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O mundo de um tema só: é possível falar sobre qualquer outra coisa?

Dan Josua

23/04/2020 04h00

Crédito: iStock

Todas as noites eu me sento à mesa de jantar e o desafio é lançado: hoje não vamos falar de coronavírus. Qualquer outro assunto vale. Iniciamos a refeição empolgados e esperançosos. E toda noite a gente perde o desafio.

Não sei exatamente o que acontece, mas a urgência de se falar de qualquer outra coisa se mistura com a dificuldade para mudar o tema da conversa. Por um lado, a ansiedade fica pedindo – "fala mais disso, fala mais daquilo". Por outro, de que outro assunto dá para falar?

Até mesmo escrevendo esta coluna eu sinto que tenho perdido a aposta. Queria poder escrever sobre a nossa saúde mental a partir das descobertas incríveis da ciência no campo da psicologia. Ou sobre a maneira como o nosso cérebro parece prever o mundo, por exemplo. Mas, poucas linhas adiante de uma explicação como essa eu me pergunto: como isso seria importante hoje?

E, assim, cá estou eu outra vez, tentando selecionar algum aspecto de nossas vidas que foi alterado pelo vírus.

Poderia escrever sobre fadiga de Zoom, Skype e afins. De fato, essa maneira de comunicação parece cansar muito mais do que o olho no olho. Talvez por perdermos dicas valiosas de linguagem corporal. Ou porque somos constantemente interrompidos por um pequeno aviso na tela. Até a nossa imagem refletida no cantinho superior— nos lembrando de olhar para a câmera, pentear o cabelo e melhorar a postura — pode contribuir para o cansaço.

Talvez nesta coluna eu poderia escrever sobre o aumento no consumo de álcool na quarentena. As mídias sociais, pelo menos, estão cheias de imagens de profissionais com seu copinho de vinho durante o expediente. Mas será que já sabemos se esse aumento é significativo? Ou será que os bares fechados mais do que compensam essa tendência?

Confesso que não encontrei estatísticas oficiais que me convencessem de um lado ou de outro. Seja como for, a linha de preocupação talvez possa ser tratada de modo funcional e não apenas quantitativo. De modo geral, posso dizer que, se você estiver bebendo para aproveitar o final do dia, o consumo é menos preocupante. No entanto, caso esteja bebendo para conseguir enfrentar o dia na quarentena, é indicado procurar um profissional em saúde mental para, em um tele-atendimento, avaliar o que está acontecendo.

Uma outra opção seria escrever sobre o aumento no consumo de alimentos. Tenho brincado que a OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda iria mudar o parâmetro de peso saudável depois dessa quarentena. O IMC ideal —como eles calculam esse peso saudável — ainda iria subir uns quatro pontos e, claro, é só brincadeira. Mas, se é verdade o que muitas pessoas têm descrito —um descontrole alimentar — , tantas outras estão se beneficiando do momento, consumindo mais comidas caseiras que tendem a ser mais balanceadas. De novo, me parece cedo para chegar a qualquer conclusão.

Vale, portanto o bom senso de sempre. Organizar três refeições saudáveis e alguma atividade física todos ou quase todos os dias. Para compulsão, o melhor remédio seria a a organização alimentar. Acredite, qualquer tipo de restrição só vai aumentar o problema. Isso mesmo: diminuir radicalmente a ingestão calórica ou se proibir de comer doces aumenta a chance de compulsão alimentar. A longo prazo, os atalhos de dietas malucas que tomamos hoje levam a gente a um ciclo de sobrepeso e intranquilidade com a comida.

Mas, seja para que lado formos rodar, a verdade é que retornamos sempre ao mesmo ponto desesperançoso. O que fazer desses tempos de coronavírus? Quando a quarentena acaba e como ela vai acabar? Mais uma vez, voltamos ao mesmo tema de sempre e eu, pelo menos, tento me prometer que esse é o último bombom da noite.

Antes de terminar, respondendo a pergunta do título. Não, não dá para falar de assuntos que não se relacionam ao Covid-19. Mesmo as coisas mais básicas, como alimentação, estão transformadas pela realidade transformada pelo vírus. A questão, talvez, é como a gente pode lidar com esse mesmo assunto construindo a melhor realidade coronavírus que a gente possa.

Sobre o autor

Dan Josua é psicólogo, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Fez especialização em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP (Universidade de São Paulo) e tem formação em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech / The Linehan Institute, nos Estados Unidos. Atua como pesquisador e professor no Paradigma - Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento e dá cursos pelo Brasil afora ajudando a difundir a DBT pelo país.

Sobre o blog

É muita loucura por aí. Trânsito, mudanças climáticas, tensões em relacionamentos, violência urbana, maratona de séries intermináveis, spoilers em todos os cantos, obrigação de parecer feliz nas mídias sociais, emoções à flor da pele. O blog foi criado para ser um refúgio de tudo isso. Um momento de calma para você ver como a ciência do comportamento humano pode lhe ajudar a navegar no meio de tanta bagunça.

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