.

É óbvio que ouvir é apenas o primeiro passo. Que precisa ser seguido em conversas muito mais horizontais, nas quais ambas as partes sejam contempladas na mesma medida. Ainda assim, acredito profundamente, esse é um ótimo primeiro passo. Deixa o caminho a seguir muito mais fácil.

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O que de fato enxergamos no final de ano e como melhorar esse olhar http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/o-que-de-fato-enxergamos-no-final-de-ano-e-como-melhorar-esse-olhar/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/o-que-de-fato-enxergamos-no-final-de-ano-e-como-melhorar-esse-olhar/#respond Thu, 12 Dec 2019 07:00:18 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=832

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Nenhum animal vê o mundo como ele de fato é. Temos acesso apenas à realidade conforme ela é filtrada pelos nossos sentidos e recortada pela nossa aprendizagem. Um camarão mantis, por exemplo —espécie marinha que desfere um dos socos mais potentes da natureza —  enxerga a partir de 16 tipos de células receptoras de luz,  enquanto o ser humano teria até quatro tipos apenas. Isso quer dizer que o arco-íris para o pequeno crustáceo é literalmente até quatro vezes mais “colorido” do que o mesmo arco-íris observado por uma pessoa.

Mas o aprendizado também seleciona o que um bicho pode perceber do seu ambiente. Desse modo, o meu cachorro responde prontamente ao seu nome (vem abanando o rabo, achando que vai ganhar um petisco), mas não reage a nenhum outro substantivo próprio. O som que faço ao pronunciar “Orelha” (seu nome) é de grande importância para ele, mas todos os outros barulhos semelhantes (“boca”) mal são registrados. Em outras palavras, podemos dizer que a experiência de vida dele seleciona e dá um valor especial para ao som de “Orelha” —que se torna muito mais importante do que qualquer outro.

Seres humanos, quando a gente para pra pensar, são cachorros e camarões extremamente complicados. Isso porque, diferentes dos outros animais, aprendemos a falar e (depois) a pensar. E o pensamento age como um filtro ainda mais poderoso para selecionar o que enxergamos do mundo.

Há anos, psicólogos vêm catalogando e descrevendo algumas das maneiras tradicionais como certos padrões de pensamento distorcem a realidade. Em outro post desse blog, eu listei uma parte dessas distorções cognitivas.  E agora, com o final de ano, vejo que uma delas começa a aparecer com a força toda.

Falo da nossa tendência a descartar o positivo e a contabilizar apenas as partes negativas de nossa experiência. É possível, por exemplo, recebermos quarenta e dois elogios sobre o nosso trabalho, mas ficarmos focados exclusivamente nas duas críticas.

Para quem está olhando para os últimos 365 dias com essa tendência, apenas uma conclusão é possível na retrospectiva do ano: 2019 foi um terror. E talvez tenha sido mesmo. Deus sabe que as coisas no país não estão simples. Mas, mesmo no contexto do terror, é provável que algo de bom tenha acontecido.

Por isso, meu convite para quem não vai resistir à tentação de olhar para trás é, em primeiro lugar, fazer isso por escrito. Sim, por escrito. E, a cada pequeno fracasso que anotar, no registro de cada pequena derrota, se perguntar: o que eu posso estar deixando de fora? O que, de semelhante, pode ser visto como uma pequena vitória? Quantos elogios eu estou de fato deixando de contabilizar?

Veja, a ideia não é tentar emular uma Poliana, personagem da literatura que vivia fazendo o jogo do contente. Não, o pedido é para o equilíbrio. Que a gente possa reconhecer, quando for o caso, a seleção pessimista de nossa mente. E a balancear com o outro lado da moeda. Que a gente possa ver o ano que termina pelo que ele é: suas dores e suas delícias.

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Os julgamentos e pressões que uma mãe (muitas vezes) precisa suportar http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/os-julgamentos-e-pressoes-que-uma-mae-muitas-vezes-precisa-suportar/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/12/05/os-julgamentos-e-pressoes-que-uma-mae-muitas-vezes-precisa-suportar/#respond Thu, 05 Dec 2019 07:00:28 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=827

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Eu sou pai. O que quer dizer que eu não sou mãe. O que quer dizer que estou de fora da maior trincheira de julgamentos que a modernidade parece ter produzido. Meu Deus, como os dedos inquisitórios rapidamente se dirigem às mães!

