Blog do Dan Josua http://danjosua.blogosfera.uol.com.br Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Thu, 04 Jun 2020 07:00:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ansiedade pós-pandemia: as pessoas que não vão querer mais sair de casa http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/06/04/ansiedade-pos-pandemia-as-pessoas-que-nao-vao-querer-mais-sair-de-casa/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/06/04/ansiedade-pos-pandemia-as-pessoas-que-nao-vao-querer-mais-sair-de-casa/#respond Thu, 04 Jun 2020 07:00:33 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=984

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Muita gente está ansiosa para o fim da quarentena. Mal pode esperar que esses dias de confinamento finalmente acabem. Querem abraços, bares abertos e uma vida que se pareça com a de 2019.

Já outros, mesmo que saudosos dessas mesmas coisas, estão morrendo de medo do momento em que deverão voltar para as ruas.

Não é difícil de entender o porquê. Ficaram mais de dois meses trancados em casa ouvindo relatos do fim do mundo. O vizinho, o padeiro e a caixa do supermercado quase deixaram de ser vistos como seres humanos para serem encarados como possíveis vetores de transmissão.

Isoladas, higienizando as compras antes de guardar tudo na despensa, essas pessoas construíram uma muralha para garantir sua segurança em meio a pandemia. E, depois, ouvir autoridades mascaradas talvez não seja o suficiente para convencê-las a destruir esse muro assim de uma hora para outra. Nessa lógica, parece sensato manter as portas fechadas e se proteger de todo o mal que venha de fora. Afinal, nada mais humano do que querer se resguardar da doença e da morte

No entanto, eu não acredito que seja apenas o medo da finitude da vida que alimente a vontade de alguém se manter em quarentena. A incerteza sobre o mundo que se formará após a covid-19 ir embora é um motor importante para essa ansiedade.

Ninguém sabe qual realidade nos espera do lado de lá da quarentena. Como será o tal do novo normal? Como funcionarão as escolas, as baladas,os escritórios?  Só de imaginar essas perguntas, indivíduos ansiosos começam a sentir um frio na barriga. Ter que dar adeus à vida que conheciam — e aceitar que isso talvez não seja só uma fase breve e passageira — é algo doído. E, de forma paradoxal, retomar a convivência em uma sociedade transformada depois da quarentena exige que a gente abandone de vez a esperança de um retorno rápido à vida normal. Esse abandono é temido.

Ainda que pareçam medos bastante distintos —o de morrer doente e o de encarar o mundo transformado —, uma mesma raiz nutre ambos. Ela seria a intolerância às incertezas.

A dificuldade para lidar com o “é possível” costuma estar por trás das mais variadas formas de ansiedade — daquela gerada pelo avião que “pode” cair (ainda que o acidente aéreo seja muito improvável) até aquela que emerge só de lembrar que o chefe que “pode” lhe demitir (muitas vezes, uma probabilidade igualmente distante). E, no fundo, nada disso é tão diferente dessa ansiedade que surge no cenário atual, a da volta às ruas.

Se ainda nutríamos esperança de que poderíamos prever e controlar nosso futuro —como deseja boa parte dos ansiosos —  a pandemia é um lembrete constante da futilidade desses anseios. Mais do que nunca está óbvio: as coisas podem dar profundamente errado. Podem —e esse é o verbo, como disse, que cria o mal-estar na ansiedade.

A solução pouco convencional é justamente aceitar isso. Nossa cabeça faz planos e gosta de ordem e previsibilidade. Essa não é nossa realidade, mas não podemos impedir que  ela queira nos proteger. Por isso, deixe que ela brinque de transformar a realidade em fantasias. A liberdade começa quando paramos de tentar controlar o incontrolável (nossa mente, a pandemia…), para ir em direção ao que é importante, nossos valores. Sejam eles o trabalho que nos sustenta (no momento certo) ou trancar a porta de casa e se isolar (em outro momento certo).

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Entenda o que é luto ambíguo e por que precisaremos lidar com ele agora http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/28/entenda-o-que-e-luto-ambiguo-e-por-que-precisaremos-lidar-com-ele-na-pandem/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/28/entenda-o-que-e-luto-ambiguo-e-por-que-precisaremos-lidar-com-ele-na-pandem/#respond Thu, 28 May 2020 07:00:42 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=977

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André fechou a porta do quarto para isolar sua mãe e proteger o resto da família. As conversas através da porta fechada traziam uma sensação surreal. Mesmo sabendo que era a mãe do lado de lá, parecia que ela não estava ali. Faltava a presença concreta.

Uma semana depois ela precisou ir para o hospital. Os médicos atualizavam a família sobre o avanço do quadro por mensagens de texto. Ninguém podia visitar a ala reservada aos pacientes com covid-19, mas André tentava se acalmar pensando que em breve tudo voltaria ao normal.

Sua mãe faleceu e foi enterrada em um caixão fechado. O velório tradicional não pôde acontecer. André se viu perdido, entre irritado e triste. Um lado seu sabia que a mãe tinha morrido, mas a falta dos rituais de despedida deixaram um buraco em sua capacidade de entender completamente a situação.

André, como tantos outros que perderam entes queridos nessa pandemia, precisarão processar uma perda ainda mais difícil do que a morte já costuma ser. Esse luto considerado ambíguo, segundo Pauline Boss, grande estudiosa do tema, está mais associado à melancolia e à ansiedade persistentes. Para quem não sabe, a professora da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, é considerada uma pioneira da terapia familiar. Ela define que o luto pode se tornar ambíguo quando algo da realidade da perda não pode ser devidamente processado.

É quando concretamente existe a ausência do corpo de uma pessoa da nossa convivência, mas a sua realidade psicológica se mantém presente. Acontece, por exemplo, com mulheres cujos corpos de maridos desapareceram na guerra e que, na hora de manter os filhos na linha, ainda dizem coisas como “quando o seu pai estiver aqui”. Aliás, foi a partir de entrevistas com viúvas de corpos perdidos na Guerra do Vietnã que o fenômeno do luto ambíguo começou a ser estudado.

Existe o luto ambíguo também no sentido inverso, quando a realidade física está presente, embora a psicológica ou subjetiva já tenha desaparecido. É o caso, de quem convive com um familiar com Alzheimer —o corpo está ali, bem na nossa frente, mas é como se estivesse esvaziado da pessoa.

Ao quebrar os ritos que temos para lidar com a morte, é muito provável que a covid-19 vá deixar milhões de enlutados nessa situação, precisando lidar com uma perda ambígua e, por isso mesmo, mais devastadora. Um fim sem despedida torna difícil de o fechar de um ciclo. Muitos dos Andrés que se espalham pelo planeta vão ter dificuldade de acreditar no que sabem ser verdade —a pessoa que eles amavam não voltará.

Nossa cultura não está preparada para lidar com isso, já que a única reação que aprendemos a ter em relação à mortalidade é tentar evitá-la ao máximo. Pauline Boss afirma que nas culturas em que a morte é aceita como consequência natural da vida —ainda que postergada, quando possível — as pessoas tendem a lidar até mesmo com esse luto ambíguo de forma muito mais saudável.

