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Os julgamentos e pressões que uma mãe (muitas vezes) precisa suportar

Dan Josua

05/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Eu sou pai. O que quer dizer que eu não sou mãe. O que quer dizer que estou de fora da maior trincheira de julgamentos que a modernidade parece ter produzido. Meu Deus, como os dedos inquisitórios rapidamente se dirigem às mães!

Não pode amamentar? É acusada de não ter dado amor.

Reclamou de cansaço? Ué, você não sabe que mães devem se sacrificar?

O filho não come direito? Culpa da mãe.

A criança fez uma birra na escola, mordeu o amiguinho ou acordou de madrugada? Você adivinhou, só pode ser porque a mãe fez algo de errado.

Não preciso nem comentar que o pai ganha um passe-livre disso tudo… O bom pai, algumas vezes, é retratado como aquele que "ajuda". Eu, pessoalmente, fico ofendido com esse tipo de elogio –eu não ajudo em casa, eu divido a responsabilidade da criação com a minha esposa. Mas, enfim, o lugar da paternidade é assunto para outro texto. Por enquanto, basta constatar o óbvio: ainda recai sobre a mãe o grosso da responsabilidade pela criação dos filhos.

E, se cuidar de um bebê ou de uma criança – ainda mais nesse mundo de tantas outras tarefas acumuladas –, é algo difícil, fazer isso sendo o alvo de críticas e sugestões infinitas torna o processo dez vezes mais penoso. Especialmente nesse universo da maternidade, onde tantas dicas oferecidas por aí são marcadas por pseudociência ou, simplesmente, por falta de noção da realidade.

Expressões científicas são retiradas de seu contexto para pintar um cenário apavorador. Li, em uma mensagem para mães que minha esposa me mostrou, uma pessoa alertando para os efeitos devastadores do cortisol no cérebro do bebê. Segundo a alarmante postagem no Instagram, mães não deveriam deixar os filhos chorarem à noite porque o cortisol estragaria o cérebro deles. Mas eu te digo que, segundo uma revisão de pesquisadores sobre o tema os principais estudos que demonstraram os tais efeitos devastadores de hormônios ligados ao estresse acompanharam crianças em orfanatos muito pouco cuidadosos.

Ou seja, a notícia verdadeira se refere a situações de negligência importante e não a mães amorosas que deixam seus filhos chorando por alguns minutos à noite –mas que, de resto, estão atentas às necessidades emocionais deles. Assim, a pseudociência pega uma ideia real excesso de cortisol pode atrapalhar o desenvolvimento da criança – e a retira completamente de seu contexto para julgar mães. Criando um cenário de urgência em que elas precisam estar sempre vigilantes, porque a qualquer momento podem estar deixando o crânio de seus filhos ser invadido por hormônios malvados.

A pesquisa chega a uma conclusão muito mais simples: não basta não ser negligente com o filho, dê afeto e contato físico. Esteja atento às necessidades emocionais dele e responda de acordo. Não há uma conclusão exigindo que a mãe seja a nova Mulher Maravilha. Em outras palavras, a ciência pinta um cenário muito mais ordinário do que aquele publicado em postagens alarmistas de mídias sociais.

Outras vezes, mesmo que munidos de boas bases teóricas, livros, manuais e internet falham porque não levam em consideração a realidade concreta das mães. Prescrevem estratégias como se estivessem falando com robôs que podem seguir instruções à risca. Infelizmente (ou felizmente), mães ainda são humanas e estão sujeitas a emoções e ao cansaço.

O manual pode recomendar, por exemplo, cuidado para não recompensar birras noturnas com excesso de atenção. A dica faz todo o sentido, mas não leva em conta que a mãe pode estar privada de sono. Que ela trabalhou o dia inteiro e que precisará acordar na manhã seguinte às 6 para iniciar mais uma jornada de oito horas na firma (e mais tantas horas de serviço em casa). Ceder à manha, nesse caso, não é tanto ceder ao bebê quanto ao próprio cansaço. Aonde quero chegar: muitas vezes mesmo os bons conselhos falham porque a situação cria a impossibilidade e não porque falta força ou disposição para o cuidador.

Como nota final é interessante lembrar do ótimo livro "Diga-me com quem andas…", da americana Judith Rich Harris. A autora afirma que os efeitos dos pais nos filhos ainda não foram bem demonstrados pela psicologia e são amplamente exagerados pela mídia e especialistas do assunto. Podemos não comprar completamente a proposta de Harris –confesso que eu mesmo tenho dificuldade em admitir que talvez eu seja uma influência menor na minha filha do que imagino –, mas é importante ouvi-la. Afinal, a mensagem inequívoca desse livro merece reflexão: quando o assunto é ciência e criação dos filhos, a situação raramente é tão preto no branco quanto querem os dedos acusatórios dos influenciadores nas mídias sociais.

No final das contas, no meio de tantas regras e julgamentos sobre o que é certo e o que é errado, perdemos algo óbvio: um bom cuidado para com um bebê depende de uma mãe flexível para responder com carinho aos pedidos de seu filho. Veja, diversos estudos apontam que rigidez e inflexibilidade psicológica são as principais causas de sofrimento emocional –de modo que é difícil imaginar como exigir isso de uma mãe possa ser uma boa ideia. Talvez, uma dica muito mais útil seja convidar as mães a exercitar autocompaixão, a identificar e respeitar seus limites e a exercer gentileza consigo mesma. Afinal, saúde para uma criança começa com saúde para a sua mãe.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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