PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Mostrar feridas emocionais ajuda os outros: todos já apanhamos da vida

Dan Josua

05/03/2020 04h00

Crédito: iStock

De repente, eu me vi quase chorando no show noturno de um resort. Não, não fiquei com os olhos mareados por conta da montagem baixo-custo e meio karaokê de O Rei Leão que estava sendo encenada. Fiquei triste porque me dei conta que um dia minha filha também vai se sentir mal consigo mesma.

Assistindo à pecinha com ela no meu colo, lembrei que, com 7 ou 8 anos, eu não teria coragem de me sentar nas primeiras fileiras de uma apresentação como aquela. Não porque eu não queria estar na frente, mas porque eu, por alguma razão, não achava que merecia estar sentado em um lugar de destaque. Quase como se eu pensasse que tinha algo de inadequado comigo.
Talvez eu estivesse com vergonha de fazer alguma coisa errada e ser ridicularizado… Mas o que eu poderia fazer de tão errado e por que essa vergonha me causava tanto incômodo? Naquela situação, eu literalmente só precisaria ficar na plateia assistindo à peça.

A verdade por trás dessa vergonha é que, mesmo nessa idade, eu já tinha aquela estranha sensação de que em algum momento descobririam quem eu era e que isso seria catastrófico por alguma razão. Precisava guardar um segredo que nem eu mesmo sabia qual era. Pode ser por esse motivo toda aquela tensão e vigilância, não sei ao certo. Sei apenas que me sentia como, se alguém descobrisse, eu inevitavelmente seria abandonado e humilhado. Uma conclusão trágica para um menininho de 7 anos –mas algo que demorei décadas para entender o absurdo.

E… quer saber? Muitos adultos ainda se sentem assim. A grandíssima maioria de nós, eu aposto. Sei que, na última vez que ouvi alguém perguntar sobre isso, em uma conferência com mais de 300 pessoas, notei mais de 300 mãos se levantarem para admitir que se lembravam de algum momento na infância em que se sentiram desse jeito. Em seguida, observei quase que o mesmo número de braços se reerguendo para confessar que ainda carregavam essa dor. Até mesmo em lares permeados de amor, muitas crianças passaram a acreditar que havia algo de errado com elas e carregaram esse pavor solitariamente até a vida adulta.

A minha filha possivelmente também vai chegar algum dia em casa sentindo tudo isso. Irá abrir a porta da cozinha e inventar uma indisposição para se trancar no quarto. De um dia para o outro, o sorriso meigo e encantado com que ela assistiu à peça de agora precisará dividir espaço com uma contorção de dúvida em seu lábio. Ela em algum momento irá se deparar com um mundo lhe dizendo que, para ser amada, ela precisará mudar. E talvez ela acredite nessa mensagem idiota.

Espero então poder lhe dizer, como eu ouvi, que amor não funciona assim –que todo mundo é digno de ser amado e que ela é uma pessoa incrível. Espero que ela não jogue minhas palavras fora como eu fiz com as dos meus pais. Tomara que a sua cabeça não rebata a minha mensagem com os mesmos pensamentos que eu tinha no passado —"ele só diz isso porque é meu pai".

Mas, talvez, não haja nada que eu possa fazer. Talvez —e essa é a cruel capacidade da linguagem humana — a mente da minha filha vai trazer, insistentemente, um "mas" para cada elogio que ela ouvir. Você é muito inteligente –"mas eu sou preguiçosa". Você é muito bonita –"mas eu nunca namorei". Você é muito doce –"mas eu às vezes não sei me colocar". Você é muito forte –"mas eu às vezes machuco as pessoas sem perceber". E assim por diante.

Sei que não posso controlar a vida dela. Nenhum pai e nenhuma mãe pode. A vida se encarrega de castigar todo mundo. Dor, perda e morte são partes inescapáveis da existência —já diria o Buda, parafraseando.

Se o sofrimento humano é universal, a melhor coisa que podemos fazer por quem amamos é deixarmos nossas cicatrizes à mostra. Possivelmente, o melhor a dizer para alguém que está se deparando com esse sofrimento pela primeira vez é: "eu sei como é, seja bem-vindo". Ser ferido é parte de ser humano, e podemos mostrar como fazemos parte de uma comunidade maior do que imaginamos. Esses machucados não nos quebram, pelo contrário, podem nos fortalecer.

Assim, se há algum significado importante nas nossas cicatrizes, é o de poder entender as dores das crianças que amamos, uma vez que somos capazes de nos colocar no lugar delas. Eu, sinceramente, prefiro ter sofrido a imaginar que precisaria deixar minha filha sofrendo sozinha, porque seus pais não sabem do que ela está falando.

Esse "eu sei" que podemos dizer aos nossos filhos vem da profundidade de quem admite que também já apanhou da vida. Um "eu sei" lembrando que vale seguir sorrindo de cabeça erguida, ainda que agora o rosto precise abrir espaço para um pouco de dor. E, se vocês querem saber, a leve possibilidade de que as minhas próprias cicatrizes sejam necessárias para que eu possa entender e cuidar da minha filha já fazem com que todas as dores do passado tenham valido a pena.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

Blog do Dan Josua