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Blog do Dan Josua

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Histórico

A armadilha do propósito: ele nem sempre está em feitos grandiosos

Dan Josua

02/08/2018 04h00

Crédito: iStock

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Para que você veio para essa terra? Qual marca você vai deixar quando for embora?

Somos empurrados por gurus e sabichões a responder a essas perguntas como se nela estivesse a solução para as nossas angústias. Mas esses questionamentos (frequentemente) escondem uma ideologia perigosa: a ideia de que uma vida valiosa exige um propósito.

E, nesses embaralhamentos do mundo moderno, confundimos propósito com carreira e carreira com trabalho. No meio dessa trilha, nos vemos perdidos, procurando no trabalho a definição de quem somos. Como se esse fosse, necessariamente, o lugar onde procurar uma coisa dessas.

E, de fato, para algumas pessoas, a angústia que vem dessas perguntas produz um movimento interessante. Elas são impelidas a abandonar seu emprego glamuroso e milionário em uma cobertura em bairro nobre para advogar a favor de direitos ambientais na Amazônia – ou algo do gênero. São pessoas que abandonam remuneração em prol de ideais e, ao largar seu  status de sucesso e poder, se vêem felizes. São capazes de se encontrar nessa dimensão e de achar sua paz suando a testa para construir um mundo melhor.

Mas… e as pessoas que não trabalham por paixão, mas pela família, pelo dinheiro ou por outra coisa mundana? É necessário que todo(a) advogado(a), contador(a), secretário(a), médico(a), psicólogo(a), empregado(a) doméstico, jornalista ou economista seja realizado(a) no trabalho? Não podemos acordar, ir trabalhar, e encontrar nosso propósito nos esperando em casa? No sorriso de um(a) filho(a) ou no abraço de um(a) companheir(a)? Nosso propósito não pode estar na risada sincera com os amigos no bar?

É óbvio que sim.

Mais que isso, é muito frequente que sim. O propósito nem sempre precisa vir de algo grandioso. Pelo contrário, as pessoas mais saudáveis que eu conheço são aquelas que procuram por seus valores no dia a dia.

Pergunte-se: quão importante para você é sua família, são seus amigos ou é sua espiritualidade ? Depois se pergunte sobre o seu sucesso e desenvolvimento profissional. E, se eu posso ser audacioso para dar um conselho, aceite a sua resposta, seja ela qual for. Não há nada de errado em encontrar propósito nas coisas mais simples do mundo.

Afinal, não existe uma hierarquia a priori para esses valores – eles valem o quanto VOCÊ decidir que valem.

E, talvez, aceite largar a caneta e esquecer da promoção. Talvez, esqueça até da floresta amazônica. E, no lugar disso, chegue em casa e preste a atenção no sorriso do(a) seu (sua) filho(a). Abra o WhatsApp e chame os amigos para o bar – sinta a barriga doendo de tanto rir. Vá a pé para casa, sem música, e sinta a sua conexão com o universo, com (seu) Deus ou com as pessoas a sua volta.

Descubra qual é o valor que lhe importa. Ache as ações cotidianas que te aproximam desse valor.

E respire fundo, porque esse talvez seja o verdadeiro propósito. Somos apenas poeira estelar viajando a 107 200 quilômetros por hora em uma rocha flutuando no vazio. E, perdidos no meio de tanta gente, temos o direito de escolher o que NOS importa.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.