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Marquezine se irrita com haters: por que as pessoas atacam na internet?

Dan Josua

14/03/2019 04h00

Crédito: Iwi Onodera/Brazil News

Essa semana, no twitter, Bruna Marquezine desabafou sobre não entender toda a agressividade que as pessoas dirigem a ela na internet. O "hate", como é conhecida essa ação, é muito comum no mundo virtual, principalmente com famosos, e existem alguns motivos para isso.

A Bruna Marquezine não tem a menor ideia de quem eu ou você somos. Mas ela já foi assunto em conversas minhas e, provavelmente, nas suas também. Talvez você estivesse reclamando da falta de concentração do Neymar em uma partida da Seleção — "culpa da Marquezine". Talvez você tenha criticado o comportamento dela comparando-o com o de outra atriz jovem e bonita do momento. Esses comentários são estranhos e até cruéis, mas a gente se perdoa assim que eles saem da nossa boca. 

"Ela nem sabe que eu existo, ela nem sabe o que eu penso. Isso não tem como machucá-la", pensamos. Mas, no fundo, temos noção de que criamos uma cultura de difamação e ofensas que não gostaríamos de legar para nossos filhos e filhas. 

Mais do que isso, os famosos não vivem mais isolados, ignorantes dos nossos comentários. Infelizmente, existe esse negócio de mídia social. Essa coisa da internet onde qualquer pessoa com acesso a um computador tem o poder da palavra. Esse lugar onde tantos de nós aproveitam para ser agressivos e tolos com gente que nem conhecemos.

Essa semana, no Twitter, a Bruna Marquezine disse que não entende toda essa agressividade online. Deve ser mesmo exaustivo ser alvo de tanto ódio — eu, que recebo um ou dois comentários raivosos neste blog, já perdi noites de sono por conta disso. Mal posso imaginar a profundidade do buraco em que pessoas como ela às vezes se encontram… 

A Marquezine disse o que tanta gente também sente: "tenho muita dificuldade para entender como a maneira que uma pessoa leva a vida ou o seu corpo, ou  sua aparência (…) ou até a sua personalidade podem ofender e gerar tanta raiva".

Quer saber? Eu acho as perguntas da Bruna Marquezine super válidas. Afinal, por que as pessoas podem ser tão cruéis na internet?

Para compreender isso, precisamos entender (pelo menos) duas coisas: 

  1. 1. Por que as pessoas falam coisas cruéis e que tipo de coisa os haters dizem?
  2. 2. Por que a internet é um terreno fértil para esse ódio?

Por que as pessoas falam coisas cruéis e que tipo de coisa os haters dizem?

É claro que as pessoas falam coisas maldosas por inúmeras razões — e eu não seria capaz de esgotá-las aqui. De qualquer maneira, as motivações podem ser divididas em dois grandes campos: uma fala agressiva que gera um ganho no grupo em que o indivíduo está inserida e uma fala que gera esse ganho em si próprio.

O ganho no grupo é razoavelmente fácil de ser reconhecido. Frequentemente, o que nos une é um inimigo em comum. Nazistas se uniram para "purificar" a Alemanha de uma ameaça judia. Não importava o fato de que a ameaça nunca foi real e que os judeus representavam menos de 1% da população alemã da época. A questão é que, na identidade de grupo, a reunião em oposição a um inimigo é frequentemente uma arma poderosa. 

Um inimigo dá alguma coisa contra a qual é possível batalhar  em conjunto. Um oponente dá um objeto para as nossas frustrações e raivas contidas. E como é bom encontrar alguém que está sofrendo das mesmas faltas e que está disposto a se unir conosco contra esse inimigo em comum.

O ganho da própria pessoa talvez seja mais difícil de descrever. O primeiro passo provavelmente é reconhecer qual é o tema dos nossos ataques, até aqueles que ficam presos em nossos pensamentos. Em geral, atacamos nos outros as fragilidades que resistimos em aceitar em nós mesmos. Usamos o adjetivo "burro" quando o nosso medo é de que não seremos amáveis a menos que sejamos inteligentes. A palavra "feio" sai da boca de quem tem receio de precisar de sua aparência para ser admirado. E assim por diante. 

Tentamos humilhar as pessoas com as ofensas das quais estamos tentando nos proteger. Nossa mente nos coloca em uma posição esquisita em que a feiura de outra pessoa serve de capa protetora para as nossas inseguranças em relação à própria beleza.

Por que a internet é um terreno fértil para esse ódio?

Na nossa vida, no dia a dia, a ofensa tem uma baliza natural: o efeito e a reação que ela causa nos outros. Para a maior parte dos seres humanos é inato sofrer com a dor que vemos no outro. Nascemos com a capacidade da empatia. Ofender alguém na cara teria como consequência, no mínimo, ter que lidar com o sofrimento que estamos causando. 

Além disso, com frequência, ao vivo e em cores, a pessoa pode atacar de volta. Ela  talvez nos conheça e possa dar o troco. Ah, se  o objetivo de humilhar alguém tem como  base uma tentativa de esconder nossas fragilidades, claro que não seria prudente fazer isso com quem é capaz de revidar. Se eu digo para o outro bem ao meu lado que ele está feio, corro o risco de ouvir descrições precisas da minha crescente barriga de pai, por exemplo. Ou de tomar um soco na cara.

Na internet, porém,  não corremos nenhum desses riscos. Podemos deixar nosso veneno fluir com muito mais liberdade. Estamos protegidos atrás da tela e do anonimato. As redes sociais se tornaram um lugar de ataques, onde me aproximo de um monte de outras pessoas que acham que agredir é natural. 

Com frequência vejo isso justificado como se esse fosse o preço que uma pessoa tem a pagar pela sua fama e dinheiro. Mas isso só denuncia uma coisa: o ressentimento do agressor. Denuncia a verdadeira pergunta insistente na cabeça de quem ataca: "por que essa pessoa merece tudo isso enquanto eu vivo a minha vidinha anônima e sem importância?"

Talvez seja a pergunta mais importante dessa história toda. A resposta a essa indagação é óbvia: ela não merece nada a mais nem a menos do que você. Todos nós, seres humanos perdidos e isolados nesse monte de terra viajando no nada, merecemos ser amados e respeitados. Merecemos dignidade e renda. Somos importantes.

No entanto, esse mundo é duro. E dói pra caramba admitir isso. Infelizmente, tentar quebrar o espírito da Bruna Marquezine, ou de quem for, não vai deixar o mundo um grama mais justo. Pelo contrário, só fazemos dele um pouco pior.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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