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Marsili: declarações misóginas e cotado para ministro da Saúde, como pode?

Dan Josua

21/05/2020 04h00

Crédito: Reprodução/Instagram

Ítalo Marsili é um dos nomes cotados para o cargo de ministro da Saúde. Eu nunca tinha ouvido falar de Ítalo Marsili. E preferia continuar sem saber de sua existência.

Ele diz que desenvolveu um método de coaching chamado guerrilha way. Não conheço esse método, mas o nome simboliza o que parece ser a mensagem de seu criador, ou seja, uma pequena apologia à guerra, com uma palavrinha escrita em inglês para deixar a coisa toda mais fashion.

A cilada de Marsili —como o de muitos dessa trupe violenta que confunde banalidade com sabedoria — é que às vezes ele esbarra em coisas que fazem algum sentido. Por exemplo, ele defende exercício físico como algo para combater ansiedade, algo que a ciência já reconhece há bastante tempo. Ótimo. Só que, infelizmente, o bom conselho vem junto com analogias falsas, como dizer que, se você não tem forças para erguer um halteres, então não conseguirá tirar o peso subjetivo de sua vida. Talvez seja por isso que o Dalai Lama é tão bombado…

Os bons conselhos, como o de praticar exercício, não explicam a fama de Marsili, no entanto. Digo isso porque seus argumentos a favor da atividade física só ganharam notoriedade pela maneira como são defendidos. Ou seja, de forma agressiva e enfática, tentando trazer uma potência que retomaria algum ideal perdido de macho.

Esse tema da superioridade masculina, diga-se de passagem, está sempre à espreita em seu discurso. Por exemplo: ele criticou Sergio Moro, em conversa com Eduardo Bolsonaro, dizendo que o comportamento do ex-ministro não foi coisa de "sujeito homem". O irônico é que pouco antes ele se descrevia como um analista de comportamento. E, por isso, vale um aviso: não há conceito científico para definir, assim desse jeito, o que seriam coisas de sujeito homem. Esse comentário é simplesmente político, nada científico, nada médico. Fico até pensando se o charuto que Marsili mantém na boca não seria uma tentativa de mandar essa mensagem subliminar fálica.

Talvez essa seja a sedução de Marsili: ele simplifica o mundo e dá um lugar de destaque ao macho médio que o segue. Enquanto ele grita que todos são ordinários e que deveriam se portar como tal, o seu gado se sente ouvido e paradoxalmente se sente especial por reconhecer uma "verdade dolorida". Uma velha psicologia das massas que, como ensinou Freud, se regozija ao encontrar um inimigo para chamar de seu. Que, no caso no caso de Marsili, parecem ser alguns ideais mais progressistas, como o feminismo.

É um perfil sedutor para alguns, mas não vou me perder em aspectos psicológicos de seus seguidores, nem mesmo dele. Vou apenas comentar um dos seus vídeos mais vis, em que ele diz que o fracasso da democracia moderna se deveria ao voto feminino. O problema, ele comenta, é que as mulheres são facilmente seduzíveis, o que faria com que os políticos todos tenham uma saída fácil para suas campanhas: o charme.

É o que explicaria a eleição do Collor, na visão dele. Mas que ele pense então que Dilma e Lula sejam figuras charmosas, chego a achar engraçado. Que ele não veja que o mesmo argumento deveria tirar o mérito de seu herói, Jair Bolsonaro (que também venceu, ainda que com margem menor, entre as mulheres), eu não entendo.

O argumento é tão vil que é difícil debatê-lo. Um contraponto pode ser a popularidade de líderes pouco apessoados. E até mesmo a eleição passada pode servir de contraprova. Ora, é difícil imaginar que Haddad não teria seduzido mais do que Bolsonaro (desculpem, mas o petista é bonito).

De novo, a popularidade das falas de Marsili se deve ao choque produzido por suas afirmações e não por sua relação com a verdade. É uma pena, porque, atrás da afirmação absurda do médico-coach, há pesquisas interessantes sobre os efeitos de beleza. Sabemos, por exemplo, que a beleza de alguém que está sendo julgado afeta como um júri tende a condená-lo. Pessoas mais bonitas tendem a receber sentenças menores. O efeito é mais comum quando as mulheres são as ofensoras, o que não pinta uma boa luz à retórica de Marsili. É claro que não. Afinal, ciência é o que se faz quando não deixamos que nossos desejos individuais tomem conta das conclusões.

Fama na internet, por sua vez, se conquista quando você encontra uma plateia cativa e quando, muitas vezes, fica gritando com ela. Essa é, do meu ponto de vista, a maior tragédia da comunicação moderna. Trocamos sensatez por berros. Mas qualquer pessoa atenta pode reconhecer: as grandes verdades precisam ser sussurradas.

Olha, que pessoas como Ítalo Marsili ganhem palco na internet e fiquem ricas com seus programas de coaching sem base científica é ruim, mas é o preço da liberdade de expressão. Já que alguém como ele, sem o preparo técnico adequado, seja cotado para o comando da Saúde do país, especialmente neste momento, é inadmissível.

As políticas públicas em saúde (mental ou física) precisam ser baseadas em evidências científicas. Qualquer coisa menos do que isso é um desserviço à população. O Brasil merece o que há de melhor: ciência

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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