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Por que ficamos atrás de quem não quer saber da gente? Lições de um pombo

Dan Josua

01/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Confesso: é estranho que a lição tenha vindo de quem veio, mas a verdade é que isso eu aprendi com os pombos. Sim, um dos melhores insights sobre o porquê é tão difícil superar essas pessoas que não querem nada sério, que somem e reaparecem aleatoriamente, vem de eu observar o comportamento de pássaros presos em uma caixa experimental. Dá para aprender muito com simples animais nos laboratórios de psicologia.

Não, não estou dizendo que nos comportamos como esses bichos irracionais quando estamos amarrados a uma pessoa inconstante. Estou, simplesmente, contando que podemos entender as nossas ações quando as vemos refletidas em uma situação muito mais simples. Como, por exemplo, a de um pombo em uma caixa.

Veja, não se trata de um bicho qualquer, mas de uma ave que foi treinada a bicar um disco na parede da caixa onde ela vivia. O pombo aprendeu isso pois, a cada bicada no disco, ganhava uma bolota de alimento como recompensa. Dessa maneira trivial, um animal é capaz de perceber uma equação igualmente trivial –ora, esse comportamento me traz comida. Logo, o animal aprende sem precisar pensar com palavras como "se eu estiver com fome, valerá a pena bicar esse disco". Tecnicamente, dizemos que a comida reforça essa resposta de bicar. 

Esse aprendizado modifica o pombo para sempre. Sim, concretamente, essa experiência altera o cérebro do animal! No entanto, mesmo que o cérebro do pombo tenha sido modificado para sempre graças seu aprendizado, é possível fazer com que ele pare de bater tanto o seu bico na parede. Para isso, basta tirar a comida que segue à bicada. Só que o pombo, obviamente, não desiste de lutar por seu alimento de imediato. Ele está com fome, coitado. Assim, ao ver sua merecida recompensa retirada, fica indignado. Bate o bico com mais força, sacode as asas em protesto e até, alguns juram, lançam um olhar de fúria para o cientista que o acompanha do lado de fora da caixa. Passada a raiva inicial, entretanto, o pombo acaba desistindo de bicar o disco. 

Quem já tentou fazer um controle remoto com pilhas gastas funcionar entende o que o pobre animal estava passando. Nunca na minha vida eu vi alguém simplesmente desistir de ligar a TV e ir pegar mais pilha. Nada disso! Como o pombo, nós insistimos. Apertamos o botão com mais força do que seria razoável, batemos no "bumbum" do controle como se ele precisasse de uma palmada para voltar a funcionar e, às vezes, até conversamos com ele ou fazemos alguma prece silenciosa. Só depois disso tudo, desistimos de usar o controle daquele jeito e vamos ao mercado comprar pilhas novas.

A essa altura, você pode estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com aquele gatinho ou gatinha que você não consegue esquecer. Eu sei, parece que eu estou fugindo do assunto, mas juro que vamos chegar lá, só te peço um bocadinho a mais de paciência. 

Porque a verdade é que, se a pessoa simplesmente desaparecesse, a gente acabaria esquecendo ela, não é assim? Ficaria irritado, insistiria um pouco para depois, finalmente, desencanar. Na vida real, entretanto, passamos meses, anos, sem conseguir desistir da figura canalha que nos evita.

Para entender esse tempo todo que levamos até parar de procurá-la, vale a pena voltar para o pombo. Lembra como a ave aprendeu que, a cada bicada, ela ganharia um pouco de alimento? Bem, e o que aconteceria se o experimentador pulasse uma bicada e, a partir de certo momento, ela ganhasse um pouco de comida só a cada duas bicadas? A resposta é óbvia: o pombo então aprenderia que precisaria bicar o disco duas vezes para conseguir sua merecida recompensa.

Pelo mesmo processo, passado um tempo, podemos ensinar que ele precisa dar quatro bicadas no disco para ser recompensado. E assim por diante. Pois é, em alguns experimentos, os coitados dos pombos são ensinados a dar quase mil cutucadas no disco para receber uma única bolota de alimento. Imagine isso, mil bicadas para um pedacinho de nada de comida! 

Em outras experiências, o número de bicadas varia. Ou seja, o pombo nunca sabe quando o alimento virá. Ele pode ser dado a cada três bicadas ou a cada quarenta, aleatoriamente. E, quando é assim, o pombo passa a maior parte do tempo bicando, à espera de algo que ele nunca sabe ao certo quando virá. E pode ter certeza que o experimentador sabe exatamente o que está fazendo: está deixando o infeliz do animal preso na eterna expectativa de receber uma recompensa sem data certa para chegar.

Agora pense no que acontece com a sua paquera que desaparece. Você manda uma primeira mensagem, que é ignorada. Você racionaliza e pensa que vale a pena insistir mais um pouco. Aí, manda uma segunda mensagem, mais enfática. E, dessa vez recebe uma resposta. A terceira, a quarta e a quinta aproximações voltam a ser ignoradas. Mas, na sexta,  você recebe de volta uma mensagem super carinhosa, com desculpas que, mesmo que você racionalmente duvide delas, acabam seduzindo. 

Tem um lado do seu cérebro que sabe a cilada em que você está se metendo. Que essa pessoa é inconstante e pouco confiável. Mas a sua "parte pombo" ainda está lá, forte e resistente, sussurrando na sua orelha: "mais uma bicada e ele liga de volta". 

Conscientemente ou não, permanecemos correndo atrás do "rolinho", pois aprendemos, assim como o pombo, que em alguma hora o "reforço" vem. No caso do pombo, comida. No nosso, cuidado, afeto, atenção ou um simples "oi, sumido(a)". Notem, quanto mais fome o pombo sentir, mais motivado ele estará para trabalhar na caixa, mesmo que para ganhar migalhas. Da mesma forma, quanto mais solitários estamos, mais nos vemos atrás de alguém que nos dá migalhas de afeto. 

A verdade é que, especialmente se estivermos sem alimento, é fácil ficarmos presos nesse ciclo. Em uma espera de algo fundamental que não tem hora certa para chegar. É difícil evitar cutucar a ferida da fome ou da falta de afeto, mesmo sabendo que o que recebemos não vale os milhares de esforços necessários para obter a tal da recompensa. Nossa parte irracional, nosso lado que ainda é pombo, comanda muito mais a nossa vida do que gostamos de admitir. E mesmo sabendo disso tudo é difícil de abandonar a espera pela mensagem que ainda teima em tardar.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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