PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Será que é mesmo a nossa mente quem nos impede de alcançar o impossível?

Dan Josua

23/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Os especialistas em corrida concordavam: o corpo humano não podia correr uma milha, ou cerca de 1.600 metros, em menos de 4 minutos. Há mais de cem anos, atletas tentavam contradizer o argumento dos céticos e se desafiavam a quebrar essa barreira que, no entanto, permanecia intransponível. Até que, em uma tarde nublada em Oxford, no Reino Unido, no dia 6 de maio de 1954, o corredor inglês Roger Bannister realizou o impossível. Cumpriu esse percurso em 3 minutos e 59 segundos.

Ou seja, depois de mais um século em que a meta dos 4 minutos parecia ludibriar os melhores corredores do mundo, um ser humano mostrava que era possível quebrar essa barreira. E, menos de dois meses depois, o corredor australiano John Landy também quebrava essa marca — de lambuja, ainda abaixava um pouco o tempo de Bannister.

A meta se mostrou impossível durante um século para então, em um mesmo ano, ser superada mais três vezes. Isso sem contar os mais de 1.400 atletas que a ultrapassaram até os dias de hoje — alguns deles adolescentes ainda no colegial.

Seria, portanto, como se a mente humana —a própria noção de que essa marca seria insuperável — estivesse segurando os atletas até Bannister romper a barreira. A partir desse momento singular em que se provava que a meta podia ser batida, os corredores deixaram de acreditar nos limites impostos pelos seus cérebros e passaram, um depois do outro, a superá-la. A lição por trás do feito de Bannister é iluminadora e profunda: podemos muito mais quando deixamos de acreditar nos limites que nossa própria mente nos impõe.

Ou, pelo menos, é isso o que palestrantes de autoajuda e autores de livros para ter sucesso nos negócios repetem em vídeos inspiradores por aí. Eu mesmo me vi animado assistindo a uma dessas palestras no meu celular esses dias. Fiquei agitado porque a ideia é, de fato, sedutora —a única coisa que nos afastaria dos nossos sonhos seria o nosso pessimismo. Quem mexer, de alguma forma mágica, em sua mentalidade derrotista poderá alcançar tudo o que desejar. Acho que todos nós queremos comprar essa linda história de pensamento positivo.

Mas essa não é a lição contida na história de Bannister, quando a gente se dá ao trabalho de investigá-la um pouco mais a fundo. A conversa motivadora sobre o poder da mente humana pode trazer ânimo, mas, como Bruce Dorey aponta em seu livro Lift: The Nature & Craft of Expert Coaching (ainda sem tradução para o português), não faz justiça à história do esporte. Dorey demonstra como os resultados dos corredores da época vinham melhorando em um ritmo mais ou menos constante havia anos, a ponto de a superação da marca parecer algo inevitável. O próprio Bannister, em entrevista concedida 20 anos após sua conquista, afirmou que a marca iria ser quebrada. Sua dúvida era quem a quebraria e quando, mas não se a marca dos 4 minutos seria superada.

Mais ainda, jogar tudo para uma faculdade mental imensurável é injusto com os esforços e o gênio dos atletas que quebraram a marca. Bannister, por exemplo, revolucionou a modalidade da corrida ao deixar que seus colegas ditassem o ritmo de sua passada e ao insistir na importância de estabelecer um ritmo constante, tanto para suas passadas quanto para a sua respiração. Já John Landy, o corredor australiano que superou a marca de Bannister nem dois meses depois de ela ter sido estabelecida, vinha praticando uma recomendação revolucionária proposta por seu novo técnico — os então inovadores treinos intervalados.

Assim, se há um aprendizado fundamental na história de superação desses atletas, ele não está no poder de libertar nossas mentes do impossível. Infelizmente, nada tão simples é possível. A grande superação vem de trabalho, esforço e repetição, associados ao gênio de repensar a maneira de se preparar para uma prova.

A má notícia é que não é o momento de insight assistindo a uma palestra —ou lendo um texto — que vai aproximá-lo dos seus sonhos. Ninguém nunca encontrou um atalho. E quem fica lhe dizendo isso está, sinto avisar, vendendo uma promessa feita de vento. O caminho continua sendo o mesmo de sempre: suor e talento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

Blog do Dan Josua