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O vírus do pensamento mágico e quatro questões bem práticas na quarentena

Dan Josua

16/04/2020 04h04

Crédito: iStock

Eu às vezes fecho os olhos e imagino que, quando eu abrir, tudo terá voltado ao normal. Que não passou de um mal-entendido e que a vida poderá seguir normalmente. Faço a minha parte, fico recluso, porque no fundo ainda acredito que serei recompensado pelo meu bom comportamento. Se eu fizer tudo certinho, o céu vai se abrir, proteger quem eu amo e dizer em tom paternal: "bom menino".

Infelizmente, fechar as pálpebras assim não tem me ajudado a lidar com o mundo lá fora. Você conhece o cenário aterrador: escolas fechadas, trabalhadores em casa e um vírus que ninguém parece ter entendido direito. Até a voz de tranquilidade do Dráuzio Varella repete que a vida nunca mais será a mesma aqui no UOL.

Portanto, a cada vez que tento fechar os olhos, o pensamento mágico vai fazendo menos efeito. Não que eu concorde  exatamente com as autoridades –médicos podem falar de vírus, mas não sei se eles estão capacitados a prever como a sociedade irá se reestruturar quando tudo isso passar. Porque vai passar. Eventualmente.

Fecho os olhos novamente, procurando acelerar o tempo para que o fim chegue mais rápido. O efeito é paradoxal –mais o ponteiro do relógio parece se arrastar.

Aí me lembro do que vivo dizendo para os meus pacientes: não existe intervalo na vida. Agora não é diferente. Se por um lado é verdade que a vida normal foi embora, por outro isso ainda é vida. A única existência de que dispomos. E o caminho de volta exige, necessariamente, abrir os olhos.

É fundamental abandonar o pensamento mágico de que uma espécie de varinha acabará resolvendo tudo. Não irá.  Então, o único caminho para fora dessa crise é vivenciá-la.  E, nesse sentido, deixo algumas perguntas que me parecem importantes para enfrentá-la sem fechar os olhos e da melhor maneira possível:

1. Como eu sei se a falta de ar que estou sentindo é sinal da doença ou de uma crise de ansiedade?

Quem sofre de ansiedade conhece bem a sensação de puxar o ar e se sentir mais sufocado a cada inalação. Na ansiedade, o corpo se prepara para encarar um perigo e passa involuntariamente a hiperventilar, isto é, a puxar muito ar. Afinal, precisamos de mais oxigênio no sangue para fugirmos de um possível predador. Só que, no nosso mundo, onde tigres não são mais lá grandes ameaças, não temos muito para onde correr. E, paradoxalmente, todo esse excesso de oxigênio é percebido como o oposto — como falta de ar.

A essa altura, você sabe que a falta de ar é um dos sintomas da Covid-19. Talvez, só de me ler você já pausou para checar sua respiração. E, igual quando vamos ao médico e ele pede para nós respirarmos normalmente, só de checar já não temos muita certeza se estamos inspirando e expirando normalmente. Daí, é fácil notar que o simples ato de observar a própria respiração é capaz de provocar ansiedade. E ansiedade, por sua vez, provoca aquela falsa sensação de falta de ar. O ciclo está fechado.

Será que existe alguma maneira de diferenciar a falta de ar da ansiedade daquela de uma pneumonia? É claro que, sem uma avaliação médica, não dá para ter absoluta certeza, mas há pistas. Em primeiro lugar, a falta de ar da ansiedade tende a ter picos –ou seja, ela melhora quando nos distraímos ou relaxamos. Já a falta de ar de uma doença respiratória tende a ir piorando em uma constante. Também varia pouco com o nosso humor.

Dito isso, vale sempre a pena observar os outros sintomas do coronavírus, como febre e tosse, que tendem a sofrer menos o impacto de nossas cabeças.  E, antes de ir para a próxima questão, reforço que, se a dúvida persistir, será fundamental consultar um profissional de saúde.

2. Quanto tempo seria demais para uma criança ficar diante de uma tela?

Normalmente, essa resposta costuma ser numérica: algo entre 30 minutos a, no máximo, duas horas por dia. Mas a vida não está nada comum e a verdade é que fica difícil entreter as crianças sem recorrer, um pouco em exagero, para a telinha. A resposta parcial a que cheguei é simples: não conte tanto o tempo de tela e, sim, observe os outros tempos. A criança está engajada socialmente na família e tem espaço para conversar com seus pais? Ela está com intervalos para outras brincadeiras, dançar e cantar todo dia? Se essas coisas estiverem acontecendo, acho que podemos tolerar a realidade de que a criançada irá conhecer os personagens do Youtube com mais intimidade do que a gente gostaria durante o confinamento.

3. Quanto tempo é demais para um adulto ficar diante de uma tela?

Vale a mesma lógica, viu? Tempo excessivo de computador e Netflix também faz mal para adultos.

4. Como está a minha rotina?

Não ajuda em nada a neurose de eficiência na quarentena. Pode até ser que não seja o boato a história de que Isaac Newton desenvolveu sua teoria da gravidade durante o período em que ficou recluso para se proteger da peste. Eu, honestamente, duvido.

De qualquer maneira, isso provavelmente não vai acontecer com você. Não lhe conheço, mas chutaria que existem poucos Newtons por aí em qualquer dado momento…  O mais provável é que você comece a se perder em sua rotina, com as noites arrastadas e os dias cada vez mais curtos.

Por isso, no lugar da hipereficiência, se proponha a ter uma rotina simples. Com hora para acordar, hora para se exercitar e hora para se sentar para comer. Uma hora de leitura também vai lhe fazer bem, além de limitar o contato com as notícias –de preferência a um momento específico do dia.

Sem cobranças excessivas, é fundamental tentar produzir um momentum de atividade. Do mesmo jeito que é mais fácil sair para correr se saímos para correr todos os dias há dois anos, é mais fácil acordar e enfrentar a tela do computador quando a enfrentamos um pouquinho todos os dias.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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