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O paradoxo da ansiedade: não dá para sair do buraco cavando 

Dan Josua

30/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Sempre que tenho uma semana particularmente corrida pela frente, eu me vejo fazendo uma matemática mental pouco produtiva. Começo a calcular as minhas horas de sono. Se vou acordar às 7h da manhã, então preciso estar na cama às 22h45 para tentar adormecer antes das 23h30 e ter perto de oito horas de descanso. Do jeito como a vida é, esse cálculo me traz mais estresse do que boas ideias. O que geralmente acontece é que o relógio bate 21h30 e eu ainda nem entrei no banho. Rapidinho, o desespero começa a ganhar pele: "você não vai conseguir descansar o bastante" , é o que minha ansiedade martela.

Aos poucos, o desespero de acordar no dia seguinte cansado, não prestar a devida atenção ao paciente em crise, não estudar o que preciso ou até mesmo não conseguir escrever este texto com cuidado passa a tomar conta de mim. O nervosismo dispara e, quando eu finalmente me deito (meia-noite?), o sono se recusa a vir. "Eu não posso me preocupar agora porque eu preciso dormir",  tento convencer a minha mente.

Mas o cérebro humano não funciona assim —e quanto mais eu tento jogar a preocupação pela janela, mais tempo eu fico pensando em problema. Minha ansiedade sobe até o momento em que dormir é um sonho infantil (desculpe o trocadilho). Essa experiência, sei, não é só minha —e tampouco restrita ao ritual de sono. Ela é um recorte do paradoxo clássico da ansiedade, que deixa, com frequência, o seu tratamento tão escorregadio.

O ansioso costuma vir com uma demanda clara ao consultório de um psicoterapeuta (ou de um psiquiatra). Diz ele: "eu não quero mais me sentir assim". O que é absolutamente justo. A ansiedade clínica, isto é, aquela descrita em manuais de psiquiatria, é absurdamente dolorosa. E é natural que uma pessoa queira fazer com a ansiedade o mesmo que quer fazer com qualquer outra dor: livrar-se dela e de qualquer coisa que possa estar relacionada a ela. No entanto, é nessa dança do querer se livrar da ansiedade que esse estado ganha asas e passa a crescer até o ponto em que existe mais ansiedade do que vida no dia do paciente.

Afinal, agora uma nova lei passa a comandar a sua vida: é preciso estar atento a qualquer sinal de desconforto para rapidamente tentar me livrar dele. E adivinha o que é necessário emocionalmente para você ficar de prontidão e reagir a qualquer sinal de perigo? Exatamente, é preciso ficar ansioso. O ciclo se retroalimenta e a estratégia criada para combater a ansiedade acaba produzindo mais estado de prontidão e ansiedade.

Preso nessa roda de hamster, o paciente chega ao consultório acreditando que o psicólogo vai ter uma explicação genial para terminar com toda aquela sensação: "se eu entender a causa disso tudo, o mal-estar vai passar", ele costuma crer. Ou, no mínimo, pensa que vai aprender alguma técnica perfeita para eliminar todas essas sensações ruins que vem sentido. Em outras palavras, ele continua cavando para sair do buraco e acredita que o psicólogo vai oferecer uma pá melhor, ou uma escavadeira até, para insistir na mesma busca —a de eliminar a ansiedade —  só que com mais tecnologia.

É difícil, nesse momento, explicar o paradoxo da ansiedade para quem está nessa areia movediça. O problema, de certa maneira, não é tanto sentir coisas horríveis, mas o ciclo em que nos metemos enquanto sentimos essas coisas extremamente desagradáveis. Isso quer dizer que o terapeuta pode até ensinar boas estratégias, como evitar a hiperventilação respirando sentindo o próprio diafragma.  Mas o que mais fará diferença será uma mudança de mentalidade. É preciso, de alguma forma, ter disposição para sentir coisas ruins.

Porque, paradoxalmente, essa disposição limita a sensação ruim a apenas isso: algo passageiro, que tem começo meio e fim. Uma crise de pânico, por exemplo, se simplesmente a esperamos passar, não demora mais do que alguns minutos. É o processo de tentar evitá-la que toma horas ou anos da vida.

A minha preocupação com a quantidade de horas que eu tenho para dormir deixa o processo evidente. Afinal, o que aconteceria se eu simplesmente dissesse: se eu dormir pouco, ficarei um pouco mais cansado amanhã. Se eu estiver mais cansado, eu provavelmente vou dormir mais fácil no dia seguinte. Será que dá para topar um dia com um cafezinho a mais? E, de repente, quando a mentalidade é de disposição, a ansiedade naturalmente abaixa. O perigo que a minha mente tinha deixado ficar enorme volta para o tamanho dele. E, ao não precisar dormir, eu finalmente posso adormecer. Ao parar de cavar, é possível sair do buraco.

Uma observação final: vale dizer que o melhor tratamento para transtornos de ansiedade é uma combinação de medicação, a qual de fato pode diminuir as sensações terríveis do sujeito ansioso, e psicoterapia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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