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Blog do Dan Josua

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3 pensamentos feitos para você se sentir bem, mas que só atrapalham

Dan Josua

22/08/2019 04h00

Crédito: iStock

O mundo está cheio de boas intenções. O caminho para o inferno, também (dizem). Um monte de ideias feitas para nos sentirmos melhor, mas que só fazem a gente se sentir pior. Muitas delas, apesar de parecerem inocentes, contêm armadilhas que podem nos jogar no buraco, ao invés de nos tirar dele. Abaixo, um pequeno guia para identificar e fugir de três dessas mensagens positivas que são um tiro no pé:

1. Pense positivo!

(sério, pare de tentar pensar positivo, isso só vai lhe jogar mais para baixo)

A ideia é de que a gente atrai coisas semelhantes aos nossos pensamentos. Se você pensar positivo, coisas boas vão lhe acontecer, segundo essa visão. Puxa, quem dera a vida fosse tão simples… Confesso que uma vez fiz um experimento de passar três meses mentalizando, todo dia de manhã, o meu bilhete premiado da mega-sena, mas não achei sequer uma nota de dez reais jogada no chão.

Tá, talvez eu esteja simplificando o argumento. A coisa, em tese, é mais abstrata e menos direta do que isso. O tipo de abstração que tem a vantagem de nunca poder ser testada nem contestada. Por exemplo: "se as coisas boas não aconteceram é porque você deixou algum pensamento negativo lhe invadir de alguma maneira". A culpa, no final é da sua cabeça imperfeita que é incapaz de pensar de forma consistentemente positiva. Mas o ponto talvez seja justamente esse –a nossa mente não é uma máquina de pensamentos consistentes. Ao contrário, ela frequentemente é uma metralhadora de contra-argumentos pessimistas.  

Inclusive, um grupo de cientistas (Wood, Perunovic, and Lee, 2009) provou isso. Em um experimento que tentou testar essa coisa de pensar positivo, pessoas com e sem problemas de autoestima foram convidadas a começar todas as manhãs com palavras de incentivo para elas mesmas. Do tipo, "acorde pela manhã e fale para o espelho que você é lindo, inteligente, etc."

O resultado foi surpreendente. Os elogios autodirecionados ajudaram (bem pouquinho) quem já tinha uma boa autoestima. As pessoas com má autoestima, pelo outro lado, ficaram consideravelmente piores. A cada elogio, a mente, cruel e automaticamente, invocava um contra-argumento. "Não, eu não sou bonito, eu sou horrível", por exemplo. 

Ou seja, pare de se convencer a pensar positivo. Se for o caso, procure ajuda profissional. Ou, pelo menos, um ombro amigo. Mas pare de imaginar que pensar positivo vai ajudá-lo; isso pode até piorar a sua autoestima. 

2. Eu vou ser feliz (ou me amar, ou algo do gênero) quando "x" acontecer

(sério, por que precisa esperar tanto?)

Essa é uma mentira particularmente cruel. Porque ela parece positiva e otimista, mas joga a nossa felicidade pra frente. Quando levamos essa ideia a sério prendemos para sempre a nossa felicidade em um futuro que nunca chega. 

Nunca vi mais gente se maltratando com essa ideia do que quando trabalhei ajudando pessoas obesas a perder peso. Vi com frequência a promessa "eu vou ser feliz e gostar de mim quando eu ficar magro". E quantas vezes eu vi, mesmo com 50 quilos perdidos, essa promessa se esvaziar. É verdade, há uma euforia inicial, mas, depois que ela passa, o corpo magro traz apenas novas exigências.

Por exemplo: "não, agora é sério, quando eu fizer uma cirurgia plástica, eu poderei apreciar meu corpo". Mas a cirurgia plástica acontece, o corpo se ajusta e a felicidade não chega. 

Veja bem, não estou criticando dietas nem cirurgias plásticas –elas podem ser ferramentas fantásticas! O que estou dizendo é que faz muito mais sentido inverter a ordem. Quem começa um regime porque tem carinho por si tem muito mais chance de aproveitar a jornada. O que muitas vezes não percebemos enquanto esperamos o trem da felicidade é que há muito mais alegria na estação.

3. Procure por sua alma gêmea

(sério, procure por alguém que lhe faça muito bem)

Parece uma ótima ideia. Você nem ninguém deveria se sucatear pelo primeiro traste que aparecer.

Infelizmente, a mente humana frequentemente sai desse ponto super razoável e cria asas: o que começa com a importância de se dar valor rapidamente se transforma em uma fantasia desenfreada. A alma gêmea, de repente, se vê com sobrenome, cor de cabelo e altura mínima (ou máxima). 

A necessidade de encontrar uma pessoa carinhosa se transforma em ter alguém carinhoso 100% do tempo, por exemplo. No final, fica difícil alguém de carne e osso cumprir tanta expectativa. E quem mergulha de verdade nesse conto se vê cada dia com mais dificuldade para encontrar alguém.

Na minha experiência, no entanto, a pior faceta da ideia de alma gêmea é aquela que às vezes aparece no término de um namoro. O papo "Ele (a) era o amor da minha vida". Lembro de ter dito uma vez para um amigo, que ainda repetia isso depois de ter terminado o seu namoro há mais de dois anos: "Cara, você tem 25 anos. O amor da sua vida você vai saber quem é aos 80, quando ver qual mão enrugada estará entrelaçada com a tua". 

Meu amigo não aceitou bem. Discordou de mim e disse que eu não estava entendendo. Mas acho que eu entendi bem, sim. Ela tinha sido a pessoa mais importante na vida dele até aquele momento e ele imaginava (erroneamente) que se sentiria assim para sempre. A gente acha que sabe prever o futuro, mas é difícil ver um palmo à frente do nosso sofrimento. 

Sei que essa visão é pouco romântica e até um pouco broxante. Mas sei quão perniciosa pode ser essa ideia de que o amor da nossa vida foi embora e de que existiria apenas UMA pessoa certa pra gente. Quando passamos a idealizar desse jeito um relacionamento que já acabou, passamos a avaliar todos que se aproximam com lentes distorcidas. Imaginamos que ninguém se compara a quem a gente perdeu, sem perceber o quanto a nossa idealização do passado nos impede de ver o presente. E, assim, somos capazes de deixar pessoas incríveis irem embora, porque estamos apaixonados por fantasmas idealizados. 

Há mais de um amor para a sua vida. Vá lá e encontre o amor com quem vale a pena envelhecer é o meu conselho, se você me permitir um. Ou, pelo menos, me permita isso: em vez de ir atrás do amor da sua vida, vá atrás de alguém que lhe ajude a perceber o que de incrível você já tem.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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