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Conselhos que daríamos para os "eus do passado" podem servir no presente

Dan Josua

09/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Olhar para trás dá clareza ao passado. Uma transparência que, enquanto nós o estávamos vivendo, simplesmente não era possível. No dia a dia, é como se observássemos o mundo passar através da janela de um carro em uma estrada de barro. Milhares de contornos balançando.

Mas, quando olhamos para o passado, tendemos a simplificá-lo e a pintá-lo com uma cor apenas —com frequência, a cor da emoção que estamos sentido no momento em que lembramos dele. Idealizamos os bons e velhos tempos com os olhares rosados da nostalgia ou o demonizamos com um cinza ressentido. Minha adolescência foi terrível ou minha infância foi fantástica —raramente nos lembramos da vida na moderação do meio termo. Escolhemos um pincel e o imprimimos em tudo o que encontramos na memória.

Em outras palavras, nosso cérebro está no exercício constante de aparar as arestas de nossas lembranças. Por isso é que parece tão fácil dar conselhos para o nosso eu do passado. "Você deveria ter se arriscado mais", "deveria ter se dedicado mais aos estudos" ou até mesmo palavras arrependidas como "você não sabia o quão bonito, inteligente, legal você era" são lugares comuns.

É fácil falar assim pois não precisamos lidar com nenhuma daquelas dificuldades que nos impediriam, na época, de seguir nossos próprios conselhos. Ao pensar que deveríamos ter estudado mais, não somos obrigados a aguentar a dor nas costas ou o tédio de repetir 37 vezes o mesmo exercício de álgebra. Quando nos lamentamos por não termos valorizado a beleza da nossa juventude, esquecemos da dificuldade que é praticar autocompaixão. Olhamos para trás com generosidade sem nos darmos conta de quão difícil é trazer essa mesma bondade para quem somos hoje.

A verdade é que os conselhos que reservamos aos nossos eus do passado raras vezes deixam de ser pertinentes (em alguma medida) na nossa vida presente. Eu, pelo menos, nunca vi alguém generoso consigo mesmo ruminando como gostaria que a sua versão de 17 anos tivesse sido mais generosa consigo mesma. Não, a regra é o oposto disso: o conselho que daríamos para quem fomos costuma ser o mesmo que ainda precisamos escutar.

Só que é difícil. Ora, ao contrário de olhar para o passado, mirar o presente convoca à ação. E justamente por isso é tão complicado. Perdemos aquela segurança do espectador que pode gritar para a televisão a jogada perfeita e caímos no imenso desafio de jogar no Maracanã lotado. Saímos de comentadores para jogadores —e isso é desconfortável.

Se quisermos melhorar nosso coração, entretanto, é fundamental suar a camisa. Se quisermos que esse ano seja diferente de todos os anos nos quais vimos nossas promessas de réveillon se apagarem, será preciso arriscar algo diferente. E seguir o conselho que temos facilidade de nos dar examinando o que fomos talvez seja o primeiro passo.

Por isso, com frequência, peço que meus pacientes escrevam uma carta para o adolescente ou a criança que foram. É impressionante como é fácil ter compaixão por esse serzinho apagado no tempo. Depois de escrita, peço que eles releiam a carta se perguntando o que daquilo que estão dizendo para esse "eu" do passado ainda precisam escutar. Por fim, a pergunta simples e capciosa: qual é o primeiro passo, na prática, para garantir que esse conselho será levado a sério.

A melhor terapia, muitas vezes, nada mais é do difícil processo de dar esse passo.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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