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Blog do Dan Josua

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Quais são os verdadeiros perigos dos vídeogames?

Dan Josua

2018-04-20T19:04:00

18/04/2019 04h00

Crédito: iStock

Na semana passada, pela primeira vez na vida, eu apareci na televisão. Fui convidado para falar sobre a influência de videogames violentos no comportamento dos jovens. No fundo, a intenção básica do programa era saber se esses jogos poderiam levar adolescentes a chacinar colegas em ataques como o de Suzano.

A resposta para esse pergunta — e acho que tive a lucidez de transmitir isso com clareza,  apesar do meu nervosismo – é que não. Jogos violentos não causam comportamentos violentos na vida real. Os milhões de adolescentes que passam as tardes comemorando que acertaram a cabeça virtual de seus inimigos não estão mais propensos a atos de agressividade dessa natureza do que outras pessoas.

Isso não quer dizer, no entanto, que videogames são inócuos e que não podem causar mal. Em primeiro lugar, é fundamental atentar para a classificação indicativa do jogo e não permitir que crianças joguem aqueles que foram feitos para adultos, por exemplo.

Um segundo ponto de atenção —e essa é uma das razões por que esses jogos são tão populares—, é que eles às vezes  promovem uma sensação inflacionada de capacidade em seus jogadores, na medida em que  são muito desafiadores, mas passíveis de serem vencidos.

Alguns jogos aumentam a irritabilidade justamente por conta da frustração inerente ao fracasso nesses desafios. Um experimento mostrou que um jogo não violento — no caso, o clássico Tetris —causava tantos comportamentos irritadiços em seus jogadores se a vitória era dificultada, quanto os cientistas encontraram entre praticantes de videogames cheios de tiro. Ou seja, sempre é possível que um jogo aumente a irritabilidade, mesmo que o seu tema seja absolutamente pacífico.

Por fim — e esta foi a informação que não consegui transmitir na minha estreia na telinha—, alguns jogos são perigosos para jovens devido aos mecanismos usados para mantê-lo gastando. Eu me refiro àqueles que oferecem compras dentro do app e que são  programados para deixar as pessoas viciadas e constantemente pagando para avançar etapas. É o caso de muitos dos jogos que você pode baixar gratuitamente em celulares e tablets.

Esses programas, que aparentemente podem parecer inócuos, lançam a possibilidade de os jogadores investirem sempre 1 ou 2 reais comprando um de seus baús ou pacotes de prêmios. Vez ou outra, esses baús entregam prêmios altamente valiosos , aumentando a chance de o jogador voltar a fazer compras na esperança de dar essa sorte rara. É o mesmo mecanismo de jogos de azar, como o pôquer.

A recomendação que costumo dar a pacientes que são pais –e a que pretendo seguir à risca aqui em casa– é a de que evitem comprar esses pacotes para os seus filhos. Muito menos deixem que eles tenham autonomia para acessar os seus cartões de crédito e comprar esses baús à vontade. Sua conta do banco vai sofrer. E, pior ainda, seu filho estará sujeito a um mecanismo que pode ser altamente viciante de compra e premiação.

Para questões envolvendo os videogames, como com quase tudo na vida, a resposta é complicada. Nem sempre o perigo real está onde a gente imagina que ele esteja. Em excesso, como qualquer outra coisa, jogar esses games poderá ser muito danoso. No entanto, mais do que isso, muitos dos perigos podem estar escondidos, como tentei mostrar com o exemplo deste texto.

Por outro lado —  e pouca gente fala disso—, existe uma relação clara entre o uso de videogames e a melhora em algumas tarefas cognitivas ligadas à atenção e à memória visual.

De qualquer maneira, a regra de ouro no tema parece ser: esteja atento ao seu filho. E se pergunte como está a vida real dele. Mais: até que ponto a vida virtual é um passatempo e até que ponto pode ser uma fuga dessa vida real. Sempre que a vida virtual estiver excessiva ou funcionando como um escape constante dos problemas da vida, valerá uma atenção redobrada.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.