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E se o seu terapeuta fosse o seu vizinho? O caso dos 'terapeutas leigos'

Dan Josua

24/10/2019 04h00

iStock

A imagem que me vem à cabeça quando eu penso em um bom psicoterapeuta é um grande clichê: uma mulher ou um homem mais velho, com elegantes roupas  de inverno e um vago ar de superioridade intelectual. Nesse contexto imaginário, o que trataria o sofrimento psíquico seria a sabedoria transmitida por essa figura ao paciente.

É estranho pensar nessa imagem porque ela é bem diferente da minha – de certa maneira jovem e com os cabelos cronicamente despenteados. Mais ainda porque esse clichê traz consigo uma noção bastante elitista de psicoterapia, como se ela fosse apenas para quem pudesse pagar por profissionais experientes em bairros chiques de grandes cidades. Infelizmente, a psicologia no Brasil ainda tem essa cara – profissionais ótimos e caros para uma parcela muito pequena da população.

O preço das sessões desses profissionais altamente qualificados provavelmente é alto até por que formá-los é custoso. São necessários anos de estudos para se chegar a esse ponto – algo que faz com que seja impossível que um país como o Brasil produza terapeutas o suficiente.

Nesse Brasil e nesse modelo em que é necessário um grande expert, muita gente que precisa de tratamento acaba ficando sem terapia. Ou seja, existem muito mais pessoas sofrendo do que profissionais capacitados para cuidar desse sofrimento. É chato admitir isso, mas os psicólogos com esse treinamento todo não vão dar conta do recado, portanto outras modalidades de atendimento em psicoterapia são necessárias para tapar esse buraco. 

E aí vale perguntar: será que não existiria uma maneira mais simples de fazer uma psicoterapia efetiva?

Para responder isso, primeiro é preciso pensar se há tratamentos psicológicos que envolvam habilidades mais simples e concretas do que esse misticismo sábio frequentemente associado à terapia. Ou seja, será que existem tratamentos psicológicos que não dependam desse profissional experiente e tão bem formado? Depois, podemos perguntar: será possível treinar leigos para oferecerem esse serviço? Será que, após algumas semanas de treinamento, uma pessoa que tenha apenas o colegial completo poderia tratar um caso moderado ou severo de depressão, por exemplo? Em outras palavras, será que é possível aumentar significativamente o número de profissionais capacitados de maneira pouco custosa?

A resposta para todas essas perguntas é um esperançoso SIM. 

Um dos tratamentos psicológicos com maior número de evidências científicas de eficácia para a depressão, chamado ativação comportamental (ou BA, do inglês behavioral activation), é um dessas respostas mais simples. Para a BA, por trás da depressão há um afastamento de atividades prazerosas ou valorosas. E, se ela pode fazer com que uma pessoa se feche por dias em um quarto escuro, permanecer trancafiada nessa caixa sem sol, por sua vez, é o que mantém a depressão viva. Assim, a tarefa da terapia seria, em essência, encontrar uma estratégia para ajudar o deprimido a reencontrar os "sóis" de sua existência. De acordo com essa concepção, que conta com muitos estudos para a apoiar, não são necessárias análises profundas do passado, mas tão somente a reestruturação da vida atual em algo que produza sentido para a pessoa.

Simplificada, talvez seja viável reproduzir essa intervenção por meio de alguém que nunca estudou psicologia. Mais do que isso, quando pensamos que a depressão pode ser sustentada pelo modo como uma pessoa está tocando a sua vida, o conhecimento pessoal desse mundo onde o deprimido vive pode ser tão importante quanto uma compreensão aprofundada da mente humana.

E foi exatamente isso que uma série de pesquisas com os chamados "terapeutas leigos" descobriu. Uma delas, feita em Goa, na Índia, por exemplo, revelou que, quando inseridos em um serviço de saúde pública, pessoas com pelo menos ensino médio completo (e sem treinamento específico em saúde mental), ao passarem por um treinamento de apenas três semanas se tornaram terapeutas eficazes no tratamento de depressões moderadas ou severas. É isso mesmo: pessoas sem nenhuma experiência clínica, após míseras três semanas de treinamento, podem ajudar muito no tratamento da depressão.

Às vezes é difícil de aceitar isso porque ainda gostamos de pensar na terapia a partir do estereótipo do tal terapeuta sábio e cheio de insights. 

Seja como for, se esses dados são verdadeiros – e várias experiências espalhadas pelo mundo sugerem que eles são -, o exército de combatentes a favor da saúde mental pode se multiplicar em muitas e muitas vezes. Com iniciativas como essa, talvez possamos entregar bons tratamentos a (quase) todos os que precisam. Seja a pessoa com grana em uma cidade como São Paulo – lotada de ótimos psiquiatras e psicólogos – ou quem não tem tantos recursos no interior do Piauí, onde pode ser mais difícil encontrar profissionais qualificados.

Aí, me parece, reside um importante problema para a psicologia. Não basta perguntar qual é um bom tratamento, mas também responder como esse tratamento pode alcançar quem precisa ser alcançado.

[Para saber mais: Weobong, B., Weiss, H. A., McDaid, D., Singla, D. R., Hollon, S. D., Nadkarni, A., … & Dimidjian, S. (2017). Sustained effectiveness and cost-effectiveness of the Healthy Activity Programme, a brief psychological treatment for depression delivered by lay counsellors in primary care: 12-month follow-up of a randomised controlled trial. PLoS medicine, 14(9), e1002385.]

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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