Não pode amamentar? É acusada de não ter dado amor.

Reclamou de cansaço? Ué, você não sabe que mães devem se sacrificar?

O filho não come direito? Culpa da mãe.

A criança fez uma birra na escola, mordeu o amiguinho ou acordou de madrugada? Você adivinhou, só pode ser porque a mãe fez algo de errado.

Não preciso nem comentar que o pai ganha um passe-livre disso tudo… O bom pai, algumas vezes, é retratado como aquele que “ajuda”. Eu, pessoalmente, fico ofendido com esse tipo de elogio –eu não ajudo em casa, eu divido a responsabilidade da criação com a minha esposa. Mas, enfim, o lugar da paternidade é assunto para outro texto. Por enquanto, basta constatar o óbvio: ainda recai sobre a mãe o grosso da responsabilidade pela criação dos filhos.

E, se cuidar de um bebê ou de uma criança – ainda mais nesse mundo de tantas outras tarefas acumuladas –, é algo difícil, fazer isso sendo o alvo de críticas e sugestões infinitas torna o processo dez vezes mais penoso. Especialmente nesse universo da maternidade, onde tantas dicas oferecidas por aí são marcadas por pseudociência ou, simplesmente, por falta de noção da realidade.

Expressões científicas são retiradas de seu contexto para pintar um cenário apavorador. Li, em uma mensagem para mães que minha esposa me mostrou, uma pessoa alertando para os efeitos devastadores do cortisol no cérebro do bebê. Segundo a alarmante postagem no Instagram, mães não deveriam deixar os filhos chorarem à noite porque o cortisol estragaria o cérebro deles. Mas eu te digo que, segundo uma revisão de pesquisadores sobre o tema os principais estudos que demonstraram os tais efeitos devastadores de hormônios ligados ao estresse acompanharam crianças em orfanatos muito pouco cuidadosos.

Ou seja, a notícia verdadeira se refere a situações de negligência importante e não a mães amorosas que deixam seus filhos chorando por alguns minutos à noite –mas que, de resto, estão atentas às necessidades emocionais deles. Assim, a pseudociência pega uma ideia real excesso de cortisol pode atrapalhar o desenvolvimento da criança – e a retira completamente de seu contexto para julgar mães. Criando um cenário de urgência em que elas precisam estar sempre vigilantes, porque a qualquer momento podem estar deixando o crânio de seus filhos ser invadido por hormônios malvados.

A pesquisa chega a uma conclusão muito mais simples: não basta não ser negligente com o filho, dê afeto e contato físico. Esteja atento às necessidades emocionais dele e responda de acordo. Não há uma conclusão exigindo que a mãe seja a nova Mulher Maravilha. Em outras palavras, a ciência pinta um cenário muito mais ordinário do que aquele publicado em postagens alarmistas de mídias sociais.

Outras vezes, mesmo que munidos de boas bases teóricas, livros, manuais e internet falham porque não levam em consideração a realidade concreta das mães. Prescrevem estratégias como se estivessem falando com robôs que podem seguir instruções à risca. Infelizmente (ou felizmente), mães ainda são humanas e estão sujeitas a emoções e ao cansaço.

O manual pode recomendar, por exemplo, cuidado para não recompensar birras noturnas com excesso de atenção. A dica faz todo o sentido, mas não leva em conta que a mãe pode estar privada de sono. Que ela trabalhou o dia inteiro e que precisará acordar na manhã seguinte às 6 para iniciar mais uma jornada de oito horas na firma (e mais tantas horas de serviço em casa). Ceder à manha, nesse caso, não é tanto ceder ao bebê quanto ao próprio cansaço. Aonde quero chegar: muitas vezes mesmo os bons conselhos falham porque a situação cria a impossibilidade e não porque falta força ou disposição para o cuidador.