Entre o índios norte-americanos Anishinaabe, por exemplo, às vezes se faz uma cerimônia equivalente ao funeral de um familiar com Alzheimer avançado. Depois dele, os cuidados, as medicações e o carinho continuam fazendo parte da rotina familiar, mas com o ritual é criado um espaço para se admitir a dura realidade: a mãe ou o pai ou o cônjuge que essa pessoa um dia foi não existe mais.

Talvez essa seja uma atenção importante nos meses e nos anos que ainda virão, por causa das mortes que se acumulam, como sabemos pelas manchetes dos jornais. Precisamos colocar os rostos de volta nessas estatísticas. E, acima de tudo, preparar os enlutados para o que devem enfrentar.

A morte é consequência necessária da vida. Aceitar essa realidade já nos coloca um pouco mais em paz com o nosso fim e com o fim de quem amamos. Essa noção da finitude pode nos empurrar, inclusive, para a vida que gostaríamos de viver.

Há muitos os filósofos dizem que aprender a morrer é a função da filosofia; está mais do que na hora de pegarmos o recado dos mestres do passado. E dar ainda outro passo: não apenas é preciso aprender a morrer, mas também a deixar morrer. Transformar a pessoa querida em memória, como escreveu Freud em “Luto e Melancolia” é a função final do luto saudável.

Evidentemente, o momento atual deixa essa tarefa difícil. Sim, a impossibilidade de se despedir atrapalha justamente esse processo de transformar alguém em memória. Mas saber o caminho de sair desse estado é fundamental. E, no caso, viver o luto, seja ele ambíguo ou não, com toda a sua dor é o único caminho para fora dessa mesma dor.

Vamos precisar, claro, criar novos rituais, novas formas de dizer adeus se as tradicionais falharem ou não forem possíveis. E lembre-se: abrir-se para essa dor é reconhecer o óbvio, que ela só existe porque ainda há amor. Talvez, pensando assim, não seja necessário que o sofrimento vá embora por completo. Quando aceitamos a dor do luto permitimos que o falecido viva na forma de memória amorosa

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Marsili: declarações misóginas e cotado para ministro da Saúde, como pode? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/marsili-declaracoes-misoginas-e-cotado-para-ministro-da-saude-como-pode/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/marsili-declaracoes-misoginas-e-cotado-para-ministro-da-saude-como-pode/#respond Thu, 21 May 2020 07:00:18 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=975

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Ítalo Marsili é um dos nomes cotados para o cargo de ministro da Saúde. Eu nunca tinha ouvido falar de Ítalo Marsili. E preferia continuar sem saber de sua existência.

Ele diz que desenvolveu um método de coaching chamado guerrilha way. Não conheço esse método, mas o nome simboliza o que parece ser a mensagem de seu criador, ou seja, uma pequena apologia à guerra, com uma palavrinha escrita em inglês para deixar a coisa toda mais fashion.

A cilada de Marsili —como o de muitos dessa trupe violenta que confunde banalidade com sabedoria — é que às vezes ele esbarra em coisas que fazem algum sentido. Por exemplo, ele defende exercício físico como algo para combater ansiedade, algo que a ciência já reconhece há bastante tempo. Ótimo. Só que, infelizmente, o bom conselho vem junto com analogias falsas, como dizer que, se você não tem forças para erguer um halteres, então não conseguirá tirar o peso subjetivo de sua vida. Talvez seja por isso que o Dalai Lama é tão bombado…

Os bons conselhos, como o de praticar exercício, não explicam a fama de Marsili, no entanto. Digo isso porque seus argumentos a favor da atividade física só ganharam notoriedade pela maneira como são defendidos. Ou seja, de forma agressiva e enfática, tentando trazer uma potência que retomaria algum ideal perdido de macho.

Esse tema da superioridade masculina, diga-se de passagem, está sempre à espreita em seu discurso. Por exemplo: ele criticou Sergio Moro, em conversa com Eduardo Bolsonaro, dizendo que o comportamento do ex-ministro não foi coisa de “sujeito homem”. O irônico é que pouco antes ele se descrevia como um analista de comportamento. E, por isso, vale um aviso: não há conceito científico para definir, assim desse jeito, o que seriam coisas de sujeito homem. Esse comentário é simplesmente político, nada científico, nada médico. Fico até pensando se o charuto que Marsili mantém na boca não seria uma tentativa de mandar essa mensagem subliminar fálica.

Talvez essa seja a sedução de Marsili: ele simplifica o mundo e dá um lugar de destaque ao macho médio que o segue. Enquanto ele grita que todos são ordinários e que deveriam se portar como tal, o seu gado se sente ouvido e paradoxalmente se sente especial por reconhecer uma “verdade dolorida”. Uma velha psicologia das massas que, como ensinou Freud, se regozija ao encontrar um inimigo para chamar de seu. Que, no caso no caso de Marsili, parecem ser alguns ideais mais progressistas, como o feminismo.

É um perfil sedutor para alguns, mas não vou me perder em aspectos psicológicos de seus seguidores, nem mesmo dele. Vou apenas comentar um dos seus vídeos mais vis, em que ele diz que o fracasso da democracia moderna se deveria ao voto feminino. O problema, ele comenta, é que as mulheres são facilmente seduzíveis, o que faria com que os políticos todos tenham uma saída fácil para suas campanhas: o charme.

É o que explicaria a eleição do Collor, na visão dele. Mas que ele pense então que Dilma e Lula sejam figuras charmosas, chego a achar engraçado. Que ele não veja que o mesmo argumento deveria tirar o mérito de seu herói, Jair Bolsonaro (que também venceu, ainda que com margem menor, entre as mulheres), eu não entendo.

O argumento é tão vil que é difícil debatê-lo. Um contraponto pode ser a popularidade de líderes pouco apessoados. E até mesmo a eleição passada pode servir de contraprova. Ora, é difícil imaginar que Haddad não teria seduzido mais do que Bolsonaro (desculpem, mas o petista é bonito).

De novo, a popularidade das falas de Marsili se deve ao choque produzido por suas afirmações e não por sua relação com a verdade. É uma pena, porque, atrás da afirmação absurda do médico-coach, há pesquisas interessantes sobre os efeitos de beleza. Sabemos, por exemplo, que a beleza de alguém que está sendo julgado afeta como um júri tende a condená-lo. Pessoas mais bonitas tendem a receber sentenças menores. O efeito é mais comum quando as mulheres são as ofensoras, o que não pinta uma boa luz à retórica de Marsili. É claro que não. Afinal, ciência é o que se faz quando não deixamos que nossos desejos individuais tomem conta das conclusões.

