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Depressão: por que antidepressivo funciona melhor com terapia e vice-versa

Dan Josua

06/02/2020 04h00

Crédito: iStock

A pessoa deprimida vê o mundo de maneira diferente enxerga mais coisas negativas do que alguém saudável. Uma nota ruim na escola costuma ser sentida como a prova cabal de sua burrice e inaptidão. A desaprovação de um chefe serve de evidência de sua completa incompetência. O tempo que uma mensagem demora para ser respondida é sinal de falta de amor e assim por diante.

Até mesmo em ambientes controlados de pesquisas, quando os cientistas apresentam à pessoa deprimida a imagem de um rosto ambíguo —com uma expressão meio de tristeza, meio de felicidade —, a probabilidade maior é de ela reconhecer apenas o lado triste na face ilustrada.

Deixar de estar deprimido, em muitos casos, é  voltar a olhar o mundo sem esse viés negativo onipresente. Dito de outra forma, seria ver a realidade como ela é, com seus azuis, seus cinzas e seus amarelos. E, como todo bom terapeuta sabe, a medicação antidepressiva pode ser uma ferramenta fundamental para essa mudança e, como todo bom psiquiatra sabe, uma boa terapia pode ser igualmente importante. Psicoterapia e psicofarmacologia funcionam melhor quando atuam de mãos dadas. Mas por quê? Como explicar isso?

Está bem, vou confessar: eu estou louco para falar da hipótese neuropsicológica cognitiva (HNC), publicada em artigo deste ano por duas geniais psiquiatras da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Beata Godlewska e Catharine Harmer. Mas, antes, acho que você, leitor, precisa saber algumas coisinhas que todo psiquiatra e muitos psicólogos sabem.

Primeiro, que cerca de 30% dos pacientes deprimidos demoram para achar a medicação correta. Eles com frequência precisam passar por um cansativo processo de tentativa e erro. E mais: o antidepressivo demora de quatro a seis semanas até produzir efeitos clínicos relevantes. Sim, iniciar um tratamento para depressão exige tanto paciência quanto esperança de quem já está mentalmente exausto. Uma vez superadas essas barreiras, o tratamento pode verdadeiramente revolucionar a vida de quem sofre.

Mas, veja que curioso, se o humor pode demorar tudo isso para mudar, hoje sabemos que a medicação faz efeitos no cérebro muito antes. É possível literalmente ver isso por meio de exames sofisticados de ressonância magnética funcional, os quais mostram que os remédios antidepressivos têm um efeito precoce nas estruturas neurais que se tornam modificadas pela depressão. Isto é, as imagens de uma cabeça em ação mostram que, mesmo poucos dias depois de iniciada, a medicação já "normaliza", por assim dizer, a atividade das áreas do cérebro que antes tinham um funcionamento típico da depressão.

Outros estudos, com testes comportamentais, chegam à mesma conclusão. Lembra que deprimidos tendem a apresentar maior dificuldade para reconhecer a parte alegre em uma face ambígua, meio triste e meio feliz? Pois é, nos primeiros dias após iniciar a medicação, as pessoas deprimidas já são capazes de perceber essa ambiguidade tão bem quanto as pessoas saudáveis.

Apesar disso, veja, esses pacientes ainda não se sentem melhor. Ou seja, seu humor continua tão deprimido quanto antes de tomar o medicamento, embora seu cérebro e sua atenção já tenham mudado, perdendo aquele viés negativo que os caracterizavam.

Olha que loucura: o remédio está fazendo efeito, mas o paciente ainda não melhorou. Por que isso acontece? Chegamos, finalmente, na teoria das psiquiatras de Oxford, segundo a qual é preciso tanto a quebra desse viés negativo quanto a construção de uma nova relação com o ambiente social para que a depressão seja devidamente tratada. Portanto, depois de o remédio quebrar a tendência negativa típica do olhar de um deprimido, é preciso que outro olhar, o saudável, se volte para a vida e estabeleça uma nova relação com ela. Uma relação, para retomar a nossa metáfora, que possa reimprimir o colorido ao mundo.

O tratamento, assim, está incompleto se o viés negativo não é, de alguma forma, desconstruído —no caso, pelo medicamento. Mas ele também é insatisfatório se não garantir que uma nova visão de mundo se construa a partir da retomada do contato da mente saudável com o ambiente social, algo que seria o papel da terapia. Assim, faz sentido que psicoterapia e psicofarmacologia funcionem bem se estão de mãos dadas. Uma boa terapia empurra o paciente de volta para o mundo e uma boa medicação ajuda a garantir que, ao ser empurrado, ele vá encontrar o mundo como ele é, e não como o cérebro deprimido costumava enxergá-lo.

Mas, se a HNC ajuda a gente a entender a importância da aliança entre a psicologia e a psiquiatria, ela ainda tem algumas outras implicações importantes para o tratamento da depressão. Considere o que já expliquei:  uma das maiores dificuldades do tratamento medicamentoso é que, com frequência, parece difícil encontrar o remédio correto. Tal processo é ainda mais incômodo porque não apenas o paciente continua sofrendo como o fármaco, às vezes, traz efeitos colaterais desagradáveis nos dias iniciais. Some a isso o demorado tempo de espera: 30% dos pacientes aguardam seis semanas após iniciar um tratamento para no final desse tempo descobrirem que essa não era a medicação ideal para eles. Isso pode ser extremamente frustrante e, portanto, não é de se estranhar que muitos desistam de se tratar antes de o remédio certo para o seu caso ser encontrado. Aliás, as desistências acontecem especialmente quando as pessoas não são informadas a respeito desse processo.

No entanto, no caso de pacientes em que a medicação começa a fazer efeito logo nos primeiros dias, é de se esperar que apresentem uma melhora em seu humor depois de um mês e pouco. E é exatamente isso que alguns estudos recentes encontram: aqueles que têm o cérebro deprimido modificado nos primeiros dias de tratamento demonstram uma probabilidade muito maior de melhorar de sua depressão após seis semanas. Se essa hipótese for comprovada, será possível que o processo de tentativa e erro para a escolha do medicamento seja encurtado.

É claro que muitas pesquisas precisam ser realizadas antes de esse modelo ser amplamente aplicado no dia a dia, mas é animador pensar que o tratamento deve se tornar ainda mais eficiente em um futuro próximo. Ou seja, boas notícias neste início de ano para quem sofre ao ver o mundo pelas lentes da negatividade de uma depressão.

Se você quiser saber mais sobre o assunto, o artigo original de Godlewska e Harmer está disponível na íntegra na internet (em inglês).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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