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Coronavírus tem afetado nossa saúde mental, mas dá para tirar lições disso

Dan Josua

26/03/2020 04h00

Crédito: iStock

Quando este texto for para o ar, um pedaço importante do país estará parado. Alguns em casa, fingindo produtividade enquanto filhos destroem a sala do lado. Outros, menos afortunados, fazendo contas de como irão sobreviver sem o seu ganha-pão de todos os dias. Isso sem falar nos enfermos e nos assustados com a doença –principalmente aqueles que fazem parte de um grupo de risco e veem a sua vida, de uma hora para a outra, ameaçada por um ridículo agente microscópico.

Parar o país por conta de um vírus tem muitos efeitos. Na saúde, permite que a curva de infectados seja achatada, dando um espaço de respiro para que médicos, enfermeiros e outros profissionais do setor possam fazer seu trabalho antes de o sistema de saúde entrar em colapso. Em outras palavras, quando especialistas dizem por aí que precisamos ficar de quarentena, defendem que isso pode ser fundamental para manter o fluxo de novos doentes nos hospitais o mais baixo possível –assim, não apenas quem tem a covid-19 pode ser bem atendido, mas também os milhões de brasileiros que continuarão precisando de assistência por outras razões. Aliás, o difícil de compreender quando as pessoas fazem esse cálculo mental é que a pandemia apenas soma enfermos ao sistema –afinal, ninguém deixa de ter problemas cardíacos, por exemplo, porque um vizinho contraiu o novo coronavírus.

Na economia, os impactos são ainda mais incertos e profundos. O que vai acontecer com a população quando o PIB diminuir? Quem vai pagar por essa parada nas atividades produtivas? Detesto ser cínico, mas acho difícil que os grandes bancos e empresas estejam batendo no peito e pedindo para assumir a conta. No final, a dívida pesada deverá ficar nas costas de quem costuma arcá-la –dos marginalizados, das classe média e dos menos favorecidos. Queria que fosse diferente –e tenho um resto de otimismo em mim acreditando que é possível que muita gente que pode bancá-la irá, no meio dessa crise, levantar a mão e contribuir para aliviar o fardo de quem está sem ter como pagar as próprias contas. O tempo dirá… (mas, para quem quiser, existem algumas iniciativas).

Na nossa saúde mental, que posso comentar com maior propriedade, os danos não serão menores.

Primeiro, precisamos reconhecer que, infelizmente, preconceitos e medos irracionais deverão surgir. É o que sempre acontece quando um inimigo invisível aparece do nada, procuramos o primeiro bode expiatório visível que possa representá-lo. Infelizmente, os heróis do momento –médicos e enfermeiros na linha de frente – foram os primeiros a sofrer com essa paranoia da covid-19. Enfermeiras de São Paulo, por exemplo, deram entrevistas dizendo que foram hostilizadas no transporte público, com gente fazendo sinal da cruz, pedindo distância e até cuspindo. Tudo isso porque vestiam roupa branca, entregando que podiam estar próximas de pacientes com doença e como se merecessem ser excomungadas.

Nesses tempos a letra escarlate é o avental branco que simboliza uma pessoa que está se dedicando a salvar a sua vida. É triste ver o que acontece quando ignorância se junta à ingratidão… Já na Itália, todas as noites, as janelas se abrem para o povo cantar em homenagem aos profissionais de saúde que se sacrificam pelo país. Gostaria que o nosso presidente perdesse cinco minutos de seu tempo para propor algo simples e positivo assim, mas sei que isso está bem distante do discurso persecutório de ódio que sai de sua boca.

Vamos sofrer psicologicamente pelo isolamento social, sem dúvida. Sem contato físico com outros seres humanos, podemos nos sentir sozinhos e isso é receita para uma depressão começar a tomar conta. O que não deixa de ser estranho, pois, ao mesmo tempo, esse isolamento é o esforço mais coletivo que já presenciei. Se você está na sua casa, trancado enquanto o sol brilha lá fora, está fazendo isso porque reconhece que existe uma causa maior do que você. Somos menores do que a comunidade que nos cerca. O valor de colar um propósito ao nosso sofrimento é imensurável, acredite.

Por fim, cuidado: a quantidade de informações sobre a catástrofe tende a acelerar nossa ansiedade. Gostamos, enquanto espécie, da sensação de previsão e controle. Mas essa camada de gordura e RNA —o vírus — escancarou algo óbvio que estava debaixo do tapete. E ele é o seguinte: não podemos controlar o mundo. Somos limitados e o planeta gira à nossa revelia.

Em tentativas onipotentes de recusar essa verdade tão evidente, procuramos por mais informações (e mais e mais). Vamos atrás de detalhes do sofrimento na Itália, na China e onde for para procurar garantir que saberemos o que vai acontecer conosco. Só que é óbvio: não vamos saber. As milhares de notícias que consumimos compulsivamente não construirão uma bola de cristal. No entanto, continuamos correndo atrás do próprio rabo, mesmo sofrendo a cada nova informação. Isso porque qualquer dor parece melhor para um ansioso do que admitir que às vezes não ele não tem mesmo como saber de tudo. E que irá, como todos, morrer algum dia –o que muda é que agora um vírus mortal não nos deixa cobrir os olhos para essa verdade. Mas, se querem saber o que acho, dirigir o seu olhar para isso não vai lhe cegar. Talvez, como o platonista que finalmente saía da caverna, nossos olhos irão doer no começo, até, aos poucos, se acostumarem e se tranquilizarem na nova luz.

Os atuais elementos de saúde, econômicos e psicológicos formam a receita para um grande desastre. Mas, talvez, dessa panela possa sair algo de muito bom. Talvez, da experiência mundial de viver isso juntos, a gente volte abraçando a humanidade que nos une. Talvez, depois de ter sacrificado nosso movimento pela saúde de desconhecidos, nossa compaixão aumente. Talvez, da obviedade dos riscos sociais impostos pela queda econômica, a gente passe a se perguntar quem pode pagar a conta (e não somente quem precisa efetivamente pagá-la'). Talvez, por fim, depois de sermos obrigados a encarar toda a nossa ansiedade e a nossa neurose, a gente aprenda a aceitar nossa finitude e, com isso, ganhar liberdade para aproveitar o tempo que temos por aqui.

E, sim, posso ser um otimista ingênuo. Mas prefiro isso a ceder à lábia fácil e sedutora do cinismo, que nunca vai construir nada de positivo com sua retórica. É hora de inverter o pessimismo e procurar pelo caminho que nos leva até a luz no fim desse túnel onde nos encontramos.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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