Fama na internet, por sua vez, se conquista quando você encontra uma plateia cativa e quando, muitas vezes, fica gritando com ela. Essa é, do meu ponto de vista, a maior tragédia da comunicação moderna. Trocamos sensatez por berros. Mas qualquer pessoa atenta pode reconhecer: as grandes verdades precisam ser sussurradas.

Olha, que pessoas como Ítalo Marsili ganhem palco na internet e fiquem ricas com seus programas de coaching sem base científica é ruim, mas é o preço da liberdade de expressão. Já que alguém como ele, sem o preparo técnico adequado, seja cotado para o comando da Saúde do país, especialmente neste momento, é inadmissível.

As políticas públicas em saúde (mental ou física) precisam ser baseadas em evidências científicas. Qualquer coisa menos do que isso é um desserviço à população. O Brasil merece o que há de melhor: ciência

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Como fazer para as brigas de casal no confinamento não destruírem a relação http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/14/como-fazer-para-as-brigas-de-casal-no-confinamento-nao-destruirem-a-relacao/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/14/como-fazer-para-as-brigas-de-casal-no-confinamento-nao-destruirem-a-relacao/#respond Thu, 14 May 2020 07:00:35 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=965

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“Ela vive como se nada fosse importante” versus “ele é neurótico com detalhes e não consegue aproveitar o presente” —são exemplos de falas comuns em terapia de casal. A loucura é que o comportamento criticado não raro foi alvo de admiração no enamoramento inicial, quando o espírito livre era encantador e a preocupação com detalhes passava segurança. Mas viraram motivo de irritação e as pequenas intolerâncias  acumuladas começam a semear a separação.

Casais não costumam descobrir do dia para a noite que irão se separar. O mais típico é que acumulem raivas e ressentimentos por anos antes de assinarem os papéis de divórcio. E isso em tempos normais. Em tempos de quarentena, as implicâncias ficam sob uma lente de aumento chamada “convivência excessiva”.

Os intervalos para espairecer, fofocar com amigos e se divertir de maneira mais livre andam inteiramente substituídos pelas mesmas tarefas domésticas divididas com a mesma pessoa —o que pode pesar no instante de relevar um par de meias jogado no sofá. Em outras palavras, talvez você nunca tivesse se incomodado com vários pequenos (e grandes) hábitos do seu parceiro, mas agora eles parecem o som de unha se arrastando no quadro negro.

Será quase inevitável dar uma indireta ou reclamar.

Aos poucos, o casal começa um jogo com placar invisível e, nele, aparentemente ganha quem encontra mais defeitos do outro lado. Assim, perdem os dois. Este é o momento de respirar fundo e pensar: “ele ou ela não está fazendo isso para me irritar”.

É possível reconstruir uma boa relação de casal durante o desafio do confinamento, apesar de um não saber onde está guardada a espátula da cozinha e o outro ainda não ter ajudado na lição de casa das crianças? Sim, mas para isso é necessário um trabalho em duas frentes.

Em primeiro lugar, dentro do orçamento do casal, tentar reconstruir tempos positivos. Cozinhar juntos algo diferente ou pedir uma comida especial em casa de vez em quando, claro, são boas ideias. A melhor sugestão, no entanto, é aquela que você encontra olhando para a história do seu relacionamento. O que vocês costumavam fazer juntos quando estavam em paz um com o outro? É possível retomar? O que vocês têm a perder?

Na outra frente, é fundamental entender o que está acontecendo de errado. Para isso, é necessário desenvolver uma cultura de fala que deixa aquele placar invisível para trás e lembra de colocar a própria responsabilidade em primeiro lugar. Uma linguagem do EU para substituir as acusações do VOCÊ.

Nesse contexto, vale a pena entender qual seria motor propulsor de tantos desentendimentos. Os psicólogos americanos Jacobson e Christensen, dois dos maiores especialistas em terapia de casal do mundo, desenvolveram um acrônimo para nos lembrar dos quatro pontos a serem investigados. Eles usaram a palavra inglesa “deep” (profundo) para nos lembrar de ir mais a fundo em nossas reflexões sobre os motivos das desavenças.

D – Diferenças

Cada casal é composto de duas pessoas completamente únicas —e, portanto, completamente diferentes uma da outra. Vocês vieram de famílias diversas com valores diversos. Ao longo dos anos, porém, essas diferenças começam a cobrar a conta. Uma família passou por mais dificuldades e trouxe uma preocupação exagerada com dinheiro, por exemplo. Enquanto a outra, mais abastada, fez com que se crescesse sem a crença de que poderia faltar grana algum dia  —e, claro, super pode. Mais ainda, a dupla tem temperamentos diferentes, um é mais introspectivo e precisa de tempo a sós para recarregar suas energias, enquanto o mais extrovertido costuma ter uma necessidade maior de ver pessoas e se comunicar. É fácil notar como, se não forem respeitadas, essas diferenças irão aos poucos cavando um abismo entre o casal. Reconhecê-las, portanto, é o primeiro passo.

E – Emoções

Depois de reparar no papel das diferenças, é fundamental reconhecer como as emoções modulam o nosso comportamento e como isso gera reações do outro lado que tendem a alimentar o ciclo negativo. Pense naquela briga que aconteceu porque um de vocês estava irritado de fome. Ela começou com uma pergunta simples: “o que você quer almoçar?”. E terminou com um conflito armado: “você é incapaz de tomar qualquer decisão, por mais bobinha que seja”. A fome e uma série de emoções pintam nossa percepção do mundo com suas próprias cores. A ansiedade deixa o mundo desproporcionalmente perigoso. A tristeza provoca um excesso de arrependimentos e assim por diante.

E – Estressores externos

Às vezes, embora seja difícil admitir, descontamos o estresse do dia naqueles que estão mais próximos. Uma jornada difícil no trabalho, um cachorro com diarreia, uma vida confinada em casa, todos esses eventos externos nos mudam um pouquinho. Ficamos mais irritadiços, menos pacientes. E, sem perceber, mais implicantes e intolerantes. Em um pulinho, é fácil que um problema com o chefe sirva de catalisador para uma briga de casal.

P – Padrões de comunicação. 

Cada pessoa tem um padrão de comunicação,  tanto na briga quanto depois dela. Durante a briga em si, muitos caem no jogo da acusação ou culpabilização. Apontam o dedo, usam sarcasmo – “ah, então você é a pessoa perfeita e eu sou uma m…” — ou até mesmo berram. Outros tendem a se distanciar e a se calar. Estes podem recorrer a um jogo do silêncio ou ficar mudando de assunto, se recusando a enfrentar a situação. Existem, ainda, aqueles que lidam com a briga com seu Sherlock Holmes interior. Iniciam o interrogatório e passam a ser verdadeiros detetives, esperando pelo próximo deslize do parceiro. Por fim, há aqueles indivíduos iluminados que conseguem manter a tranquilidade e discutir o problema calmamente. Mais importante, são capazes tanto de pedir a opinião do outro lado quanto de ouvir para absorvê-la.

