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Blog do Dan Josua

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Histórico

Quando a lembrança é de um corpo inteiro

Dan Josua

2005-07-20T18:04:00

05/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Pisar dentro desse hospital já dispara o meu peito. Passo o álcool gel nas palmas das mãos e o produto parece uma segunda camada de pele. Essa sensação traz à tona imagens fortes da minha filha, quase raquítica com 1,5 kg,  sendo alimentada por um pequeno tubo saindo de seu nariz. Meu coração acelera um pouco mais e minhas mãos começam a suar através da camada de álcool. Esse lugar traz, consigo, a mesma falta de ar que eu senti quando a minha filha ficou internada ali. 

Não esqueci do período no hospital, como eu poderia? Mas, distante no tempo, vendo a minha filha se desenvolvendo saudável, a lembrança em geral é apenas isso: uma memória. Às vezes, até parece que aconteceu com outra pessoa. No dia a dia, ela basicamente se resume à capacidade de descrever o que aconteceu nas três semanas em que a minha filha esteve na UTI neonatal. Uma imagem que até pode estar na minha cabeça, mas não me invade em qualquer instante. 

No hospital, porém, essa memória ganha corpo (viram sensações). Ganha detalhes e vida. Eu revivo o medo que eu senti durante aquelas três semanas. Quase volto no tempo — é a minha triste versão das madeleines de Proust. 

A memória tradicional, a maneira como podemos citar o nosso número de telefone, funciona a partir de um mecanismo diferente dessa memória mais gutural. Até mesmo anatomicamente, essas duas memórias estão situadas em regiões diferentes do cérebro. 

A minha filha correndo risco de vida foi a experiência mais dolorosa que já vivi. Diante desse tipo de sofrimento, meu corpo foi associando tudo o que acontecia a minha volta com a dor que eu estou sentindo. O "bip" do monitor passou a significar a falta de ar da minha filha. 

Do ponto de vista da seleção natural, é fundamental que seja assim. Nossos ancestrais, para sobreviver, precisavam partir de uma concepção fatalista. Os animais que respondiam à visão de uma moita se mexendo como se estivessem diante do próprio predador ganhavam alguns segundos preciosos para fugir. E, assim, aumentavam suas chances de sobreviver, e passar essa "cosmovisão" pessimista para frente. 

Eu estou respondendo ao bip do monitor como uma presa responde à mata se mexendo – pelo sim, pelo não, é melhor se preparar para fugir (isto é, sentir medo).

Somos todos herdeiros desses genes que ensinam a temer. 

Milhares de anos adiante, em um mundo onde esse aprendizado já não é mais tão necessário, estou tremendo na frente de uma porta de hospital quase um ano após minha filha ter recebido alta. Minha racionalidade sabe que não há nada a temer, o perigo já passou. Mas meu coração está acelerado mesmo assim. O que eu posso fazer é respirar fundo e esperar passar. Deixar meu corpo, aos poucos, entender que aquelas paredes, hoje, são apenas paredes.  

Conto até três, escrevo este texto  e espero que meu corpo volte ao normal. Espero que aquilo que eu e minha família vivemos volte a ser apenas uma memória triste. Espero pacientemente enquanto o meu coração grita: "perigo". A garganta com um nó que se transforma em lágrimas. 

Trinta minutos depois, o hospital é só um prédio. E eu sou o pai orgulhoso de uma menina saudável. Com o meu peito calmo, posso lembrar da minha filha pelo que ela é hoje. Posso sorrir, levantar e seguir meu dia. 

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.