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A face falsa da vulnerabilidade que exibimos nas redes sociais

Dan Josua

25/07/2019 04h00

Crédito: Arte UOL / Adriana Komura

A primeira vez que eu ouvi falar a respeito de vulnerabilidade, provavelmente em um livro ou apresentação da Brene Brown, pesquisadora da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, a seguinte ideia me pareceu excelente: as pessoas verdadeiramente felizes se distinguem por terem a capacidade de se mostrar vulneráveis em suas relações sociais. Em outras palavras, a autora americana pretendia dizer que pessoas felizes se deixam ver, em sua intimidade, por inteiro, com seus defeitos e suas qualidades lado a lado. 

O insight é ótimo. 

Ora, falar em vulnerabilidade é falar do custo da intimidade. Pois intimidade é permitir que alguém nos enxergue sem máscaras nem roupas, ou seja, é mostrar o que, em outras ocasiões, tentamos esconder. Não existe uma amizade verdadeira ou um casamento feliz pautado em meias-verdades. E, se somos humanos e temos defeitos, isso significa que devemos exibir nossas características menos lisonjeiras. 

A questão se torna ainda mais importante quando sabemos que, segundo um grande estudo longitudinal sobre felicidade e bem-estar, que acompanhou um bom número de pessoas durante anos, são nossas relações com os outros que vão prever a qualidade do nosso envelhecimento e a nossa satisfação com a vida. E isso mais do que dinheiro, sucesso profissional ou qualquer outra coisa.

Mas não se apresse a sair fazendo amizades a torto e a direito: não se trata de uma competição do tipo quem tem mais amigos vive mais. Duvido que a nossa existência se torne mais saudável dependendo da quantidade de seguidores que temos no Instagram, por exemplo. Mais do que a quantidade, importa a qualidade de nossas relações. O que garante nossa saúde é a troca sincera de lágrimas e risos. 

Sob esse ponto de vista, parece lógico que essa tal de vulnerabilidade, enquanto argamassa de nossas construções sociais verdadeiras, seja fundamental para a nossa felicidade. No entanto, nos últimos tempos, o termo ganhou popularidade e, com isso, foi se afastando de seu sentido original.  Em algum momento a expressão vulnerabilidade se tornou uma espécie de palavra de poder –nas mãos de alguns blogueiros, influencers e outros, ela se tornou um mantra. 

A ideia de vulnerabilidade transformou-se em certa tendência social a que devemos, em alguma medida, aderir. Deixou de ser algo para temperar as relações com as pessoas mais próximas e virou um broche simbolizando coragem. Assim, no lugar de fragilidade e intimidade, surge um outro modelo de vulnerabilidade: a propaganda de que ser vulnerável é ser forte. No entanto, é uma subversão do conceito. A vulnerabilidade que deveria ser a oportunidade de não precisar sermos melhores do que somos passou a ser uma medalha de auto-promoção e vitória, perdendo a função mais importante, que seria aproximar pessoas.

Veja a diferença na prática. 

Imagine que uma pessoa, que tem suas centenas de amigos virtuais, chega em sua casa e fala sobre seus medos e dúvidas com o seu companheiro. Os dois se escutam e podem se entender um pouco melhor. Não há nada de glorioso no conteúdo, mas lá no fundo ele traz em si uma pergunta fundamental: você vai continuar me amando se souber das partes que eu tento esconder do mundo? A intimidade de um casamento, por exemplo, é construída na resposta para essa pergunta.  E atravessar essa conversa é fortalecer essa relação. Amar de verdade é acolher essa parte frágil. Caso contrário, amamos apenas uma pobre ilusão.

Agora, imagine a mesma pessoa ao escrever ou postar um vídeo em sua página nas redes sociais afirmando que vai romper o silêncio se mostrando corajosa para expor seus medos e dúvidas. Lágrimas, talvez sigam o discurso de como é importante se mostrar vulnerável. A vulnerabilidade, então, é transformada no avesso do seu sentido original –ela vira força. E, no lugar da legítima intimidade, surgem curtidas e elogios nos comentários.

Faz sentido: as mídias sociais com frequência servem como vitrine do que queremos mostrar para o mundo. A vulnerabilidade exemplificada acima é apenas mais uma maneira de arrumar essa vitrine para conseguir aprovação por sua coragem, por exemplo. É como manter-se vestido por uma roupa que apenas imita o corpo nu. Pare para pensar: é trágico. Aquilo que deveria aproximar seres humanos imperfeitos acaba convertido em uma armadura inflexível. Uma prisão que nos protege de golpes, mas também impossibilita abraços pele com pele.

É triste imaginar que muitos dos que divulgam essa falsa vulnerabilidade acabam deixando de provar do remédio verdadeiro. Acabam trocando o prazeroso incomodo da intimidade pela vã tentativa de se apresentar da maneira correta ao mundo das mídias sociais. De um jeito que não gera críticas, mas que também não constrói amor. 

PARA SABER MAIS

A discussão de Brene Brown pode ser acompanhada em um de seus vários livros, como A Coragem de ser Imperfeito ou em uma de suas palestras no TED (com legendas em português): https://www.ted.com/talks/brene_brown_on_vulnerability?language=pt-br. 

O estudo sobre bem-estar e felicidade pode ser visto na palestra (também com legendas em português) abaixo:

https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness?language=pt-br#t-107292

Ou em inglês:

https://news.harvard.edu/gazette/story/2017/04/over-nearly-80-years-harvard-study-has-been-showing-how-to-live-a-healthy-and-happy-life/

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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