Como nota final é interessante lembrar do ótimo livro “Diga-me com quem andas…”, da americana Judith Rich Harris. A autora afirma que os efeitos dos pais nos filhos ainda não foram bem demonstrados pela psicologia e são amplamente exagerados pela mídia e especialistas do assunto. Podemos não comprar completamente a proposta de Harris –confesso que eu mesmo tenho dificuldade em admitir que talvez eu seja uma influência menor na minha filha do que imagino –, mas é importante ouvi-la. Afinal, a mensagem inequívoca desse livro merece reflexão: quando o assunto é ciência e criação dos filhos, a situação raramente é tão preto no branco quanto querem os dedos acusatórios dos influenciadores nas mídias sociais.

No final das contas, no meio de tantas regras e julgamentos sobre o que é certo e o que é errado, perdemos algo óbvio: um bom cuidado para com um bebê depende de uma mãe flexível para responder com carinho aos pedidos de seu filho. Veja, diversos estudos apontam que rigidez e inflexibilidade psicológica são as principais causas de sofrimento emocional –de modo que é difícil imaginar como exigir isso de uma mãe possa ser uma boa ideia. Talvez, uma dica muito mais útil seja convidar as mães a exercitar autocompaixão, a identificar e respeitar seus limites e a exercer gentileza consigo mesma. Afinal, saúde para uma criança começa com saúde para a sua mãe.

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Festas de fim de ano: às vezes, o melhor caminho é fugir da família http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/28/festas-de-fim-de-ano-as-vezes-o-melhor-caminho-e-fugir-da-familia/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/28/festas-de-fim-de-ano-as-vezes-o-melhor-caminho-e-fugir-da-familia/#respond Thu, 28 Nov 2019 07:00:00 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=822

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Fim de ano está chegando. Tempo de infinitas reuniões com pessoas que você mal conhece. Aquele tio do seu primo que parece ser incapaz de não soltar um comentário machista no meio da ceia de Natal. A namorada do seu irmão que sempre entra em discussões políticas com o lado conservador da família. Etecétera, etecétera…

A reunião de fim de ano pode ser nostálgica, cômica, maravilhosa. Pode ser, também, o momento em que você vê velhos padrões se repetindo. De repente, perto dos pais que moram em outra cidade, você se enxerga de novo no cansativo papel em que se colocava na adolescência. Talvez você até seja um(a) profissional qualificado(a), mas ali, no seio familiar, se percebe insistindo em padrões estranhamente infantis. No final das contas, o que somos depende mais do contexto em que estamos do que gostamos de admitir.

Mesmo assim, para a maioria das pessoas, é muito bom voltar para o ambiente da infância no final do ano. Para outras, entretanto, geralmente aquelas com vidas familiares marcadas por (pequenos ou grandes) traumas, o fim de ano é mais delicado do que isso. Os velhos padrões não são apenas desagradáveis: são tóxicos.

Por isso é importante lembrar que algumas falas populares nem sempre são verdadeiras. Por exemplo: vivemos ouvindo que precisamos amar nossos pais, mas às vezes eles foram as pessoas que mais nos causaram dano. E, se esse for o caso, está tudo bem se você simplesmente não tiver sentimentos de comercial de margarina em relação a eles. Por mais que você tenha sido gerado por essas pessoas, se o seu contato com elas é marcado por críticas, negligência afetiva ou até mesmo abusos físicos, é esperado que você não se sinta feliz perto delas.  

E, se esse for o caso, se existiu violência onde deveria ter existido cuidado e amor, tudo bem se neste Natal você decidir que vai cuidar de você. Veja bem, não estou recomendando que você não se aproxime de quem é importante ou que abandone a sua família. Claro que não. Estou dizendo que, às vezes, se você sabe que já tentou o que podia, tudo bem se você decidir fugir. 

Tudo bem se você decidir fugir para encontrar um porto que te acolha —ainda que esse cais nem sempre tenha a cara óbvia de cartão postal natalino. Família, no final das contas, é o lugar onde nos sentimos em casa —independentemente de os laços serem sanguíneos ou fraternos.

