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Entenda como lidar quando alguém que você ama tem depressão

Dan Josua

29/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Depressão é um buraco. Um cansaço que suga a pessoa para dentro. Um peso que faz com que cada movimento pareça árduo. É uma dor sentida no corpo e na mente. Uma abstração quase impossível de explicar quando se está afundado nela. Quem já passou sabe o sofrimento que é.

Quem já viu quem ama passando por isso, em alguma medida, também sabe. Poucas coisas doem mais do que ver alguém próximo amarrado na depressão. E, é lógico, frente a essa cena, queremos desesperadamente ajudar. 

Mas a cada tentativa, frequentemente, nos sentimos mais impotentes. Tentamos dar tempo ao tempo –mas, enquanto esperamos, vemos a pessoa se afundar cada vez mais em sua areia movediça. Ficamos frustrados. Queremos lembrá-la de tudo o que sabemos que é verdade e que lhe faria bem. Dá vontade de colocá-la contra a parede e finalmente a tirar da lama em que se encontra. Nem que seja a fórceps. 

Infelizmente, muitas vezes parece que nada funciona.

Aí, dessa sensação mista de impotência e vontade de fazer alguma coisa, vem a pergunta frequente de familiares de quem sofre com transtornos mentais: "o que fazemos? Podemos confrontar alguém assim"? 

Confesso que a única resposta possível a essa pergunta é um pouco ardilosa: um misto de sim e não. 

A menos que confrontá-la signifique iniciar um tratamento com psiquiatra ou psicólogo, não acredito que valeria a pena abordar agressivamente quem esteja sofrendo. Pela mesma razão que não valeria acarear ninguém dessa forma. Raramente vi alguém se levantar energeticamente após ser contrariado. Não é efetivo. Críticas, em geral, apenas afundam mais o barco que já está furado.

A dura realidade é que argumentos racionais dificilmente empurram alguém a fazer algo emocionalmente custoso. Veja, se racionalidade fosse suficiente em uma situação afetivamente desafiadora, não haveria mais fumantes no mundo. Afinal, os milhões de cigarros acesos todos os dias têm sua fumaça inalada mesmo quando já sabemos de todo o mal que ela traz para o pulmão. A relação entre cigarro e câncer, a essa altura, não é mais novidade para ninguém. Mas os fumantes continuam dando suas tragadas. Por quê? Pois há um ganho a curto prazo que dificulta muito o comportamento que seria mais vantajoso a longo prazo. Sim, a nicotina vicia e causa dependência química. Mas ao mesmo tempo há um componente emocional nisso: é difícil parar de fumar, em parte, porque é difícil acreditar, especialmente com um cigarro nos lábios, que dá para ficar bem sem nicotina na caixola.

Deprimidos ficam na cama por motivos semelhantes –aprenderam a desacreditar em sua capacidade de ficar bem, em sua potência para aproveitar mais uma vez a vida — e um ciclo químico em seus cérebros deixa essa descrença cada vez mais premente. 

Nesse contexto, é difícil imaginar que uma bronca possa, de alguma forma, aumentar a motivação para viver. Em geral, a confrontação apenas produz mais culpa em quem já está sofrendo, alimentando ainda mais esse ciclo vicioso. Mais uma vez, é importante a ressalva: se esse empurrão é no sentido de levar essa pessoa a iniciar um tratamento psiquiátrico, por exemplo, o embate pode compensar! No entanto, esse é um cálculo difícil de fazer…

Ao mesmo tempo, dizer que broncas são pouco efetivas não quer dizer que deprimidos se tornaram tão frágeis que nunca podemos discordar deles. Significa apenas que, se verdadeiramente amamos essa pessoa, o melhor lugar para começar é com aceitação e com pequenos convites.

Aceitação de que quem está à sua frente é uma versão deprimida daquele que você ama. E isso o deixa diferente. Coisas que antes eram fáceis agora parecem trabalhos hercúleos. Ele está, de fato, sofrendo. Não está fazendo corpo mole nem sendo preguiçoso –doença mental NÃO É frescura!

Por isso, os convites precisam ser pequenos. Porque se é fundamental que a pessoa deprimida volte a experimentar os sabores da vida, também é necessário garantir que o tamanho da refeição não seja grande demais. Alguém que costumava amar desenhar por horas a fio, por exemplo, talvez se beneficiasse de um simples convite para rabiscar, sem grandes ambições, um papel. 

A ideia é de que esses contatos com as atividades valiosas da vida reensinam o corpo do deprimido a lidar com prazer. E, assim, seu organismo pode retomar, passo a passo, o seu funcionamento normal. Uma das estratégias de tratamento para a depressão mais importantes, a chamada "ativação comportamental", se fundamenta justamente nesse princípio. 

Em resumo, faz todo sentido ajudar as pessoas em sofrimento a, gradualmente, retornar às atividades que já lhe fizeram tão bem. Só que não faz sentido exigir que elas já estejam prontas para fazer tudo como faziam antes da depressão. Palavras duras não ajudam em nada.  É muito mais eficiente pensar em convites claros e amorosos do que em confrontos.

Em última instância, no entanto, é fundamental entender que transtornos mentais exigem cuidados médicos e psicológicos. Tanto para o paciente quanto, muitas vezes, para os seus familiares. Procure ajuda.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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