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Histórico

A história de duas pontes e do suicídio: dê tempo para a vida

Dan Josua

03/10/2019 04h00

Crédito: Istock

Duas horas se passaram e, quando me dou conta, estou estudando algo bem desconectado do meu tema original. Dessa vez, pelo menos, eu acabei me deparando com algo excelente e importante. Assim, meio que sem querer, conheci a história das duas pontes de Washington, nos Estados Unidos —  as pontes Ellington e Taft. 

Apesar de estarem separadas por apenas algumas centenas de metros, as taxas de suicídios ocorridos na Ponte Ellington sempre foram muito maiores do que as de sua vizinha. Após três pessoas perderem tragicamente suas vidas em um espaço de dez dias, um movimento se iniciou para construir uma cerca de proteção na beirada ali.

As críticas a esse movimento foram as previsíveis. "Não adianta nada construir uma cerca, quem quiser se matar vai simplesmente caminhar até Taft", argumentavam. 

A grade foi construída em meio a reclamações da oposição. Mas, caso salvasse apenas uma pessoa, a sua construção já teria valido a pena, na mentalidade de seus defensores. Os ferros curvados para dentro tornaram praticamente impossível alguém se jogar dali, de modo que ninguém mais perdeu sua vida se atirando da Ponte Ellington. E, surpreendentemente para os críticos (mas de forma esperada para quem estuda o tema), os suicidas não foram para a Ponte Taft. O número de pessoas que se mataram na região diminuiu e nunca mais retornaram às taxas  anteriores à da criação da cerca.

Vou repetir, porque é importante: as taxas de suicídio rescindiram de forma (aparentemente) permanente após a construção da grade de proteção. Impedir alguém de pular da Ponte Ellington, por alguma razão, não levava a pessoa a fazer a caminhada de alguns metros até Taft .

Por que isso? 

Ninguém sabe a resposta com certeza, mas estudiosos acreditam que existe um forte componente de impulsividade no ato suicida. Assim, se for retirada a oportunidade, se o calor do momento passar, a tentativa também desaparecerá. Muitas vezes, o melhor amigo da vida é o próprio tempo.

Com isso, temos uma dica até de por que as pessoas não se atiravam com tanta frequência da Taft. Ali,  a mureta de proteção é razoavelmente alta, na altura do peito de um homem de estatura média. Aparentemente, nessa condição um pouco mais "difícil", o impulso para se matar de quem passasse por essa ponte se tornava menor. A mureta, de alguma forma, diminuía o poder do convite que a ponte fazia para aquelas cabeças que estavam sofrendo demais.

Eu gosto de pensar que o que precisamos é de algum espaço para segundas chances — independentemente do nosso tipo de sofrimento. Às vezes, é necessário apenas um pouco mais de tempo para se dar conta da permanência e da  gravidade de alguns de nossos impulsos. Quinhentos metros de caminhada podem ser o bastante. Pare para pensar em sua própria experiência de vida: quantos dos xingamentos gritados no trânsito seriam proferidos se precisassem esperar o tempo de uma caminhada para sair da sua boca? 

É claro que existem pessoas que vão lutar por anos com a dor de sua própria existência. Para essas, uma grade não será proteção o bastante —  e, para elas,  atendimento médico e psicológico serão essenciais. Mas outras tantas precisam, em primeiro lugar, apenas de tempo para uma segunda oportunidade. Tempo até mesmo para que possam procurar pela ajuda profissional de que necessitam. Muitas vezes o mais importante é, simplesmente, aguardar a tempestade passar e a esperança retornar.

Porque sempre há céu azul além da tempestade. Só precisamos dar o tempo ele aparecer. 

[Pensar em suicídio é uma atitude muito séria, mas tem solução. Se você estiver passando por isso, procure por um profissional de saúde ou entre contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone (188) ou pelo site www.cvv.org.br].

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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