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O que de fato enxergamos no final de ano e como melhorar esse olhar

Dan Josua

12/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Nenhum animal vê o mundo como ele de fato é. Temos acesso apenas à realidade conforme ela é filtrada pelos nossos sentidos e recortada pela nossa aprendizagem. Um camarão mantis, por exemplo —espécie marinha que desfere um dos socos mais potentes da natureza —  enxerga a partir de 16 tipos de células receptoras de luz,  enquanto o ser humano teria até quatro tipos apenas. Isso quer dizer que o arco-íris para o pequeno crustáceo é literalmente até quatro vezes mais "colorido" do que o mesmo arco-íris observado por uma pessoa.

Mas o aprendizado também seleciona o que um bicho pode perceber do seu ambiente. Desse modo, o meu cachorro responde prontamente ao seu nome (vem abanando o rabo, achando que vai ganhar um petisco), mas não reage a nenhum outro substantivo próprio. O som que faço ao pronunciar "Orelha" (seu nome) é de grande importância para ele, mas todos os outros barulhos semelhantes ("boca") mal são registrados. Em outras palavras, podemos dizer que a experiência de vida dele seleciona e dá um valor especial para ao som de "Orelha" —que se torna muito mais importante do que qualquer outro.

Seres humanos, quando a gente para pra pensar, são cachorros e camarões extremamente complicados. Isso porque, diferentes dos outros animais, aprendemos a falar e (depois) a pensar. E o pensamento age como um filtro ainda mais poderoso para selecionar o que enxergamos do mundo.

Há anos, psicólogos vêm catalogando e descrevendo algumas das maneiras tradicionais como certos padrões de pensamento distorcem a realidade. Em outro post desse blog, eu listei uma parte dessas distorções cognitivas.  E agora, com o final de ano, vejo que uma delas começa a aparecer com a força toda.

Falo da nossa tendência a descartar o positivo e a contabilizar apenas as partes negativas de nossa experiência. É possível, por exemplo, recebermos quarenta e dois elogios sobre o nosso trabalho, mas ficarmos focados exclusivamente nas duas críticas.

Para quem está olhando para os últimos 365 dias com essa tendência, apenas uma conclusão é possível na retrospectiva do ano: 2019 foi um terror. E talvez tenha sido mesmo. Deus sabe que as coisas no país não estão simples. Mas, mesmo no contexto do terror, é provável que algo de bom tenha acontecido.

Por isso, meu convite para quem não vai resistir à tentação de olhar para trás é, em primeiro lugar, fazer isso por escrito. Sim, por escrito. E, a cada pequeno fracasso que anotar, no registro de cada pequena derrota, se perguntar: o que eu posso estar deixando de fora? O que, de semelhante, pode ser visto como uma pequena vitória? Quantos elogios eu estou de fato deixando de contabilizar?

Veja, a ideia não é tentar emular uma Poliana, personagem da literatura que vivia fazendo o jogo do contente. Não, o pedido é para o equilíbrio. Que a gente possa reconhecer, quando for o caso, a seleção pessimista de nossa mente. E a balancear com o outro lado da moeda. Que a gente possa ver o ano que termina pelo que ele é: suas dores e suas delícias.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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