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Superstições e a cloroquina: entenda o que ambas têm em comum

Dan Josua

09/07/2020 04h00

Crédito: iStock

Você já parou para pensar por que tantos povos desenvolveram rituais para fazer chover? Desde a dança da chuva — conhecida por ser performada pelos nativos da América do Norte, mas comum em cerimônias de algumas tribos africanas e religiões eslavas e romenas –, a necessidade de criar rituais para atrair a chuva é diretamente relacionada com a importância da água para irrigar o solo. Infelizmente, uma coreografia, por mais bela que seja, não tem o poder de fazer cair água do céu.

Nenhum ser humano faz chover com seus movimentos na terra. Mas os povos que desenvolveram esses rituais acreditam que eles funcionam em parte porque continuam dançando até a chuva começar (outros fenômenos sociais importantes, que não podemos aprofundar aqui, ajudam a sustentar o ritual). A dança obviamente não a provoca, mas a proximidade temporal dá a impressão de que sim.

E o fenômeno se repete em situações nossas, as mais corriqueiras. Por exemplo, posso apostar, em 99,9% dos voos comerciais. Eu sou um desses passageiros que costumam rezar para o avião não cair logo que escuto um barulhinho estranho vindo da asa. Mas, na certa, não são as minhas palavras dirigidas aos céus que me protegem. Ora, vamos lá, eu com certeza não mereço mais proteção do que todas as pessoas, inclusive crianças, que faleceram em acidentes aéreos.

Independentemente do meu mérito pessoal, meu avião segue voando porque foi bem construído e é, não importa o que digam os fóbicos, um meio de transporte extremamente seguro. Racionalmente eu até sei disso, mas, pelo sim pelo não, continuo rezando a cada barulhinho. Eu aprendi esse hábito, por assim dizer, por ter ficado seguro depois do ritual e não por uma inexistente relação de causa e efeito entre a reza e o avião.

São esses os atos que a Psicologia chama de supersticiosos. Para se ter ideia, esses comportamentos foram observados até mesmo em experimentos com animais. E, se você acompanhou o noticiário nesta semana, viu uma série de exemplos importantes vindos do Planalto.

O presidente Bolsonaro, afinal de contas, testou positivo para a covid-19. E já afirmou que está tomando hidroxicloroquina. Caso ele melhore —como, atenção, acontece com mais de 90% das pessoas que se infectaram com o novo coronavírus, independentemente do tratamento —, ele e seus apoiadores deverão usar isso como suposta evidência de que a medicação seria eficaz para pacientes com covid-19, o que já foi descartado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), já que não há evidência científica que comprove esse benefício.

Na realidade, caso ele melhore de fato, saberemos apenas de uma correlação: ele tomou o remédio e melhorou. Ponto. Da mesma maneira como alguns povos dançam e chove. Mas não poderemos dizer com essa informação que ele melhorou porque tomou cloroquina. Ou que choveu porque os nativos dançaram. O mesmo vale para outras falas de Bolsonaro que são contra todo o conhecimento científico, como quando ele afirmou que não corria riscos por conta de seu histórico de atleta.

A questão toda, do ponto de vista psicológico, é que é extremamente difícil sairmos da nossa experiência pessoal para entendermos o mundo. E, se estamos presos apenas ao nosso ponto de vista, é impossível saber o que é superstição e o que de fato causa mudanças nesse mesmo mundo.

Boa parte dos esforços da ciência são justamente para garantir resultados que fujam dessa armadilha. É sempre demorado e caro. Exige profissionais treinados e os famosos ensaios clínicos randomizados com duplo cego, que são mesmo complicados.

Nestes tempos, em que a mera superstição recebe rótulos de "eu avisei", precisamos fazer uma defesa reforçada da ciência. Correlação não é causalidade, sempre repetem os bons pesquisadores. Está na hora de também repetirmos isso como um mantra. Caso contrário, se duvidar, corremos o risco de sairmos para dançar contra um vírus. O qual, ao contrário da chuva que é indiferente aos nossos movimentos, pode nos impactar de maneiras muito diversas, dependendo do que a gente fizer.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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