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Por que os homens resistem mais a usar máscara do que as mulheres?

Dan Josua

02/07/2020 04h00

Crédito: iStock

No começo de junho, o Senado brasileiro aprovou um projeto de lei que exige o uso de máscara nas vias públicas do país. O texto ainda depende de sanção do presidente e se torna necessário ao percebermos o que deveria ser óbvio: não é tão fácil assim convencer as pessoas a mudarem hábitos enrustidos.

Segundo pesquisa feita nos Estados Unidos, homens resistem mais ao uso de máscara do que mulheres. Enquanto 67% delas disseram que usaram máscaras fora de casa, apenas 56% deles fizeram o mesmo. Assim, enquanto temos uma epidemia que parece atingir de forma mais severa aos homens, vemos eles mais despreocupados com o contágio. Como explicar esse fenômeno?

Observar o comportamento de alguns líderes —como o do presidente brasileiro — talvez nos forneça algumas dicas. A resistência de Bolsonaro a sair com a proteção às ruas é tamanha que chegou a ser alvo de proibição explícita do governo do Distrito Federal (que já foi derrubada). Qual o problema de vestir um pedaço de pano no rosto e por que ele precisa lutar tanto contra isso?

As falas do presidente (e a sua postura em geral) apontam possíveis respostas. Ele diz que tem histórico de atleta e, portanto, não precisaria se preocupar —pouco importa que tenha demonstrado dificuldade para fazer flexão de braço. A força real de seus braços, aliás, é irrelevante. O fundamental é sedimentar a sua visão do que significaria ser homem. Ou seja, não apenas ser destemido, mas virtualmente invulnerável às ameaças do vírus.

Até mesmo a sua insistência no uso da hidroxicloroquina apesar da ausência de evidências sólidas sobre a sua eficácia é parte dessa persona. Ora, o presidente então saberia mais do que especialistas do assunto e falaria como quem não tem dúvidas. Mais uma vez, Bolsonaro tece a bravata que compõe a sua visão de homem.

A máscara de pano quebraria com essa imagem. Usá-la e parar de abraçar seguidores desmancharia essa figura de potência. Algo inadmissível para esse tipo de líder que, em certa medida, se sustenta nesse ideal de masculinidade, segundo o neurocientista americano e especialista em machismo Peter Glick.

Segundo o professor, a crise do coronavírus, é agravada por uma noção de liderança machista segundo a qual o poder se sustentaria a partir de uma imagem de potência e infalibilidade. É notável, nesse sentido, que muitos dos países com melhor desempenho na pandemia sejam liderados por mulheres, como a Nova Zelândia.

No meu modo de ver, para explicar o fenômeno das máscaras que são menos usadas por homens, o que acontece com os líderes parece se replicar na população. Dentro desse modelo de masculinidade, é difícil para o homem comum admitir fraqueza. Desse modo, com a vergonha espetando seu rabo, vemos muitos deles se recusando a usar máscara, quase como se o desejo de se proteger representasse algum tipo de derrota. Nessa maneira de pensar, contra o vírus invisível venceria quem sair para a batalha sem armadura.

É uma lógica estranha, mas absolutamente natural para quem cresceu em um mundo que diz que fragilidade é coisa de "mulherzinha" —do sexo oposto e, de quebra, no diminutivo. Enraizado nessa cultura tóxica, o homem passou a acreditar nesse absurdo duplo. Isto é, que há algo de errado no feminino e que homens provam sua sexualidade na brutalidade. E onde há brutalidade costuma haver ignorância, inclusive em relação à ameaça que enfrentamos como humanidade.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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