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No amor, a resposta costuma ser mais simples do que a gente gostaria http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/no-amor-a-resposta-costuma-ser-mais-simples-do-que-a-gente-gostaria/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/no-amor-a-resposta-costuma-ser-mais-simples-do-que-a-gente-gostaria/#respond Thu, 21 Nov 2019 07:00:03 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=815

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Faz muito tempo que estou casado, então confesso que falarei isso como alguém que está vendo de fora, mas… De verdade, às vezes parece que muitos solteiros (e solteiras) estão jogando um elaborado jogo de detetive. Quase como se a vida fora de um relacionamento fosse um livro da Agatha Christie no qual é necessário atentar a cada um dos detalhes para se chegar a qualquer resposta.

Não importa se vem de homens ou mulheres, hétero ou homossexuais, com frequência escuto algo assim:

“Sim, sim, é verdade, ele disse que não quer nada sério… Maaaas… (!), então por que está curtindo 37% das minhas fotos no Instagram? Todas as vezes que ele sai a sério com alguém, ele coloca um coraçãozinho nos comentários dos seus posts. E ele fez isso comigo em três das minhas últimas doze postagens… Com explicar isso?”. A resposta encontrada pelo detetive amador lhe parece óbvia: essa pessoa só pode estar atrás de algo sério.

Observando esse jogo dos solteiros, eu só tenho vontade de dizer várias vezes: navalha de Occam, navalha de Occam, navalha de Occam! Imagino os olhares confusos na minha direção. Muito por alto, o princípio da navalha de Occam, importante na Filosofia, diz o seguinte: se duas hipóteses explicam igualmente um fenômeno, devemos sempre adotar a mais simples. Portanto, aqui também, a tal navalha de Occam é apenas um lembrete para procurarmos pela resposta mais simples. Nessa caso: talvez a pessoa que diz que não quer nada sério, simplesmente não quer nada sério.

Sim, a pessoa incrível, que é super carinhosa com você quando está ao seu lado, talvez esteja falando a verdade quando afirma não querer nada sério contigo. Apesar do coração no Instagram e dos milhares de gestos gentis. Muitas vezes, simplesmente, o outro lado não está a fim –e acreditar em suas palavras pode lhe poupar muito sofrimento.

“Mas por que os milhares de gestos carinhosos, se a pessoa não quer nada?”, você talvez gostaria de me perguntar. É claro que existem tantas respostas para essa pergunta quanto pessoas no mundo, mas, em linhas gerais, é importante entender que o nosso comportamento não é motivado apenas pela nossa consciência. Pode ser que, mesmo não querendo nada a sério, a única maneira que esse ser conhece para  aproximar de um par seja romântica. E, nesse cenário, acaba sendo romântico a despeito de suas intenções verdadeiras (e não por conta delas). Pode ser que, mesmo sem saber, faça esses pequenos gestos porque se sentir amado e desejado é importante pra caramba –ainda que  não esteja disposto a amar de volta.

É claro que todo mundo já ouviu esse conselho, esse chamado para a simplificação. Também é óbvio que a maior parte de nós acaba ignorando essa dica. Afinal, a mente de quem está apaixonado tem asas próprias e adora contar histórias. De preferência, histórias que se encaixem com os sentimentos. A mente detetive ganha asas e procura, nos pequenos detalhes, as provas de que essa história vai terminar em romance –e não ajuda muito as milhares de comédias românticas nos ensinando que o verdadeiro amor só vem depois de muita confusão.

A mente apaixonada conta histórias elaboradas que deixariam qualquer escritor ruborizado com um objetivo simples: fugir da dor. Escapar da difícil realização de que o outro lado não quer nada mesmo, que ele (ou ela) simplesmente não está interessado(a). Que será preciso transformar o luto de uma paixão que nunca chegou a se desenvolver em algo maior. Que, por enquanto, será preciso esperar até que a pessoa certa chegue –sozinho, até lá.

Ao mesmo tempo, ainda que triste, costuma haver uma grande paz na aceitação verdadeira. Se esse rolo que não vai a lugar algum puder acabar, talvez seja possível algo novo nascer.

PS: é claro que é possível que a a mente apaixonada tenha razão. É possível que as teorias elaboradas sejam, de fato, verdadeiras. A pergunta talvez não devesse ser sobre possibilidades, mas sobre probabilidades. Onde vale a pena investir a nossa energia e o nosso tempo?

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