PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Quando nasce um ser humano? A linguagem tem papel fundamental

Dan Josua

27/02/2020 04h00

Crédito: iStock

O debate em torno do aborto, do ponto de vista lógico, é apenas uma guerra em torno dessa pergunta. Quem defende o direito de a mulher abortar acredita que a vida humana começa apenas no nascimento. Já quem defende a proibição do aborto acha que ela se inicia na fecundação. É claro que essa discussão se tornou tão politizada que passou a ser algo muito mais complexo do que isso. Mas, se a gente de fato parar para pensar, é essa pergunta sobre quando a vida humana se inicia que deveria ser respondida.

Sem querer mergulhar no tema do aborto —minha vida já tem polêmica o bastante sem eu falar disso por aqui —, confesso que acho ambas as posições um pouco erradas. O ser humano, para de fato nascer como tal, precisa de muito mais do que uma fecundação ou um parto. Foi fundamental que alguém nos amasse com palavras para nos transformarmos de fetos em crianças. Somos essencialmente diferentes dos outros animais nesse sentido.

Tente imaginar uma cobra e se pergunte: o que é preciso para que ela se torne cobra depois de quebrada a casca do ovo? Uma cobra pode aprender muito ao longo de sua vida. Ela pode perceber o lugar onde mais presas se escondem, por exemplo. Mas é impossível conceber uma cobra que não se tornou uma cobra ao longo de sua vida. Para a sua transformação de feto a animal adulto, uma serpente deve somente sobreviver. Ela carece de água e alimento apenas.

Agora, o que acontece com um recém-nascido humano se lhe oferecemos uma dieta repleta de alimentos e bebidas saudáveis e mais nada? Ele se torna gente? Será que basta que um bebê não morra para que ele se desenvolva em um ser humano comum?

Infelizmente, alguns casos ao longo da história respondem isso claramente e de forma negativa. Sem uma comunidade que lhe apresente a linguagem, um bebê pode até sobreviver, mas é improvável que ele vá aproveitar daquilo que consideramos humano. Essa criança dificilmente aprenderá a rir ou a apreciar um por de sol, entre outras coisas.

É estranho quando a gente pausa para pensar: achar o alaranjado do horizonte digno de respeito é uma invenção do Homo sapiens. Nenhuma outra espécie conseguiria entender isso, pois essa beleza é uma "invenção" de nossa linguagem. Em outras palavras, a beleza do céu ao entardecer não está no ar, mas na capacidade específica de seres humanos de se relacionar com luz e nuvens.

Um tanto do nosso sucesso como espécie depende dessa capacidade o computador com certeza não poderia ser inventado por um macaco e acabamos esquecendo da profunda mensagem social por trás disso: somos o que somos e temos as preferências que temos pois temos a linguagem.

E, por sua vez, só temos essa capacidade verbal porque ela nos foi ensinada. Em outras palavras, somos aquilo que fizeram e falaram de nós. A liberdade, portanto, começa quando reconhecemos esse processo e procuramos fazer escolhas cada vez melhores de com quem falar e com quem nos (re)construir.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

Blog do Dan Josua