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Pessoas ricas parecem mais insensíveis? Psicologia estuda essa relação

Dan Josua

14/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Hoje foi uma Land Rover verde que me ultrapassou em uma pequena ruazinha residencial – seu motor a mais de 60 km/h e sua mão impaciente castigando a buzina. Recuperado do susto e encontrando o carro no próximo sinal, não me aguentei e perguntei se os dez segundos que ela economizou para chegar até o sinal valiam a minha vida.

A resposta veio do auto-falante do carro –a impossibilidade de poder conversar com a janela abaixada já comunica horrores da ilha onde essa pessoa vive — e foi bastante decepcionante. Fui, essencialmente, xingado. Até de baiano, que por algum motivo estranho esse tipo de gente acha que é um xingamento, fui chamado… Sei lá, admito que não fico surpreso que quem acha que o estado de origem de alguém possa ser uma ofensa seja a exata mesma pessoa que topa colocar um ciclista em risco para ventilar a própria raiva. (para não dar margem a dúvidas: ser chamado de baiano não é e nem deveria ser uma ofensa, mesmo que alguns ignorantes repitam esse tipo de gesto). 

Um carro de mais de duzentos mil reais, blindado ainda por cima. Um símbolo de poder aquisitivo que deveria, se as propagandas falassem a verdade, estar diretamente atrelado a felicidade e satisfação. Mesmo assim, por detrás do volante uma irritação que parece gritar insatisfação com o mundo. E, pelo menos na minha experiência pedalando pelas ruas de São Paulo, essa parece ser a regra: quanto mais caro o carro, maior a chance do motorista se sentir no direito de me colocar em risco para ganhar alguns centímetros de asfalto. 

Será simples coincidência? A minha experiência apenas uma anedota da zona oeste paulista que não representa nenhuma relação verdadeira entre preço do carro e educação no trânsito? Ou será que existe, de fato uma relação entre a gentileza do condutor e o preço de seu carro?

Os psicólogos americanos Dacher Keltner e Paul Piff fizeram uma série de pesquisas para avaliar isso. Primeiro, analisaram o comportamento de motoristas em um cruzamento movimentado e observaram que carros chiques tinham quatro vezes mais chances de não respeitar a preferência de passagem quando comparados a carros mais modestos. Quando os pesquisadores de suas equipes foram atravessar a mesma rua em uma investigação posterior, todos os carros simples deram passagem, mas os mais sofisticados continuaram andando em 46,2% das vezes (mesmo em vezes que fizeram contato visual com o pedestre). Ou seja, parece que de fato o preço de um carro é um preditor de sua disposição a respeitar as leis de trânsito. Quem ainda duvida disso, eu convido a prestar atenção nos preços dos carros que estiverem te ultrapassando pelo acostamento no trânsito desse feriado…

A insensibilidade de quem tem mais privilégios não para na maneira como essas pessoas dirigem. Pesquisas dos mesmos autores mostram que pessoas com muito dinheiro no banco tem mais chance de trapacear em uma série de tarefas e jogos. Em uma das mais interessantes pesquisas de Keltner e Piff, participantes foram convidados para jogar uma versão um pouco modificada do jogo "banco imobiliário". Nesse jogo, um dos dois participantes ganhava uma série de benefícios que tornava o seu sucesso muito mais provável —eles podiam jogar os dados duas vezes e começaram com o dobro de dinheiro, por exemplo. Mesmo sabendo das vantagens que receberam, as pessoas que enriqueceram no jogo fizeram muito mais desses atos típicos do rico insensível. Bateram com as peças no tabuleiro, comemoraram efusivamente seus talentos e até mesmo pegaram mais biscoitinhos do pote a sua frente do que o jogador menos privilegiado. 

Depois de 15 minutos desse "banco imobiliário" viciado, os participantes foram convidados a falar um pouco sobre a sua experiência jogando. E, acredite, aqueles que enriqueceram tendiam a falar sobre as suas geniais estratégias para ter vencido –mesmo sabendo que o jogo foi construído para favorecê-los enormemente. Foram raros os participantes que simplesmente admitiram: "eu enriqueci porque o jogo foi feito para eu ganhar". 

Talvez seja mais do que o preço do carro que deixa um motorista insensível à segurança das pessoas a sua volta. Possivelmente, o próprio processo de enriquecer seja um problema. Ao se tornar milionária, a pessoa acaba se isolando e se afastando da pessoa comum. Vai, especialmente, acreditando que o dinheiro que ela acumulou a torna especial de alguma maneira. Se o dinheiro dá valor ao homem, o homem que tem quinhentos mil reais para gastar em um carro deveria ter muito valor –essa parece ser a racional distorcida.

É triste admitir, mas é difícil não cair nessa lógica. Confesso que já disse que não tinha tempo para comprar um prato de comida para alguém com fome simplesmente porque queria chegar cinco minutos mais cedo em casa. De maneira mais suave, cometia a mesma insensibilidade da motorista do Land Rover que me incomodou tanto. 

Acabamos vivendo em um país como o Brasil, nos isolando dos problemas dos outros e sendo, mesmo quando nos consideramos ótimas pessoas, o rico insensível que abominamos no trânsito. Infelizmente, morar tão rodeado de pobreza às vezes nos faz criar calos que nos deixam insensíveis à realidade desse sofrimento a nossa volta.

É louco que o que passamos tanto de nosso tempo indo atrás —o dinheiro que vai trazer nossa paz e tranquilidade — acaba nos afastando de quem está a nossa volta. Vai nos deixando menos sensíveis ao sofrimento de nossos compatriotas e mais focados em nossas próprias necessidades. É triste que eu já tenha escolhido mais de uma vez o meu conforto de cinco minutos frente a uma criança com o estômago vazio. Tento ao máximo evitar cair nessa armadilha de minha fantasia de auto-importância (e me envolver em trabalho voluntário e doações), mas de tempos em tempos vacilo e volto a olhar só para o meu umbigo.

Mas, o pior desse movimento todo, é que o que a bile cuspida e racista do Land Rover parece dizer é que mesmo a capacidade de comprar um carro de no mínimo duzentos mil reais não parece trazer lá muita felicidade. Parece trazer raiva de um ciclista qualquer. E a angústia de continuar acreditando que, apesar de todos os privilégios, o mundo ainda te deve um monte. 

Curiosamente, algumas pesquisas, lideradas por Jonas Miller, com crianças parecem apontar a simples solução para essa raiva toda: doe seu dinheiro e tempo. Crianças que gastaram suas moedas com outras crianças doentes, em comparação com as que gastaram consigo mesmas, mostraram mais facilidade em se acalmar –mesmo suas respostas neurológicas, mostravam essa tranquilidade. O ser humano fica mais em paz em um mundo de trocas do que em um de isolamento. Por mais que a primeira doação seja sofrida, o caminho para a felicidade talvez esteja em dividir mais as nossas sortes.

 

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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