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Festas de fim de ano: às vezes, o melhor caminho é fugir da família

Dan Josua

28/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Fim de ano está chegando. Tempo de infinitas reuniões com pessoas que você mal conhece. Aquele tio do seu primo que parece ser incapaz de não soltar um comentário machista no meio da ceia de Natal. A namorada do seu irmão que sempre entra em discussões políticas com o lado conservador da família. Etecétera, etecétera…

A reunião de fim de ano pode ser nostálgica, cômica, maravilhosa. Pode ser, também, o momento em que você vê velhos padrões se repetindo. De repente, perto dos pais que moram em outra cidade, você se enxerga de novo no cansativo papel em que se colocava na adolescência. Talvez você até seja um(a) profissional qualificado(a), mas ali, no seio familiar, se percebe insistindo em padrões estranhamente infantis. No final das contas, o que somos depende mais do contexto em que estamos do que gostamos de admitir.

Mesmo assim, para a maioria das pessoas, é muito bom voltar para o ambiente da infância no final do ano. Para outras, entretanto, geralmente aquelas com vidas familiares marcadas por (pequenos ou grandes) traumas, o fim de ano é mais delicado do que isso. Os velhos padrões não são apenas desagradáveis: são tóxicos.

Por isso é importante lembrar que algumas falas populares nem sempre são verdadeiras. Por exemplo: vivemos ouvindo que precisamos amar nossos pais, mas às vezes eles foram as pessoas que mais nos causaram dano. E, se esse for o caso, está tudo bem se você simplesmente não tiver sentimentos de comercial de margarina em relação a eles. Por mais que você tenha sido gerado por essas pessoas, se o seu contato com elas é marcado por críticas, negligência afetiva ou até mesmo abusos físicos, é esperado que você não se sinta feliz perto delas.  

E, se esse for o caso, se existiu violência onde deveria ter existido cuidado e amor, tudo bem se neste Natal você decidir que vai cuidar de você. Veja bem, não estou recomendando que você não se aproxime de quem é importante ou que abandone a sua família. Claro que não. Estou dizendo que, às vezes, se você sabe que já tentou o que podia, tudo bem se você decidir fugir. 

Tudo bem se você decidir fugir para encontrar um porto que te acolha —ainda que esse cais nem sempre tenha a cara óbvia de cartão postal natalino. Família, no final das contas, é o lugar onde nos sentimos em casa —independentemente de os laços serem sanguíneos ou fraternos.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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