Note que, apesar desse último padrão favorecer a comunicação, ele também pode deixar a vida daqueles que tendem a fugir do assunto bastante difícil —se esse for o perfil do outro lado do casal —, aumentando as chances de conflito. No final, a melhor comunicação é aquela que encaixa.

A dica de Jocobson e Christensen é simples, mas poderosa. Escolha o assunto central —o tema a partir do qual muitos dos entendimentos parecem surgir —e tente entendê-lo a partir dessa perspectiva. Olhe para esses velhos problemas de uma maneira nova e, se possível, bem mais empática, criando um solo fértil para o diálogo. Em uma conversa sem dedos acusatórios e sem placares invisíveis, muitas vezes descobrimos que o amor ainda está lá, esperando para ser reascendido.

Importante: Este texto NÃO se direciona para quem está sofrendo de abusos físicos ou psicológicos de um parceiro ou parceira. Esses casos demandam outro tipo de intervenção –muitas vezes, até mesmo, policial 

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Esgotado como nunca? Por que videoconferência cansa e o que você pode fazer http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/07/cansado-como-nunca-por-que-videoconferencia-cansa-e-o-que-voce-pode-fazer/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/05/07/cansado-como-nunca-por-que-videoconferencia-cansa-e-o-que-voce-pode-fazer/#respond Thu, 07 May 2020 07:00:58 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=963

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“Em uma videoconferência, a sua câmera deve estar um pouco acima da altura dos seus olhos e é interessante que uma luz indireta, como a de um abajur, esteja apontada para a parede, vinda do seu melhor lado” — foi o que escreveu uma cinegrafista de Hollywood em um texto que surgiu do nada no meu feed. Eu, que nem sabia que as pessoas tinham um lado melhor, quase perguntei em casa se eu deveria iluminar o meu lado esquerdo ou o direito.

Mas, pensando nisso, eu me dei conta de que esse negócio de vídeoconferência todos os dias acabará deixando a gente meio enlouquecido. Simplesmente porque nosso cérebro está tão apto para esse tipo de conversa. A maneira como o vídeo é processado, comprimido e armazenado em aplicativos como Zoom ou Skype faz com que ele muitas vezes apareça cheio de pixels, com a imagem quebrada em inúmeros quadradinhos, sem contar os instantes de congelamento da tela, atrasos da imagem em relação ao som… Acredite: cada um desses pequenos erros retira a naturalidade de nossa comunicação.

Por exemplo, em uma conversa convencional, ao vivo e em cores, cara a cara, sem nos darmos conta repetimos as microexpressões faciais da pessoa à nossa frente. Essa é a maneira que nosso cérebro arruma para a gente se sentir de maneira semelhante ao que o nosso interlocutor está sentindo. Em outras palavras, é inclusive por conta desses movimentos involuntários que experimentamos empatia.

Já em uma típica videoconferência, a qualidade da imagem não é boa o bastante para o cérebro captar essas sutilezas no rosto que está na tela. Veja que interessante: cancela-se, dessa forma, o processo subconsciente de sentir o que a outra pessoa está sentindo. E, na ausência desse processo automático, precisamos fazer um esforço deliberado para decodificar o conteúdo emocional de qualquer mensagem, o que deixa tudo mais obscuro e a conversa, mais desgastante.

Além disso, pelo menos segundo uma pesquisa feita na Alemanha, mesmo pequeníssimos atrasos em transmissões, que podem não chegar no máximo a 2 segundos e que muitas vezes nem sequer são percebidos conscientemente, mudam (para pior) a maneira como avaliamos a pessoa com quem conversamos remotamente.

Até mesmo gestos banais, como fazer um breve momento de silêncio, ganham interpretações diferentes quando acontecem em uma videoconferência. Se, em uma conversa presencial, a ausência de falas vez ou outra pode ser uma marca de intimidade ou de paciência, em comunicações via internet esses intervalos geram ansiedade, até mesmo sobre o funcionamento adequado da tecnologia —será que travou?

Não é à toa que boa parte das videoconferências são pontuadas por irritantes checagens –“você está me ouvindo?” ou “hmm, acho que você travou aqui” ou “não estou te vendo mais” etc. E não é difícil perceber como essa preocupação com a própria tecnologia e com ser compreendido deixam a conversa mais cansativa. Basta perceber quanta energia é consumida só a para relembrar sobre o que estávamos falando antes de o sinal da conexão se perder.

A preocupação que talvez tenha sido responsável por me levar até o texto da cinegrafista ensinando a posicionar a webcam sugere que a presença da nossa própria imagem também é fonte de ansiedade. É difícil se concentrar no que a outra pessoa fala enquanto o canto superior da tela mostra o seu cabelo despenteado, olheiras e afins. Ou notar a cara estranha que você não sabia que fazia enquanto presta atenção.

Saiba que essa ansiedade que nos faz ficar mais calculistas sobre a maneira como aparecemos também dificulta segurar o fio da meada da mensagem que vem do outro lado. E o processo de dirigir a atenção de um tema (a própria imagem) para o outro (o que a pessoa está dizendo) é custoso do ponto de vista cognitivo. Ou, falando mais claramente, cansa demais.

Aquela caixinha amarela que se ilumina quando é a nossa vez de falar talvez seja a cereja no bolo desse processo. Mais do que em reuniões presenciais, esse tipo de sinal pode dar a sensação de que você é o centro das atenções. A importância subjetiva da sua fala –que, nesse ponto, começa a se assemelhar a uma apresentação – aumenta. Fica difícil não iniciar uma performance que vai esgotando ainda mais a nossa energia.

Ou seja, conversas e reuniões por videoconferência são desgastantes pois quebram uma série de processos naturais e automáticos da nossa comunicação e exigem que a gente preencha os espaços com um esforço de atenção mais deliberado.

Vivemos tempos estranhos e cheios de ansiedade. Tempos em que não apenas todo o nosso contato social é mediado por tecnologias que ainda estão distantes do nosso ambiente natural, mas em que todas as nossas interações acontecem no mesmo lugar. É quase como se encontrássemos nossos amigos, nossos filhos, nosso chefe e nosso colega de trabalho na mesma mesa de bar –às vezes, ao mesmo tempo. Não é estranho que a gente esteja com um pouco de birra de tudo. Ainda mais quando ela tem tantos atrasos, tantas conexões perdidas e outras pequenas irritações que compõe a nossa relação diária com a tecnologia.

Bom, e o que fazer então? A primeira coisa é reconhecer o problema —algo que tentei ajudá-lo a fazer até aqui. Também ajuda estabelecer alguma rotina em que a gente possa alternar videoconferências com outra atividade que seja mais presencial —seja você com as pessoas da casa ou consigo mesmo.

Outra boa dica é que, parece, por áudio —no velho telefone, por exemplo — esse tipo de fadiga não acontece, ao menos com tanta força. Então, pense se não seria caso de, em algumas dessas reuniões ou conferências pela web, simplesmente tirar o vídeo. Ou, ao menos, tente ocultar a janela onde você próprio aparece, nas plataformas de videoconferência em que isso é possível.

