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Blog do Dan Josua

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Histórico

Chantagem emocional: uma origem do sentimento de culpa

Dan Josua

24/01/2019 04h00

Crédito: istock

"Se você não fizer o que eu estou pedindo, eu vou ficar chateado."

Eu confesso: já fiz pedidos dessa forma. Fiz sem perceber a ameaça escondida. Estava tentando aproveitar do carinho que uma pessoa tinha por mim, o fato de ela me querer bem, para ter minha vontade atendida.

É claro que não planejei agir assim conscientemente, não decidi maquiavelicamente fazer mal a alguém. Mas, de qualquer maneira, foi isso o que eu acabei fazendo.

Ao pedir dessa forma, tirei a chance de a pessoa me ajudar com prazer. Fiz com que a motivação dela fosse a retirada do meu sofrimento e não o pedido em si. Em outras palavras, deixei que a culpa tomasse conta do jogo. 

Eu também fui vítima de frases como essas — quem não foi? Essas falas são tão comuns na nossa vida que mal conseguimos perceber que elas de fato trazem um grande problema. E o problema, no caso, é que ajudam a construir uma cultura de pessoas que agem motivadas pelos sentimentos dos outros. 

Esse tipo de motivação faz com que se sintam cronicamente insatisfeitas porque estão em boa parte do tempo tentando agradar e fazer tudo do jeito certo. E, no meio do jogo do certo e do errado, acabam esquecendo de se perguntar o que querem para deixar a vida delas próprias mais incrível. São milhões de pessoas que ainda não têm certeza do que gostam ou do que querem fazer da vida. 

Mais ainda:  agir em resposta a pequenas chantagens emocionais do dia a dia é  um problema porque esse comportamento nos tira a responsabilidade pelos nossos sentimentos. Afinal, se eu preciso fazer tanta coisa por culpa, quem sabe alguém igualmente cuidará do meu próprio sofrimento.

Assim, ao mesmo passo em que perpetuamos a situação jogando a culpa para frente, as ferramentas que poderiam ser aprendidas para cuidar do nosso próprio sofrimento são entregues nas mãos de outras pessoas. Culpamos aos outros se eles, diferentemente de nós, não se preocupam em afastar o que nos faz sofrer e deixamos de lado a responsabilidade de aprender a cuidar, nós mesmos, do nosso sofrimento.

A solução não é deixar de falar de sentimentos, mas arrancar essa noção de que eles são responsabilidade de outra pessoa. Por exemplo, quando alguém é duro com nosso trabalho, podemos ficar chateados. É natural que seja assim, somos seres humanos e não gostamos de ser atacados. Não conseguimos mudar esse sentimento, mas podemos retirar a responsabilidade de quem nos criticou. Se, por um lado, gostaríamos de mais delicadeza nas críticas, seria inútil exigir que o mundo se dobrasse às nossas preferências. 

Cabe ao ofendido, apenas, respirar fundo e se lembrar por que decidiu fazer esse trabalho. Sabe por que reagir assim?  Porque quando fazemos isso, de repente, os meus sentimentos ou os dos outros saem do primeiro plano. E o mesmo raciocínio cabe na hora de atender a um pedido de quem ficaria chateado diante da nossa recusa. Lembrar o porquê de atendê-lo ou não. Saindo os sentimentos do primeiro plano do jogo, resta o que de fato achamos importante na vida —  com as dores e as delícias que as coisas importantes podem trazer.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.