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O mundo terrível que construímos a partir do que acompanhamos no noticiário

Dan Josua

09/04/2020 04h00

Crédito: iStock

Esses dias, quando terminei o meu último atendimento e cheguei na sala, vi minha esposa meio assustada, encarando o seu celular. Ela tinha acabado de receber uma mensagem de Whatsapp com a foto de uma manchete chocante. Uma criança de 2 semanas havia morrido após a mãe ter adoecido com o novo coronavírus.

Ela me mostrou a imagem em silêncio. Olhamos um para o outro e falamos alto o nome da minha prima, preocupados. Ela estava a alguns dias de dar à luz e o meu tio, seu pai, tinha testado positivo um pouco antes. Outros nomes de amigos e pacientes em situações semelhantes emergiram na sequência. Aquela fotinho da notícia tomou conta da nossa cabeça. Já vivíamos em um mundo onde precisávamos consolar pessoas que perdiam os filhos recém-nascidos.

Até que finalmente nos chacoalhamos e fomos procurar a notícia original. A manchete, apesar de verdadeira factualmente, era escorregadia. Não mencionava, por exemplo, um detalhe importante: a criança tinha uma doença congênita grave e foi essa a enfermidade que a levou ao óbito. Sua mãe havia, sim, sido testada positivo para a covid-19, mas não foi o coronavírus que matou a criança.

Entre raivosos e aliviados desligamos o celular. "Você precisa abordar isso", minha esposa disse. De fato, a relação que as pessoas terão com as notícias na mídia será parte importante de sua saúde mental nesse momento. E algumas chamadas são construídas principalmente para atrair leitores, em vez de informar corretamente o assunto. Concordei com ela e me vi na difícil situação de escrever este texto.

Veja, a função da mídia é dar notícias. Sei disso. Sei também o quanto o papel da imprensa é fundamental nessa fase de obscurantismo e fake news. Mas é exatamente nesse contexto que devemos ler, mesmo os veículos mais sérios, com serenidade e parcimônia.

É fundamental que a gente não se deixe levar pelo título e vá compreender com calma a matéria. Muitas vezes, até mesmo um conteúdo sério e ponderado se esconde atrás de um título chamariz. O corpo da matéria, em um veículo sério pelo menos, tende a pintar o retrato como um todo. Se a manchete fala do bebê que morreu com a mãe infectada, o texto nos conta a história de sua doença.

Gostaria que a gente não precisasse se balizar desse jeito. Acharia fantástico que a Itália em recuperação se tornasse uma notícia tão importante quanto ela foi quando estava desmoronando. Também gostaria de parcimônia em nossos líderes. De conversas apaziguadoras e pautadas em ciência.

Esse, porém, infelizmente não é o mundo em que a gente vive. A gente vive em um mundo onde a batalha é vencida por quem causa mais ansiedade ou indignação. Não é à toa que estamos sofrendo para além de nossas dores econômicas e físicas.

Falar que a gente gostaria de viver em um ambiente diferente é o mesmo que brigar contra a tempestade. Nossos berros não vão resolver o problema. Agora o momento é de abrir o guarda-chuva, por assim dizer. E se afastar de notícias sensacionalistas. Ou, quando for impossível se afastar, ler tudo até o final. Devagarzinho. Não pule frases nem parágrafos e se dê o tempo para entender o que de fato está acontecendo.

Acredite nas recomendações dos especialistas, mas, quando a notícia for particularmente ruim, lembre-se de inverter a ordem da estatística. Assim, ao saber que 1% das pessoas pode falecer, lembre-se de subtrair mentalmente —ora, então 99% irão sobreviver. A ideia não é menosprezar nem diminuir o sofrimento dos que serão impactados pelo vírus, mas lembrar que existe algo a mais para ser enxergado do que aquilo que nos impõe a nossa própria ansiedade e, por vezes, algumas manchetes.

Como uma nota separada —feito um texto dentro de um texto — vale eu dizer que o fenômeno contrário também está acontecendo e talvez seja ainda mais perigoso. Frente a notícias desagradáveis, uma parcela importante da população escolhe simplesmente ignorar a expertise dos estudiosos. O único critério de verdade, para esses, é aquilo que sentem e em que já acreditam.

Essa negação cognitiva é ainda mais perniciosa do que qualquer ansiedade. Afinal, ao contrário de procurar o sol por trás da nuvem, essa postura tenta fingir que a chuva não está caindo. Só que, se deixar levar por essa dificuldade de encarar fatos difíceis vai seguramente lhe  deixar encharcado.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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