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Nova forma de suicídio: pessoas que se expõem ao coronavírus para se matar http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/30/nova-forma-de-suicidio-pessoas-que-se-expoe-ao-coronavirus-para-se-matar/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/30/nova-forma-de-suicidio-pessoas-que-se-expoe-ao-coronavirus-para-se-matar/#respond Thu, 30 Apr 2020 07:00:10 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=952

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É consenso entre os que trabalham com saúde mental: o novo coronavírus vai aumentar os quadros de ansiedade e de depressão. Imagine os milhares de viúvas, viúvos e órfãos que deverão surgir, angustiados. E os pais que veem um filho morrer precocemente. Além disso, não se pode esquecer de médicos, enfermeiros e outros profissionais na linha de frente que testemunham a barbárie de um sistema de saúde sobrecarregado.

E isso sem falar na gente —em, basicamente, o resto do mundo inteiro que precisou ver a sua normalidade virada do avesso. Homens e mulheres trancados em casa, distantes das atividades que lhes davam prazer e que traziam significado para suas vidas. Todos esperando o momento em que ansiedade vai se converter em irritação e tristeza. Não será fácil para as nossas cabeças.

Não é de se surpreender que psicólogos e psiquiatras estejam preocupados, apontando que, além de todos os danos à saúde física, a covid-19 ainda poderá precipitar muitas mortes por suicídio. Ora, a gente sabe que em outras grandes epidemias, como na da gripe de 1918 e na da Mers na Ásia, em 2012, as taxas de suicídio aumentaram nos países mais afetados por essas moléstias.

Mas nem precisamos ir muito longe, pois alguns trabalhos sobre a relação entre o Sars-Cov-2 e o suicídio já começaram a pipocar. O que achei mais interessante foi realizado por meio de uma plataforma online, liderado pelos pesquisadores Ammerman e Burke, das universidades americanas Notre Dame e Brown. A dupla fez perguntas para quase mil pessoas sobre a sua saúde mental no último mês, tendo como foco eventuais pensamentos suicidas e a relação destes com a pandemia atual.

O que os dois pesquisadores descobriram foi impressionante: 18% das pessoas relataram ideações suicidas no último mês e 5% chegaram a se engajar em algum comportamento desse tipo. Entre elas, 65% disseram que o coronavírus surgia nesses pensamentos em pelo menos parte do tempo.

No entanto, o que mais me surpreendeu foi que aproximadamente um em cada dez participantes da pesquisa admitiram ter tentado se expor de forma proposital (e desnecessária) ao vírus. Pior ainda: metade dos que fizeram isso se expuseram com intenções suicidas. Em outras palavras, tem muita gente que, no meio de seu sofrimento e angústia, está correndo o risco de contrair o vírus como forma de se matar.

A situação é duplamente preocupante. Primeiro, pelo sofrimento psíquico a que essas pessoas estão submetidas e pela ameaça à integridade física delas próprias. Depois, porque esse comportamento, caso se torne generalizado, deve atrapalhar as medidas de isolamento físico que foram colocadas em prática para conter a disseminação do vírus.

O caminho fácil, ao conhecer essa realidade, é o do ódio. Ou, em outras palavras, o da preguiça intelectual e da falta de empatia. Entoar em coro expressões como “deviam tomar vergonha na cara” ou “mereciam morrer mesmo” só gera mais raiva e isolamento —e, assim, mais ideação suicida e tentativas de contágio.

Não, é preciso procurar outra estrada. Talvez já esteja mais do que na hora de a gente olhar para o que o suicídio indica: sofrimento e sensação de aprisionamento. Quem sabe, se conseguir fazer isso, a gente poderá estender a mão para quem está nesse estado. E, assim, diminuir a probabilidade desse comportamento, que é ao mesmo tempo egoísta e desesperado.

Além disso, esse tipo de suicídio traz mais um ingrediente para as difíceis tomadas de decisão das lideranças políticas em relação à quarentena. Esse jogo não é feito apenas de economia e saúde física. Deve considerar como algumas pessoas se sentem e se desesperam ao planejar o momento e a maneira de encerrar o confinamento.

Mais ainda: os políticos deveriam perguntar para quem entende de comportamento humano como é possível fazer com que as pessoas suportem de um modo mais saudável esse período de incertezas. Spoiler: com mensagens claras sobre o que está acontecendo e qual a perspectiva; com a garantia de renda mínima e de alimentação; com o acesso a internet ou a alguma forma de entretenimento; com linhas de telefone com voluntários treinados para escutar e prestar os primeiros socorros psicológicos, encaminhando os cidadãos para serviços de psicoterapia e psiquiatria quando apropriado.

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O mundo de um tema só: é possível falar sobre qualquer outra coisa? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/23/o-mundo-de-um-tema-so-e-possivel-falar-sobre-qualquer-outra-coisa/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/23/o-mundo-de-um-tema-so-e-possivel-falar-sobre-qualquer-outra-coisa/#respond Thu, 23 Apr 2020 07:00:15 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=950

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Todas as noites eu me sento à mesa de jantar e o desafio é lançado: hoje não vamos falar de coronavírus. Qualquer outro assunto vale. Iniciamos a refeição empolgados e esperançosos. E toda noite a gente perde o desafio.

Não sei exatamente o que acontece, mas a urgência de se falar de qualquer outra coisa se mistura com a dificuldade para mudar o tema da conversa. Por um lado, a ansiedade fica pedindo – “fala mais disso, fala mais daquilo”. Por outro, de que outro assunto dá para falar?

Até mesmo escrevendo esta coluna eu sinto que tenho perdido a aposta. Queria poder escrever sobre a nossa saúde mental a partir das descobertas incríveis da ciência no campo da psicologia. Ou sobre a maneira como o nosso cérebro parece prever o mundo, por exemplo. Mas, poucas linhas adiante de uma explicação como essa eu me pergunto: como isso seria importante hoje?

E, assim, cá estou eu outra vez, tentando selecionar algum aspecto de nossas vidas que foi alterado pelo vírus.

Poderia escrever sobre fadiga de Zoom, Skype e afins. De fato, essa maneira de comunicação parece cansar muito mais do que o olho no olho. Talvez por perdermos dicas valiosas de linguagem corporal. Ou porque somos constantemente interrompidos por um pequeno aviso na tela. Até a nossa imagem refletida no cantinho superior— nos lembrando de olhar para a câmera, pentear o cabelo e melhorar a postura — pode contribuir para o cansaço.

Talvez nesta coluna eu poderia escrever sobre o aumento no consumo de álcool na quarentena. As mídias sociais, pelo menos, estão cheias de imagens de profissionais com seu copinho de vinho durante o expediente. Mas será que já sabemos se esse aumento é significativo? Ou será que os bares fechados mais do que compensam essa tendência?

