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A psicologia na era digital: novas tecnologias podem ajudar a psicoterapia?

Dan Josua

13/02/2020 04h00

Crédito: iStock

A psicologia tem uma relação interessante com a tecnologia. Já em meados da década de 1960, o primeiro computador-terapeuta apareceu. Criado pelo cientista alemão Joseph Weizenbaum para mostrar a limitação das máquinas para se comunicarem com seres humanos. O aparelho, apelidado de Eliza, foi "ensinado" a responder semelhante a uma técnica popularizada pelo psicólogo americano Carl Rogers. A chamada reflexão rogeriana, simplificando um pouco, consiste em tentar repetir para o paciente aquilo que ele acabou de lhe falar —a ideia é a de que, muitas vezes, precisamos apenas nos ouvir para podermos, livremente, escolher mudar.

Assim, o script de Eliza classificava as palavras ou o conjunto de palavras que pareciam mais relevantes na fala da pessoa e as repetia de volta. Só que, colocada no campus do Instituto de Tecnologia de Massachussets, o famoso MIT, Eliza ganhou uma vida para além das intenções de seu criador. Até mesmo a secretária de Weizenbaum passou a se "consultar" com o computador — dizem que ela, às vezes, pedia privacidade para poder conversar a sós com Eliza. O cientista alemão ficou chocado com a reação dessas pessoas e escreveu um livro para comentar a tendência humana de antropomorfizar máquinas —isto é, de enxergar humanidade nelas.

É claro que a moda passou e, hoje, ninguém acharia que uma Eliza ou uma versão até muito mais sofisticada, como a Siri dos telefones da Apple —daria uma terapeuta decente. Mas novas tecnologias têm aparecido e, de fato, auxiliado em alguns tratamentos.

Uma conhecida técnica conhecida por "exposição com prevenção de respostas", por exemplo, ganhou um impulso recente com o uso de tecnologias de realidade virtual. Essa técnica, para abreviar, consiste basicamente em aproximar a pessoa daquilo que ela teme em um ambiente seguro, de modo que o cérebro dela passe a entender que esse objeto fóbico não exige mais aquele medo todo.

Assim, se alguém tem fobia de baratas, o tratamento mais eficaz de acordo com essa técnica seria ajudá-lo a gradualmente se aproximar de uma barata de verdade. E, sim, já vi terapeuta na garagem do prédio atrás de baratas para levar para sua paciente —dedicação que, confesso, não sei se eu teria. Vale comentar que, apesar de mitos em torno disso, a fobia de barata, quando tratada dessa forma, não tende a migrar para um novo tipo de fobia.

A questão é que é difícil para o cérebro humano , aparentemente, diferenciar uma barata de realidade virtual daquela encontrada em qualquer garagem do centro de São Paulo. Desse modo, seria possível fazer o mesmo tratamento com uma barata digital, usando um daqueles óculos especiais de realidade virtual.

Bom, ninguém que precisa perder o medo de barata vai ter grandes dificuldades para encontrar um terapeuta disposto a colecionar insetos pela cidade (acho). Mas imagine outras fobias, como a de andar de avião — pense no custo de comprar 10 passagens aéreas para poder começar o tratamento! A situação de um voo, porém, pode ser facilmente construída em um ambiente virtual. O mesmo vale para a fobia de falar em público ou para o medo de altura, por exemplo.

De forma similar, a técnica de exposição pode ser usada em pessoas que apresentam o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Quem sofre de TEPT tem sua vida transformada uma vez que se vê presa ao episódio traumático. É o caso do sujeito que é invadido por imagens do assalto que sofreu enquanto caminhava pela cidade e que acaba se encurralando e diminuindo sua vida para não encarar essas memórias extremamente angustiantes.

Parece contra a nossa intuição, mas garantir que essa memória seja de fato experimentada, contada e recontada em um ambiente seguro é o tratamento mais eficaz para essa enfermidade. Por isso, também no TEPT o uso de realidade virtual — especialmente com cenas de guerra para soldados — tem se mostrado uma ferramenta incrível aliada às terapias mais tradicionais.

No entanto, é fundamental ficar atento a abusos. Hoje mesmo assisti à cena de um documentário sul-coreano em que uma mãe que tinha perdido a filhinha de 8 anos para uma doença se reencontrou com a versão virtual da menina. Não pude entender exatamente o que se estava passando porque o filme era todo em coreano e sem legendas. No entanto, ver as tentativas frustradas da mãe de encostar os dedos no cabelo digital da filha foi uma agonia. Mesmo sem entender as palavras é difícil não se emocionar com o tom de voz da mulher ao rever a filha e notar o retorno macabro da voz da garota recriada por um computador. A mãe chora e o espectador se emociona, mas é difícil entender o propósito dessa cena.

Acho que, se a minha filha tivesse falecido — é difícil até escrever estas palavras —, eu faria qualquer coisa para rever seus cachinhos loiros mais uma vez. Mesmo que fosse em uma pálida cópia digital. Mas é preciso se perguntar: será que eu deveria ser atendido em meu pedido? Será que isso iria, no final das contas, me fazer bem ou mal?

É claro que, em alguma medida, essa pergunta deve ser respondida na prática —e a resposta vai variar de pessoa para pessoa. É possível que aqueles que não tiveram a chance de se despedir de alguém querido possam encontrar um grande consolo nessa oportunidade. Por outro lado, é fácil imaginar como essa simulação pode tornar impossível que um pai faça exatamente isso: se despeça. E, assim, sem dizer adeus, ele ficará preso em um ciclo infinito de melancolia do luto.

Precisamos, enquanto sociedade, pensar com calma à medida que essas tecnologias se tornam cada vez mais acessíveis sobre o uso delas. É necessário questionar quais boas ideias podem se transformar em lentas máquinas de tortura para quem está mais fragilizado. Para isso, acredito, é fundamental encontrar uma base ou explicação teórica muito sólida antes de realizar qualquer um desses testes com tecnologias inovadoras. Na minha opinião, é fundamental que a decisão seja tomada por médicos, psicólogos e pacientes em conjunto —e não pela inovadora empresa de tecnologia vendendo o seu produto para pessoas vulneráveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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