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Precisamos segurar nossas próprias dores com carinho. Mas como é difícil!

Dan Josua

23/07/2020 04h00

Crédito: iStock

"Podem abrir os olhos", disse o palestrante. Então, em um auditório com umas 200 pessoas, ele notou os soluços engolidos da mulher na plateia, se sentou ao seu lado e perguntou:

— Há quanto tempo você carrega essa dor?

A vida toda. Desde que era uma menina e não conseguia entender a distância e a frieza da minha mãe, ou a irritação e a impaciência do pai. Às vezes acho que tem algo estragado em mim.

— E você quer se livrar dessa dor?, perguntou.

"Quem quer carregar um fardo desses", ela respondeu sem palavras, apenas anuindo silenciosamente com a cabeça, enquanto ainda brigava com a própria respiração.

— Você tem filhos?, ele perguntou aparentemente mudando de assunto.

— Um menino de 4 anos.

— Eu vou retirar a sua dor. Sou terapeuta há tanto tempo que me tornei praticamente um mago ele começou a dizer com doçura e sem provocar nenhuma risada. "Só tem um detalhe. Um dia seu filho vai chegar em casa com uma dor parecida. É um ser humano e em algum momento a vida ainda vai bater nele. E ele vai se perguntar por que foi rejeitado, por que é burro ou por que não é digno de amor. Se eu tirar a sua dor agora, você não vai entender nada do que ele estará falando. Vai sorrir e pedir para ele não pensar nisso. Sentindo-se ainda mais solitário, ele irá para o quarto. Vai fechar a porta para sofrer sozinho. Exatamente como você, seu filho esconderá a dor e a carregará pela vida inteira. Vai se casar e ter filhos e sorrir para a foto — como você. Mas, por dentro, sempre haverá uma luta e uma vergonha de quem se imagina a única pessoa a se sentir desse jeito."

O rosto dela se contorceu. Mesmo sabendo que ele não poderia tirar a dor de ninguém, ela afastou um pouco sua cadeira.

— Não. Eu prefiro ficar com a dor.

O palestrante sorriu sem mostrar os dentes e voltou para o palco. A aula seguiu sem mais qualquer comentário do assunto.

Nada precisou ser dito, pois o óbvio já estava no ar. A moça da plateia não estava quebrada, não precisava de concerto. A cicatriz, a dor, não fazia dela menos, nem mais. Sofrer é o custo de ser humano. E acolher o nosso sofrimento é abrir espaço para que outras pessoas possam se sentir perto da gente.

Não beijamos o machucado de uma criança porque acreditamos que isso ajuda na cicatrização. Fazemos isso para lembrar: aqui há cuidado.

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O texto poderia terminar no parágrafo acima. Para bom entendedor, meia palavra basta, etecétera e tal. Mas, me desculpem, eu vou martelar essa ideia.

O ponto todo é perceber como aprendemos a nos sentir sozinhos, imaginando que a dor é apenas nossa. E que só seremos aceitos quando jogarmos essa dor para dentro e aprendermos a sorrir para a foto.

Mas aí alguém vem e nos lembra das pessoas que amamos. Nos lembra que elas também podem estar usando as suas máscaras. E tudo fica óbvio: não queremos que elas escondam nada. As dores delas nos convidam a cuidar e não a punir. Raramente condenamos essas pessoas queridas por suas fragilidades. Ao contrário, tendemos a sentir uma aproximação.

Pare para pensar: de quem você se sente mais próximo, de quem tem apenas risadas e boas notícias para dar ou de quem lhe confessou uma fraqueza em uma madrugada qualquer? Pertencer, no final das contas, é poder ser simplesmente humano com alguém.

Para isso precisamos segurar nossas próprias dores com carinho. Mas como é difícil.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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