Confesso que não encontrei estatísticas oficiais que me convencessem de um lado ou de outro. Seja como for, a linha de preocupação talvez possa ser tratada de modo funcional e não apenas quantitativo. De modo geral, posso dizer que, se você estiver bebendo para aproveitar o final do dia, o consumo é menos preocupante. No entanto, caso esteja bebendo para conseguir enfrentar o dia na quarentena, é indicado procurar um profissional em saúde mental para, em um tele-atendimento, avaliar o que está acontecendo.

Uma outra opção seria escrever sobre o aumento no consumo de alimentos. Tenho brincado que a OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda iria mudar o parâmetro de peso saudável depois dessa quarentena. O IMC ideal —como eles calculam esse peso saudável — ainda iria subir uns quatro pontos e, claro, é só brincadeira. Mas, se é verdade o que muitas pessoas têm descrito —um descontrole alimentar — , tantas outras estão se beneficiando do momento, consumindo mais comidas caseiras que tendem a ser mais balanceadas. De novo, me parece cedo para chegar a qualquer conclusão.

Vale, portanto o bom senso de sempre. Organizar três refeições saudáveis e alguma atividade física todos ou quase todos os dias. Para compulsão, o melhor remédio seria a a organização alimentar. Acredite, qualquer tipo de restrição só vai aumentar o problema. Isso mesmo: diminuir radicalmente a ingestão calórica ou se proibir de comer doces aumenta a chance de compulsão alimentar. A longo prazo, os atalhos de dietas malucas que tomamos hoje levam a gente a um ciclo de sobrepeso e intranquilidade com a comida.

Mas, seja para que lado formos rodar, a verdade é que retornamos sempre ao mesmo ponto desesperançoso. O que fazer desses tempos de coronavírus? Quando a quarentena acaba e como ela vai acabar? Mais uma vez, voltamos ao mesmo tema de sempre e eu, pelo menos, tento me prometer que esse é o último bombom da noite.

Antes de terminar, respondendo a pergunta do título. Não, não dá para falar de assuntos que não se relacionam ao Covid-19. Mesmo as coisas mais básicas, como alimentação, estão transformadas pela realidade transformada pelo vírus. A questão, talvez, é como a gente pode lidar com esse mesmo assunto construindo a melhor realidade coronavírus que a gente possa.

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O vírus do pensamento mágico e quatro questões bem práticas na quarentena http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/16/o-virus-do-pensamento-magico-e-quatro-questoes-bem-praticas-na-quarentena/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/16/o-virus-do-pensamento-magico-e-quatro-questoes-bem-praticas-na-quarentena/#respond Thu, 16 Apr 2020 07:04:34 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=945

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Eu às vezes fecho os olhos e imagino que, quando eu abrir, tudo terá voltado ao normal. Que não passou de um mal-entendido e que a vida poderá seguir normalmente. Faço a minha parte, fico recluso, porque no fundo ainda acredito que serei recompensado pelo meu bom comportamento. Se eu fizer tudo certinho, o céu vai se abrir, proteger quem eu amo e dizer em tom paternal: “bom menino”.

Infelizmente, fechar as pálpebras assim não tem me ajudado a lidar com o mundo lá fora. Você conhece o cenário aterrador: escolas fechadas, trabalhadores em casa e um vírus que ninguém parece ter entendido direito. Até a voz de tranquilidade do Dráuzio Varella repete que a vida nunca mais será a mesma aqui no UOL.

Portanto, a cada vez que tento fechar os olhos, o pensamento mágico vai fazendo menos efeito. Não que eu concorde  exatamente com as autoridades –médicos podem falar de vírus, mas não sei se eles estão capacitados a prever como a sociedade irá se reestruturar quando tudo isso passar. Porque vai passar. Eventualmente.

Fecho os olhos novamente, procurando acelerar o tempo para que o fim chegue mais rápido. O efeito é paradoxal –mais o ponteiro do relógio parece se arrastar.

Aí me lembro do que vivo dizendo para os meus pacientes: não existe intervalo na vida. Agora não é diferente. Se por um lado é verdade que a vida normal foi embora, por outro isso ainda é vida. A única existência de que dispomos. E o caminho de volta exige, necessariamente, abrir os olhos.

É fundamental abandonar o pensamento mágico de que uma espécie de varinha acabará resolvendo tudo. Não irá.  Então, o único caminho para fora dessa crise é vivenciá-la.  E, nesse sentido, deixo algumas perguntas que me parecem importantes para enfrentá-la sem fechar os olhos e da melhor maneira possível:

1. Como eu sei se a falta de ar que estou sentindo é sinal da doença ou de uma crise de ansiedade?

Quem sofre de ansiedade conhece bem a sensação de puxar o ar e se sentir mais sufocado a cada inalação. Na ansiedade, o corpo se prepara para encarar um perigo e passa involuntariamente a hiperventilar, isto é, a puxar muito ar. Afinal, precisamos de mais oxigênio no sangue para fugirmos de um possível predador. Só que, no nosso mundo, onde tigres não são mais lá grandes ameaças, não temos muito para onde correr. E, paradoxalmente, todo esse excesso de oxigênio é percebido como o oposto — como falta de ar.

A essa altura, você sabe que a falta de ar é um dos sintomas da Covid-19. Talvez, só de me ler você já pausou para checar sua respiração. E, igual quando vamos ao médico e ele pede para nós respirarmos normalmente, só de checar já não temos muita certeza se estamos inspirando e expirando normalmente. Daí, é fácil notar que o simples ato de observar a própria respiração é capaz de provocar ansiedade. E ansiedade, por sua vez, provoca aquela falsa sensação de falta de ar. O ciclo está fechado.

Será que existe alguma maneira de diferenciar a falta de ar da ansiedade daquela de uma pneumonia? É claro que, sem uma avaliação médica, não dá para ter absoluta certeza, mas há pistas. Em primeiro lugar, a falta de ar da ansiedade tende a ter picos –ou seja, ela melhora quando nos distraímos ou relaxamos. Já a falta de ar de uma doença respiratória tende a ir piorando em uma constante. Também varia pouco com o nosso humor.

Dito isso, vale sempre a pena observar os outros sintomas do coronavírus, como febre e tosse, que tendem a sofrer menos o impacto de nossas cabeças.  E, antes de ir para a próxima questão, reforço que, se a dúvida persistir, será fundamental consultar um profissional de saúde.

2. Quanto tempo seria demais para uma criança ficar diante de uma tela?

Normalmente, essa resposta costuma ser numérica: algo entre 30 minutos a, no máximo, duas horas por dia. Mas a vida não está nada comum e a verdade é que fica difícil entreter as crianças sem recorrer, um pouco em exagero, para a telinha. A resposta parcial a que cheguei é simples: não conte tanto o tempo de tela e, sim, observe os outros tempos. A criança está engajada socialmente na família e tem espaço para conversar com seus pais? Ela está com intervalos para outras brincadeiras, dançar e cantar todo dia? Se essas coisas estiverem acontecendo, acho que podemos tolerar a realidade de que a criançada irá conhecer os personagens do Youtube com mais intimidade do que a gente gostaria durante o confinamento.

