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Problemas e dilemas da ética em um mundo complicado demais

Dan Josua

16/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Você está em um casamento no campo. Está vestido na sua melhor roupa para a ocasião especial quando decide dar uma volta e conhecer o espaço onde vai ser o evento. Um pouco afastado dos outros convidados, você vê uma criança de dois anos se afogando em uma rasa poça de lama. O que você faz? Destrói a sua roupa de mais de mil reais (a mais especial que você tem) ou deixa a criança se afogar?

Não acredito que nenhum leitor simplesmente observaria imóvel a criança morrendo. O custo da roupa é absolutamente irrelevante frente à morte de uma criança. No entanto, muitos dos leitores, eu incluído nesse grupo, têm mais do que o dinheiro suficiente para salvar uma criança. E dormimos bem com isso.

Talvez parte do problema seja o fato do Brasil ser um país de muitas incertezas. Precisamos nos preparar para o pior cenário possível. Pode ser, no final das contas, que sem uma poupança suficiente a gente acabe por se tornar a criança se afogando. Racionalizamos e guardamos o que podemos sabendo que nossa segurança (e das pessoas que amamos) é mais importante do que a vida de qualquer desconhecido.

É claro que esse argumento não justifica o celular trocado anualmente ou o carro novo antes do velho ter se tornado sucata. Mas jogamos essas verdades desconfortáveis para debaixo do tapete –e eu prometo que não vou entrar nessa seara. Gastamos e temos todo o direito de gastar o que ganhamos honestamente da maneira que quisermos. Podemos ter quantos ternos Armani quisermos. E, com frequência, no frigir dos ovos da vida prática, o pequeno ou grande luxo é mais importante do que um desconhecido pedindo comida.

E é bastante interessante que seja assim, que tenhamos nos acostumado a escolher naturalmente, muitas vezes, a roupa no lugar da doação. Especialmente dado como respondemos à primeira questão proposta nesse texto. Quando nos vemos frente a criança se afogando, imediatamente vestimos a carapuça de herói e mandamos a roupa às favas. No dia-a-dia, entretanto, para muitos, o contrário é verdade.

Mas o que mudou de um cenário para o outro?

A saliência da emergência da situação isto é, o quanto a sentimos emocionalmente. Ver uma criança se afogando traz uma urgência que aciona mecanismos intuitivos de nosso comportamento moral. Ora, seres humanos são constituídos em torno de sua capacidade de viver socialmente: a sobrevivência de cada indivíduo da espécie está ligado ao sucesso do coletivo em que ele está inserido. É pouco provável que nossa espécie tivesse sobrevivido à savana sem esse impulso de cuidar dos mais indefesos do grupo. Dependemos, naturalmente, um dos outros. Assim, ver a criança lutando pela própria vida nos empurra instintivamente para a ação. Não paramos para fazer, nesse caso, a conta e estabelecer o valor de uma vida. Nenhuma pessoa em sã consciência (espero) vê uma criança se afogando na lama e se pergunta se essa vida vale mais ou menos do que mil reais.

O conflito com a pobreza no nosso dia-a-dia, pelo outro lado, não é tão simples. Em geral, acabamos lidando com o sofrimento de forma abstrata ou tentamos nos isolar dele. Podemos, por exemplo, receber pedidos de doação e de ajuda vendo fotos ou textos na internet e o pedido fica distante, sem o apelo gutural. Ou, pelo outro lado, nos perdemos na enormidade do problema, especialmente em um país como o nosso, e tentamos nos afastar.  São os momentos em que fechamos o vidro do carro, andamos sem dinheiro na carteira e paramos de olhar nos olhos dos pedintes que cruzam nosso caminho.

O mundo atual se tornou tão complexo que a intuição moral escrita nos nossos genes não serve mais como uma bússola infalível. Em um experimento mental, podemos ver a dificuldade da questão. Para quem não sabe, experimentos mentais são comuns em discussões filosóficas, pois permitem que a gente se aproxime do cerne de algumas questões. Imaginar nossa reação ao menino se afogando no começo do texto é uma espécie de experimento mental.

Mas voltando à dificuldade da questão, imagine a seguinte situação. Você está frente a duas portas em um prédio pegando fogo. Em uma das portas está uma pintura do Picasso (que seria sua) avaliada em centenas de milhões de dólares. Na outra, um bebê de colo. Só há tempo para salvar um dos dois. Qual porta você abre/ quem você decide salvar? Nossa intuição moral, em geral, nos empurra para salvar a criança. E, de fato, é difícil confiar nas intenções e inclinações da pessoa que escolheria o quadro.

No entanto, se olharmos para a questão de uma perspectiva lógica ou utilitária (isto é, olhando qual decisão aumenta a felicidade do maior número de pessoas), o correto talvez seja salvar o quadro. Afinal, com ele poderíamos salvar dezenas de milhares de crianças em situações tão graves quanto a do menino no prédio pegando fogo. É extremamente difícil fazer isso porque não estamos vendo essas crianças sofrendo. Mas a verdade de um mundo com mais de 7 bilhões de pessoas é que essas crianças existem, ainda que estejam escondidas longe dos nossos olhos. O quadro, nesse cenário, é a ferramenta para salvar o máximo de vidas.

Do ponto de vista de nossa intuição, é difícil engolir a ideia de que pegar o quadro seja a resposta ética. Mas tente imaginar uma pequena modificação no cenário. Você continua frente a duas portas, mas uma delas está trancada. Entre as salas está a mesma pintura do Picasso. Dessa vez, entretanto, atrás da porta trancada estão milhares de crianças. Você pode usar o quadro para arrombar o cadeado dessa porta ou simplesmente salvar o bebê da outra sala. O que você faz? Salva milhares de crianças usando o quadro como instrumento ou vai para o caminho mais direto de salvar apenas uma vida sem usar o quadro?

Quando a situação é descrita desse jeito, parece mais difícil escolher a porta destrancada. O que exige uma questão final: qual a diferença entre usar o quadro para arrombar uma porta e usar o dinheiro da venda do quadro para comprar comida para as milhões de crianças que passam fome todos os dias? Confesso que, retirada a resposta emocional e gutural que nos impede de deixar uma criança sofrendo, fica difícil acusar alguém de pegar o quadro (e usar esse dinheiro para melhorar o mundo).

Se você é como eu, está tentando procurar alguma exceção ao cenário, alguma maneira de não precisar tomar uma decisão. Infelizmente, não há saída milagrosa. O experimento mental serve, justamente, para nos colocar (desconfortavelmente) em uma situação de escolha.

Esse tipo de procedimento serve para tentar trazer a complexidade do mundo em que vivemos para as decisões que ainda estamos tentando resolver de forma intuitiva. Mesmo quando a nossa intuição não parece mais ser adequada para responder a esse mundo que se tornou complexo demais.

É preciso, pois, pensar em uma nova ética para os tempos modernos. Alguma que inclua nossas intuições, mas que não se limite a elas. Depois, feito isso, será trabalho de psicólogos, filósofos e sociólogos descobrir como empurramos as pessoas para agir eticamente para além de suas intuições inatas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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