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Blog do Dan Josua

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Nove dicas na hora de procurar terapia

Dan Josua

09/05/2019 04h00

As dicas que seguem são as que eu gostaria de ter ouvido quando, com 17 anos, iniciei a minha primeira terapia. Talvez muito dinheiro e sofrimento teriam sido poupados se eu soubesse o que eu poderia exigir dela. Espero que esse pequeno texto possa ajudá-lo a não ficar refém de um tratamento que não é o certo para você. 

Muitos dos meus colegas vão discordar dessas minhas dicas. Muitas das críticas que eles fariam a este texto vêm de visões de mundo completamente diferentes sobre o papel da terapia na vida das pessoas. Alguns de meus colegas acreditam, por exemplo, que o psicoterapeuta não deve se comprometer com a redução do sofrimento do paciente — para eles, essa melhora deveria ser fruto apenas dos esforços do próprio paciente, e não alvo direto da terapia. 

Eu não conseguiria trabalhar desse jeito. Mais importante ainda é que eu não gostaria de ser paciente em uma terapia dessas. Minha posição é bem simples:  a terapia tem uma função clara que é ajudar os pacientes a tocarem suas vidas de uma forma melhor. É impossível eliminar a dor da existência, mas é fundamental, na minha concepção de terapia, ajudar o paciente a sair das areias movediças do seu sofrimento para caminhar em direção a uma vida valiosa.

Eu não vou entrar, aqui, no debate teórico que sustenta a minha posição. Acima de tudo, este texto é pessoal, É a mensagem honesta que eu gostaria de ter ouvido quando ainda não conhecia o mundo da psicoterapia. 

Espero que minhas dicas possam ajudar.

1. O seu terapeuta pode ajudá-lo a entender o que seria uma vida melhor para você. Pode problematizar algumas construções automáticas que você trouxe para o consultório. Ele NÃO PODE, contudo, em hipótese alguma, dizer qual seria essa vida melhor. Ele NÃO DEVE, por exemplo, dizer que uma orientação sexual ou outra seria melhor para você. Em última instância, os seus valores, esses princípios que devem guiar essa sua boa vida, devem vir de você. Esse norte é você quem traz para terapia. O terapeuta pode, no máximo, ajudar a calibrar a sua bússola.

2. Você tem algum objetivo ao decidir fazer uma terapia? Você se sente ansioso, deprimido ou algo assim? Ou quer apenas mergulhar em uma viagem de autodescobrimento? Veja, objetivos diferentes levam um bom profissional a traçar rotas bastante diferentes para o seu tratamento.

3. Talvez você ainda não saiba o que você busca da terapia. Tudo bem, isso é natural. Você não é o especialista no assunto, não precisa chegar com respostas. Fale de suas dúvidas, então, e descubra qual a visão de terapia que o profissional à sua frente sustenta. Daí reflita: esse caminho parece interessante?

4. Depois de entender qual o melhor caminho para você, sinta-se à vontade para conversar sobre essas diferentes rotas. Pergunte ao profissional com honestidade: você é um bom terapeuta para me ajudar nessa rota que é importante para mim? Por exemplo, você pode estar atrás de um tratamento razoavelmente rápido para as suas crises de pânico. Cabe perguntar abertamente ao profissional: você é a pessoa certa para isso? Se não for, você pode indicar alguém que seja?

5. O seu psicólogo está preocupado com a sua melhora? Então, descubra: como essa melhora vai ser avaliada? Com base na avaliação subjetiva do terapeuta? Ou é você quem vai ser capaz de fazer essa consideração – e, nesse caso, como você vai desenvolver essa habilidade diagnóstica na terapia? O seu terapeuta considera usar instrumentos padronizados,ou seja, testes psicológicos? Ou prefere o uso de um instrumento especial sob medida para o seu caso, estratégia comum em casos de fumantes que querem diminuir o número de cigarros, por exemplo? De tempos em tempos, essa avaliação da sua melhora pode e deve ser discutida de forma transparente na terapia. É importante que o seu terapeuta saiba justificar a posição dele, saiba dizer se você está melhorando ou não (e por que). É fundamental que a justificativa pareça convincente para você.

6. Não é preciso esperar meses ou anos para saber o que você sente da terapia. Alguns estudos, feitos com profissionais de diferentes abordagens da psicologia, mostram que o principal efeito da terapia geralmente ocorre nas oito primeiras sessões. É lógico que isso pode variar dependendo da pessoa e da gravidade do caso — não é uma regra absoluta. De qualquer maneira, oito sessões são um limite bastante generoso para saber se o processo está caminhando. Para amigos, eu costumo dizer que não se deve dar mais do que três ou quatro sessões para saber se determinada terapia faz sentido para eles. Esse, no meu ponto de vista, é o limite para saber se a relação terapêutica deu aquele "click". 

7. Você se sente escutado como um ser humano único? O seu terapeuta é empático em suas respostas e parece atento ao que você está dizendo? Ou você se sente como apenas mais um compromisso na agenda dele? Caso a resposta para esta última questão seja afirmativa, vale comentar sobre essa distância. E então notar: o seu terapeuta o ataca, ou escuta e elabora um plano para resolver essa questão entre vocês dois? Se você se sentir constantemente julgado pelo profissional que o atende, vai ser difícil construir uma aliança terapêutica que possa permitir um processo que, de fato, vá ajudá-lo na sua jornada.

8. Os efeitos da terapia precisam se estender para além dos 50 ou 60 minutos da sua sessão. Isto é, a terapia precisa servir para a sua vida real, fora do consultório. Por isso, é fundamental se perguntar se essas sessões estão mudando a maneira como você leva o seu dia a dia. Muitas vezes, a terapia é interessante, as consultas são 50 minutos incríveis, mas a nossa rotina e a relação com a nossa vida permanecem as mesmas. É fundamental, no caso, repensar o rumo da terapia.

9 . Em casos de ideação suicida severa, com planejamento ou tentativas anteriores, acho fundamental perguntar: esse terapeuta estará disponível para falar comigo além dos 50 minutos das nossas sessões? Se uma crise acontecer, esse profissional vai estar do meu lado para me dar suporte enquanto ela durar? Não deixaria que alguém que eu amo, enfrentando uma dificuldade como essa, passasse por um terapeuta que acredita que seu trabalho se limita aos 50 minutos da sua sessão.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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