3. Quanto tempo é demais para um adulto ficar diante de uma tela?

Vale a mesma lógica, viu? Tempo excessivo de computador e Netflix também faz mal para adultos.

4. Como está a minha rotina?

Não ajuda em nada a neurose de eficiência na quarentena. Pode até ser que não seja o boato a história de que Isaac Newton desenvolveu sua teoria da gravidade durante o período em que ficou recluso para se proteger da peste. Eu, honestamente, duvido.

De qualquer maneira, isso provavelmente não vai acontecer com você. Não lhe conheço, mas chutaria que existem poucos Newtons por aí em qualquer dado momento…  O mais provável é que você comece a se perder em sua rotina, com as noites arrastadas e os dias cada vez mais curtos.

Por isso, no lugar da hipereficiência, se proponha a ter uma rotina simples. Com hora para acordar, hora para se exercitar e hora para se sentar para comer. Uma hora de leitura também vai lhe fazer bem, além de limitar o contato com as notícias –de preferência a um momento específico do dia.

Sem cobranças excessivas, é fundamental tentar produzir um momentum de atividade. Do mesmo jeito que é mais fácil sair para correr se saímos para correr todos os dias há dois anos, é mais fácil acordar e enfrentar a tela do computador quando a enfrentamos um pouquinho todos os dias.

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O mundo terrível que construímos a partir do que acompanhamos no noticiário http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/09/o-mundo-terrivel-que-construimos-a-partir-do-que-acompanhamos-no-noticiario/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/09/o-mundo-terrivel-que-construimos-a-partir-do-que-acompanhamos-no-noticiario/#respond Thu, 09 Apr 2020 07:00:44 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=934

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Esses dias, quando terminei o meu último atendimento e cheguei na sala, vi minha esposa meio assustada, encarando o seu celular. Ela tinha acabado de receber uma mensagem de Whatsapp com a foto de uma manchete chocante. Uma criança de 2 semanas havia morrido após a mãe ter adoecido com o novo coronavírus.

Ela me mostrou a imagem em silêncio. Olhamos um para o outro e falamos alto o nome da minha prima, preocupados. Ela estava a alguns dias de dar à luz e o meu tio, seu pai, tinha testado positivo um pouco antes. Outros nomes de amigos e pacientes em situações semelhantes emergiram na sequência. Aquela fotinho da notícia tomou conta da nossa cabeça. Já vivíamos em um mundo onde precisávamos consolar pessoas que perdiam os filhos recém-nascidos.

Até que finalmente nos chacoalhamos e fomos procurar a notícia original. A manchete, apesar de verdadeira factualmente, era escorregadia. Não mencionava, por exemplo, um detalhe importante: a criança tinha uma doença congênita grave e foi essa a enfermidade que a levou ao óbito. Sua mãe havia, sim, sido testada positivo para a covid-19, mas não foi o coronavírus que matou a criança.

Entre raivosos e aliviados desligamos o celular. “Você precisa abordar isso”, minha esposa disse. De fato, a relação que as pessoas terão com as notícias na mídia será parte importante de sua saúde mental nesse momento. E algumas chamadas são construídas principalmente para atrair leitores, em vez de informar corretamente o assunto. Concordei com ela e me vi na difícil situação de escrever este texto.

Veja, a função da mídia é dar notícias. Sei disso. Sei também o quanto o papel da imprensa é fundamental nessa fase de obscurantismo e fake news. Mas é exatamente nesse contexto que devemos ler, mesmo os veículos mais sérios, com serenidade e parcimônia.

É fundamental que a gente não se deixe levar pelo título e vá compreender com calma a matéria. Muitas vezes, até mesmo um conteúdo sério e ponderado se esconde atrás de um título chamariz. O corpo da matéria, em um veículo sério pelo menos, tende a pintar o retrato como um todo. Se a manchete fala do bebê que morreu com a mãe infectada, o texto nos conta a história de sua doença.

Gostaria que a gente não precisasse se balizar desse jeito. Acharia fantástico que a Itália em recuperação se tornasse uma notícia tão importante quanto ela foi quando estava desmoronando. Também gostaria de parcimônia em nossos líderes. De conversas apaziguadoras e pautadas em ciência.

Esse, porém, infelizmente não é o mundo em que a gente vive. A gente vive em um mundo onde a batalha é vencida por quem causa mais ansiedade ou indignação. Não é à toa que estamos sofrendo para além de nossas dores econômicas e físicas.

Falar que a gente gostaria de viver em um ambiente diferente é o mesmo que brigar contra a tempestade. Nossos berros não vão resolver o problema. Agora o momento é de abrir o guarda-chuva, por assim dizer. E se afastar de notícias sensacionalistas. Ou, quando for impossível se afastar, ler tudo até o final. Devagarzinho. Não pule frases nem parágrafos e se dê o tempo para entender o que de fato está acontecendo.

Acredite nas recomendações dos especialistas, mas, quando a notícia for particularmente ruim, lembre-se de inverter a ordem da estatística. Assim, ao saber que 1% das pessoas pode falecer, lembre-se de subtrair mentalmente —ora, então 99% irão sobreviver. A ideia não é menosprezar nem diminuir o sofrimento dos que serão impactados pelo vírus, mas lembrar que existe algo a mais para ser enxergado do que aquilo que nos impõe a nossa própria ansiedade e, por vezes, algumas manchetes.

Como uma nota separada —feito um texto dentro de um texto — vale eu dizer que o fenômeno contrário também está acontecendo e talvez seja ainda mais perigoso. Frente a notícias desagradáveis, uma parcela importante da população escolhe simplesmente ignorar a expertise dos estudiosos. O único critério de verdade, para esses, é aquilo que sentem e em que já acreditam.

Essa negação cognitiva é ainda mais perniciosa do que qualquer ansiedade. Afinal, ao contrário de procurar o sol por trás da nuvem, essa postura tenta fingir que a chuva não está caindo. Só que, se deixar levar por essa dificuldade de encarar fatos difíceis vai seguramente lhe  deixar encharcado.

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5 estágios da quarentena: o que acontecerá com nossas cabeças? http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/os-diferentes-estagios-da-quarentena-o-que-acontecera-com-nossas-cabecas/ http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/2020/04/02/os-diferentes-estagios-da-quarentena-o-que-acontecera-com-nossas-cabecas/#respond Thu, 02 Apr 2020 07:00:54 +0000 http://danjosua.blogosfera.uol.com.br/?p=927

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É impossível falar de quarentena no Brasil. No mínimo, precisamos colocar essa palavra no plural. A nossa realidade exige que a gente encare esse momento com a disparidade social que marca o nosso país. Afinal, ficar na casa de veraneio no litoral, com vista para o mar e entrada privativa, é completamente diferente de dividir uma habitação em uma comunidade em Paraisópolis ou na Rocinha.

