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No amor, a resposta costuma ser mais simples do que a gente gostaria

Dan Josua

21/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Faz muito tempo que estou casado, então confesso que falarei isso como alguém que está vendo de fora, mas… De verdade, às vezes parece que muitos solteiros (e solteiras) estão jogando um elaborado jogo de detetive. Quase como se a vida fora de um relacionamento fosse um livro da Agatha Christie no qual é necessário atentar a cada um dos detalhes para se chegar a qualquer resposta.

Não importa se vem de homens ou mulheres, hétero ou homossexuais, com frequência escuto algo assim:

"Sim, sim, é verdade, ele disse que não quer nada sério… Maaaas… (!), então por que está curtindo 37% das minhas fotos no Instagram? Todas as vezes que ele sai a sério com alguém, ele coloca um coraçãozinho nos comentários dos seus posts. E ele fez isso comigo em três das minhas últimas doze postagens… Com explicar isso?". A resposta encontrada pelo detetive amador lhe parece óbvia: essa pessoa só pode estar atrás de algo sério.

Observando esse jogo dos solteiros, eu só tenho vontade de dizer várias vezes: navalha de Occam, navalha de Occam, navalha de Occam! Imagino os olhares confusos na minha direção. Muito por alto, o princípio da navalha de Occam, importante na Filosofia, diz o seguinte: se duas hipóteses explicam igualmente um fenômeno, devemos sempre adotar a mais simples. Portanto, aqui também, a tal navalha de Occam é apenas um lembrete para procurarmos pela resposta mais simples. Nessa caso: talvez a pessoa que diz que não quer nada sério, simplesmente não quer nada sério.

Sim, a pessoa incrível, que é super carinhosa com você quando está ao seu lado, talvez esteja falando a verdade quando afirma não querer nada sério contigo. Apesar do coração no Instagram e dos milhares de gestos gentis. Muitas vezes, simplesmente, o outro lado não está a fim –e acreditar em suas palavras pode lhe poupar muito sofrimento.

"Mas por que os milhares de gestos carinhosos, se a pessoa não quer nada?", você talvez gostaria de me perguntar. É claro que existem tantas respostas para essa pergunta quanto pessoas no mundo, mas, em linhas gerais, é importante entender que o nosso comportamento não é motivado apenas pela nossa consciência. Pode ser que, mesmo não querendo nada a sério, a única maneira que esse ser conhece para  aproximar de um par seja romântica. E, nesse cenário, acaba sendo romântico a despeito de suas intenções verdadeiras (e não por conta delas). Pode ser que, mesmo sem saber, faça esses pequenos gestos porque se sentir amado e desejado é importante pra caramba –ainda que  não esteja disposto a amar de volta.

É claro que todo mundo já ouviu esse conselho, esse chamado para a simplificação. Também é óbvio que a maior parte de nós acaba ignorando essa dica. Afinal, a mente de quem está apaixonado tem asas próprias e adora contar histórias. De preferência, histórias que se encaixem com os sentimentos. A mente detetive ganha asas e procura, nos pequenos detalhes, as provas de que essa história vai terminar em romance –e não ajuda muito as milhares de comédias românticas nos ensinando que o verdadeiro amor só vem depois de muita confusão.

A mente apaixonada conta histórias elaboradas que deixariam qualquer escritor ruborizado com um objetivo simples: fugir da dor. Escapar da difícil realização de que o outro lado não quer nada mesmo, que ele (ou ela) simplesmente não está interessado(a). Que será preciso transformar o luto de uma paixão que nunca chegou a se desenvolver em algo maior. Que, por enquanto, será preciso esperar até que a pessoa certa chegue –sozinho, até lá.

Ao mesmo tempo, ainda que triste, costuma haver uma grande paz na aceitação verdadeira. Se esse rolo que não vai a lugar algum puder acabar, talvez seja possível algo novo nascer.

PS: é claro que é possível que a a mente apaixonada tenha razão. É possível que as teorias elaboradas sejam, de fato, verdadeiras. A pergunta talvez não devesse ser sobre possibilidades, mas sobre probabilidades. Onde vale a pena investir a nossa energia e o nosso tempo?

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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