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Blog do Dan Josua

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Histórico

Quanto mais tentamos esquecer algo, mais nos lembramos. O que fazer?

Dan Josua

18/07/2019 04h00

Crédito: iStock

O filósofo, como o bom aristocrata que era, tinha um funcionário que tomava conta de todas as suas finanças. Afinal, ele não queria se preocupar com as coisas pequenas do dia a dia. Não, ele queria se dedicar às grandes questões da ética e da filosofia. Por isso, não é de se estranhar que tenha demorado mais de dez anos para que pegasse os desvios que seu empregado fez nas sua finanças. 

Furioso, logo após descobrir o crime, o filósofo demitiu o velho criado e fez um compromisso solene consigo mesmo: ele se esqueceria do homem que o havia traído. Com uma organização obsessiva, escrevia em seu diário essa promessa, para garantir que não a esqueceria. Todas as manhãs, ele começava anotando: "preciso esquecer do criado que me traiu".

Na sua determinação em esquecer, o filósofo garantia que jamais esqueceria. 

Confesso que nem sei mais onde ouvi essa anedota pela primeira vez. Também não sei como a transformei ao longo dos anos e imagino que ela esteja bem diferente da versão que recebi há tanto tempo. Mesmo assim, essa história se tornou bastante importante para mim. Eu a conto com frequência para amigos e para pacientes.

Faço isso porque todos nós temos alguma memória que queremos jogar pela janela. Um episódio, por menor que seja, de humilhação na escola ou envolvendo alguém que não nos amou de volta. Ou talvez um assalto violento ou, ainda, algo que foi dito por um chefe abusivo. É difícil imaginar uma pessoa que não tenha tentado expulsar alguma imagem como essas de sua cabeça. 

Afinal, queremos nos livrar de pensamentos dolorosos. O problema é que a mente humana segue regras próprias. Não dá para se livrar de uma lembrança como nos livramos do jornal do dia anterior. Não existe um cesto de lixo para, ativamente, a jogarmos fora. Esquecer é, necessariamente, uma tarefa passiva. A cada vez que tentamos levar uma lembrança "x" qualquer para a nossa lixeira mental, precisamos entrar em contato com essa memória "x". E, desse modo, o fato "x"  é lembrado. 

Por isso, gosto de imaginar que as nossas memórias são como o fluxo de um rio. A água passa com mais força pelo caminho que mais vezes percorremos. Nós nos lembramos mais justamente do que ocupa mais o nosso tempo. O nosso impulso inicial, quando estamos em um rio que é uma memória dolorida e poderosa, com frequência é tentar segurá-lo, como se pudéssemos espalmar as mãos para impedir o caminho da água. O rio, no entanto, não pode ser segurado assim e atravessa nossos dedos insolentes. 

É preciso traçar rotas alternativas e percorrê-las. A cada passo em um novo caminho um pequeno buraco é cavado para permitir que a água comece a fluir em outra direção. De repente, com o nosso caminhar, fazemos com que, cada vez, um pouco mais da água se desvie. Ou seja, depois de muitas passagens em outras experiências da vida, o que era um poderoso rio se torna um fio d'água e o que era um fiapo se transforma no poderoso rio. Ao abandonar a tentativa de segurar o rio, podemos criar uma nova bacia hidrográfica –que, nessa metáfora, deixa o rio ou os episódios que gostaríamos de esquecer menos relevantes.

Esquecer, desse modo, é abandonar o sonho fútil de ser capaz de segurar um rio e, em vez disso, se dedicar a garantir que a água tenha novos canais para percorrer. Esquecer é, em outras palavras, não pensar no que queremos apagar e, sim, viver experiências diferentes para construir novas memórias.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.