Para a elite rica do Brasil, quarentena pode até parecer um período muito esquisito de férias –com corrida na praia ao entardecer e picolé de sobremesa. Para a população mais vulnerável, com certeza é bem diferente. Falta de comida e de abastecimento serão problemas reais em apenas uma dessas realidades –não parece provável que os ricos de um país agrícola como o nosso serão ameaçados de passar fome.

Não dá, inclusive pensando em saúde mental, para fugir do cenário criado pela concentração de renda: as preocupações e os problemas irão variar conforme espelharem as diferentes classes sociais do país. E, desse modo, nenhuma projeção, como a que apresentarei a seguir, poderá ser precisa.

Assim, sendo justo, se essa projeção contém bastante pesquisa e um pouco da experiência italiana, o cenário descrito é apenas uma sugestão do que eu acho que pode vir a acontecer. Não é fruto de um complicado modelo matemático, nem a imagem em uma bola de cristal. É simplesmente um palpite educado de quem vem escutando diferentes pessoas passando por diferentes fases de quarentena. Dito isso, acredito que ela tenderá a seguir algumas ondas. Vale notar, antes de começar, que as diferentes realidades sociais poderão atravessar essas fases em ritmos distintos – assim, enquanto uma parte da população já sente o impacto da segunda ou da terceira onda, outra ainda se prepara para a primeira.

O primeiro estágio seria o da reestruturação, que já começou para quase a totalidade de nós. Quem vai trabalhar em casa precisará descobrir como adaptar os compromissos profissionais à realidade do home office. Quem perdeu ou vai perder o emprego precisa ir atrás de benefícios e do plano B. Rotinas de escolas já são substituídas por aulas a distância e crianças, de repente, estão em casa o dia inteiro. A ordem do momento é organização. Ou, talvez, se preparar para o impacto que virá. Mas, em geral, é muita correria para alguém perceber exatamente a dimensão do estresse que está por vir.

A segunda onda poderia ser chamada de estágio de “férias”. A preocupação ainda não tomou conta da cabeça. A ameaça do vírus ainda parece distante e, mesmo que dispensado do trabalho, a sensação majoritária é de que as coisas devem voltar ao normal depressa. Até mesmo os mais ansiosos conseguem muitas vezes se acalmar em seus picos de nervosismo. É difícil prever como pessoas mais vulneráveis economicamente se sentiriam nessa fase, mas me arriscaria a dizer que elas estariam ansiosas, aguardando medidas de proteção por parte do governo ou de empregadores.

Esse segundo estágio é marcado por uma aparente “normalidade e união”. Vizinhos tocam música pelas suas janelas e ainda são, na maioria dos casos, bem recebidos. A ideia de que isso é um sacrifício coletivo já toma conta, mas o peso desse mesmo sacrifício ainda não foi sentido pra valer. É a época do respirar fundo e esperar o tempo passar. Passatempos como televisão e quebra-cabeças ainda funcionam bem para distrair.

Aos poucos, porém, mais ansiosos começam a pensar em 2021 e já não conseguem se acalmar tão facilmente, embora ainda não tenham desistido de tentar se convencer de que tudo ficará bem. Esse processo mental é exaustivo, mas pode ter um sucesso relativo. As populações mais vulneráveis já estão sofrendo os problemas reais do isolamento e, caso estejam sem ajuda do Estado e do terceiro setor, precisam quebrar as regras da quarentena para garantir a sua subsistência. Como esperado, a ansiedade e preocupação dessa parcela da população, é mais elevada, espelhando uma realidade mais difícil.

O terceiro estágio é marcado pelo início da fase mais deprimida, por assim dizer. A voz e o violão do vizinho não saem mais pela janela. Trocar de roupa e se esforçar para aparentar normalidade se torna bastante penoso. Não parece mais valer a pena. Netflix e Big Brother já não sustentam a passagem do tempo para quem está sem trabalhar e a televisão serve mais para iluminar a sala de azul do que para distrair as ideias. O sofá deixa de ser um lugar confortável e se torna um pequeno buraco negro de preguiça. Ele suga, meio sem se fazer notar, as forças de quem se entrega a ele o dia todo.

As atividades escolares a distância só são seguidas pelos alunos mais diligentes – e a quantidade de vídeos infantis no Youtube bate recordes históricos. Os pais passam a perder sua paciência. Como pequena nota, vale dizer que segundo uma revisão publicada na revista The Lancet, a presença de um filho aumenta o risco psicológico em uma quarentena, comparado a não ter filhos, mas, curiosamente, ter mais de três filhos é protetor para a saúde mental dos pais.

Nas comunidades, se a ajuda ainda não chegou a contento –como o auxílio prometido pelo governo, por exemplo – a quarentena se torna impossível. Suas regras são simplesmente ignoradas para garantir o mínimo de bem-estar físico. Mais uma vez, a pressão emocional nessa população tende a ser maior, pois acompanha os riscos maiores.

O quarto estágio ninguém sabe quando começa e quanto tempo dura. Ele é marcado por angústia generalizada e pela necessidade de previsões sobre como as coisas vão se seguir. Transparência do governo e vozes tranquilas e coerentes das autoridades são mais necessárias do que nunca. O ambiente de sátira política parece impossível. Se as pessoas ainda mantêm a quarentena é porque podem ver o efeito de seu sacrifício – e para isso precisam de líderes que lhes mostrem esses ganhos, como hospitais de emergência atendendo a população e as vidas sendo salvas, por exemplo.

Com liderança política adequada, a inquietação do confinamento prolongado pode se misturar a uma sensação de orgulho nacional. É preciso que a população saiba que está vencendo a guerra –e que a batalha era, literalmente, de vida e morte. E não sejamos ingênuos, a covid-19 em si será apenas um dos fronts dessa disputa –os impactos econômicos e sociais nos mais vulneráveis se tornarão tão importantes quanto os efeitos na saúde. Sinceramente, fazer essa diferença é uma mera abstração, porque, como sempre, o cidadão tem o direito de ser protegido em todas as suas dimensões –a social, a econômica e a física.

A quinta e última onda anuncia o início da vida sem coronavírus. Voltaremos aos poucos aos velhos hábitos do passado, mas… Será que o que aprendemos nessa guerra vai nos guiar daqui para frente? Gostaria de acreditar que vamos dar valor ao óbvio à saúde das pessoas. Também vamos praticar em nosso dia-a-dia o que é absolutamente evidente: somos todos feitos da mesma mistura de carne e osso e todos merecemos as mesmas chances debaixo do céu.

Temo, entretanto, que nessa quinta e última fase se reestruturará a mesma coisa de sempre. Ricos e pobres do país tão apartados como sempre. Os esforços de caridade e a sensação de comunidade relegados aos tempos de exceção. O SARS-CoV-2 (nome do vírus) não teve a força da queda da Bastilha: os nobres continuam nobres –as estruturas sociais permanecem as mesmas. E todos, misturando alívio e descontentamento em doses proporcionais as suas contas bancárias, voltam as suas vidinhas cotidianas.

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